Ano 1 - nº 4 - agosto/novembro de 2009

O QUE DISSERAM SOBRE WILLIAM WILSON



T. G. Novais: Realizado por Louis Malle, William Wilson é um dos três episódios de Histórias Extraordinárias. Como os outros dois episódios, Toby Dammit (dirigido por Fellini) e Metzengerstein (dirigido por Roger Vadim), é baseado num conto daquele que considero o mais talentoso escritor norte-americano: Edgar Allan Poe.

Ornella Volta: “William Wilson” (publicado em 1840) é o mais autobiográfico dos contos de Poe.

T. G. Novais: Poe, um pobre órfão, foi adotado ainda criança por uma rica família do Sul... Do “Sul profundo”, que deu ao mundo tantos escritores... escritores talentosos como William Faulkner, Mark Twain, Willa Cather, o dramaturgo Tennessee Williams, o roteirista Lee Falk (criador de dois personagens famosos dos Quadrinhos: o mágico Mandrake e O Fantasma)... Como eu falei, Poe foi adotado ainda muito criança por uma família abastada. Porém, os sofrimentos de seus primeiros anos fizeram nascer nele um sombrio sentimento de culpabilidade, de revolta. Sentia no seu íntimo um tumulto de forças obscuras. Ao lado de Poe, a criança adotada por um casal burguês, a criança inteligente, caprichosa, mimada, vivia outro Poe, seu alter ego negativo, o indivíduo influenciado e dominado pela obsessão e pelos pesadelos de uma primeira infância pobre e miserável... O Poe mau e anormal escondia-se e dormia no íntimo do Poe normal, aguardando perfidamente a hora de surgir com toda a sua virulência... Assim se estabeleceu essa dupla personalidade, que mais tarde Poe descreveria minuciosamente, com deleite, no conto “William Wilson”. William Wilson, o mau, tem um duplo bom que o persegue ao longo de toda a sua vida, empenhando-se em fazer frustrar as perfídias cometidas e restaurar a justiça ultrajada pelo outro. De igual modo – e invertendo os termos –, Poe traz dentro de si um Poe obstinado em destruir, em alguns instantes de loucura, de extravagância ou de embriaguez, a estima, a afeição e a reputação conquistadas à custa de tantos esforços. E, em razão disso, estabelece-se um conflito íntimo, uma luta entre Jekyll (o Poe bom) e Hyde (o Poe mau).

Theodore Field: Em O Médico e o Monstro (novela escrita por Robert Louis Stevenson), o dr. Jekyll afirma que “o homem não é realmente um só, e sim dois”.

T. G. Novais: Como bem disse Ornella Volta, “William Wilson” é um conto eminentemente autobiográfico. Um péssimo indivíduo é perseguido ao longo da sua vida por um (...) sósia, um doppelgänger, um duplo, que é afinal a sua própria consciência. Desesperado, o “mau” Wilson mata o “bom” em duelo. (a seguir, T. G. Novais recita o final do conto) “Tu venceste, e eu morro. Mas doravante estarás também morto – morto para o Mundo, para o Céu e para a Esperança. Tu vivias em mim. Vê, pois, na minha morte, vê na minha própria imagem que é a tua, como assassinaste a ti mesmo!”

Will Eisner: Há uma antiga lenda no folclore alemão que fala do doppelgänger, que supostamente seria o segundo eu de um homem, ou sua exata duplicação física que o atormentaria implacavelmente.

Tullio Kezich: (William Wilson é) uma das melhores coisas de Malle.

Fernando Ferreira: (No filme Histórias Extraordinárias,) Louis Malle foi quem mais próximo se manteve da história original e mesmo do espírito do autor. Depois da gratuidade pictórica de Vadim, no episódio de Malle, ganha a fita uma inesperada densidade e um sopro de sinceridade. O realizador procurou dotar a personagem central (interpretada por Alain Delon)

daquela espécie de não-alternativa que dota, via de regra, os personagens de seus filmes (...). Mas a narrativa de Malle se inicia melhor do que termina. A seqüência do jogo de cartas – na qual há um duelo entre dois ícones do cinema francês, Delon x Bardot – tem uma excessiva sobriedade e é longa demais. Por outro lado, Malle não alcançou de seu principal intérprete uma convincente participação, aqui e em todo o episódio. Como está, não chega a ser Poe, como o desejaríamos, e é muito pouco Malle para satisfazer-nos. É de notar, ainda, que algumas das menos felizes qualidades do realizador, evidentes em alguns de seus filmes – a frieza, uma certa distância e apatia pelo comportamento dos personagens –, acabaram por se impor.

Brigitte Bardot: Sacha Guitry disse que certas cenas de uma fita são tão importantes quanto uma parte principal. Espero que isto tenha acontecido com minha seqüência em William Wilson.

Antonio Gonçalves Filho: Em William Wilson, (...) BB não aliena seu corpo; mas o de um homem, não por acaso o maior mito sexual masculino do cinema francês, Alain Delon. De certo modo, Brigitte consegue se vingar de todos os homens que desejaram seu corpo – e apenas ele – dentro e fora do cinema. (...) Malle (...) ofereceu a Brigitte um papel em que a atriz, de peruca preta, transformada, fuma charutos como um homem e submete o macho a seus caprichos.

Brigitte Bardot: (...) a enorme peruca negra (...), como uma boina de soldado de Napoleão, ornava meu rosto como uma espécie de apêndice absolutamente desastroso! Eu sempre me perguntei por que Louis Malle quis me desfigurar daquela forma.

Louis Malle: A minha principal preocupação foi a de torná-la irreconhecível. Vesti-a de preto, escondi seus cabelos com uma peruca preta e dei-lhe um ar pálido. (...) Para tornar Brigitte ainda mais insólita, quis mudar sua voz. (...) A voz autêntica da Bardot, com aquela sua cantilena característica, poderia dissolver imediatamente e por completo qualquer atmosfera que se pretendia onírica.

 

QUEM É QUEM

Antonio Gonçalves Filho – jornalista brasileiro
Brigitte Bardot – atriz francesa
Fernando Ferreira – crítico cinematográfico brasileiro
Louis Malle (1932-1995) – cineasta francês
Ornella Volta
– entusiasta do Horror e do Fantástico
T. G. Novais (1927-2008) – escritor, jornalista e tradutor nascido no Brasil
Theodore Field
– ?
Tullio Kezich
– escritor e jornalista italiano
Will Eisner (William Erwin Eisner, 1917-2005) – quadrinhista norte-americano, filho de imigrantes judeus poloneses