Ano 1 - nº 4 - agosto/novembro de 2009

VIRGINIA POE, UM MODELO PARA DIVERSAS PERSONAGENS
Hervey Allen



Em Richmond, mesmo em 1835, foi observado que a beleza, aliás infantil, de Virginia era perturbada por uma palidez de giz, uma pastosidade que mais tarde se tornou cor de cera. Tal pormenor seria sem importância, não fosse o fato de ter ela ficado tuberculosa, poucos anos mais tarde, vindo finalmente a falecer disto. Virginia fora criada na mesma casa em que Henry Poe morrera do pulmão; certa disposição na família Poe parece ter levado a isso, acrescentando-se, como fator eficiente, as deficiências alimentícias da casa da sra. Clemm. A aflição, o aspecto e algumas das características mais etéreas e mais anormais da mulher-criança foram transportados à literatura.
Para Poe, a “delicadeza” que os avanços gradativos da doença mortal, mas então romântica e da moda, conferiam à sua mulher – o estranho e lívido palor, tinto dum leve vermelho febril, os grandes olhos líquidos e assombrados – adquiriam, pouco a pouco, uma fascinação característica. Das vastas e mais tarde aterrorizadas profundezas daqueles olhos, espreitava o espírito de alguém que fora roubado à vida, um pensamento que brotara, simples, de seu corpo, e que contudo era bastante sábio para sentir sua própria tragédia. Todo o seu ser, pouco a pouco se foi tornando morbidamente etéreo. A rechonchudez permaneceu até o fim; contudo, de certo modo, sofreu uma sutil mudança material, como se a própria Morte estivesse amorosa. Para o homem que se achava indissoluvelmente ligado a ela, tornou-se Virginia parte de sua própria tragédia. Sua capacidade de amar, talvez mesmo sua potencialidade sensual, foi transformada numa simpatia paciente e trágica – a tristeza verdadeiramente magnífica e constante de quem sente na sua cama, no seu jardim e na sua mesa a advertência contínua e patética da onipotência do verme vencedor. Em conjunto, além de sua grande arte, sua constante ternura para com Virginia deve ficar como seu maior direito à simpatia dos corações humanos. Ela foi a chave que abriu completamente para ele a casa das sombras. Ela é o protótipo de suas heroínas.
Virginia tornou-se a sua “Ligeia”, a sua “Eulália”, “Eleonora”, a irmã da Casa de Usher, talvez mesmo sua “Annabel Lee”, “Berenice”, por exemplo.

“Berenice e eu éramos primos e crescemos juntos, no solar paterno. Mas crescemos diferentemente – eu, de má saúde e mergulhado na minha melancolia; ela, ágil, graciosa e exuberante de energia... Oh! deslumbrante, porém fantástica beleza! Oh! sílfide entre os arbustos de Arnheim!... E depois... depois tudo é mistério e horror, uma história que não deveria ser contada. Uma doença, uma fatal doença, soprou, como um simum, sobre seu corpo. E precisamente, quando a contemplava, o espírito da metamorfose arrojou-se sobre ela, invadindo-lhe a mente, os hábitos e o caráter e, da maneira mais sutil e terrível, perturbando-lhe a própria personalidade...”

De modo que todas elas eram sempre sutilmente diversas de Virginia, mas, na realidade, sempre ela mesma; mulheres moribundas, cadaverizadas, usualmente aparentadas a seus amorosos, com a leve sugestão do incesto a vagar, justamente, em torno do túmulo familiar. Era uma página, muitas páginas da própria experiência dele.
Parece estranho que tivesse sido assim, mas devemos lembrar-nos de que Virginia Clemm, no seu verdadeiro aspecto e vida histórica, aproximava-se do ideal do tipo feminino desejado na época. Delicadas, tísicas, sofrendo desmaios, e jacentes languidamente sobre leitos de inválida; dizendo coisas incrivelmente refinadas e sentimentais, – elas definhavam nos braços de seus amantes carpidores, deixando-os golpeados de pesar e tocados pela loucura, que os levava a rondar, para sempre inconsoláveis, o túmulo solitário.

 

Este texto foi transcrito do livro Israfel – Vida e Época de Edgar Allan Poe (Israfel – The Life and Times of Edgar Allan Poe, tradução de Oscar Mendes, Porto Alegre, Livraria do Globo, 1945, pp. 314-315), de Hervey Allen