Ano 1 - nº 4 - agosto/novembro de 2009

POE E O TERROR REAL
Oscar Mendes



Incapaz por natureza e pelas circunstâncias de sua vida de escrever longos romances, Poe aperfeiçoou-se na história curta, no conto, cujo valor reside especialmente na sua força concentrada. Mas o que distingue os seus contos do clássico conto ou romance de terror é certa tônica de autenticidade e de realidade que predomina nas suas histórias. Enquanto os demais autores descreviam um medo exterior, um medo que provinha do mundo sobrenatural, da fantasmagoria, um medo de cenografia teatral com alçapões, fumaça de enxofre e satanases chifrudos, rasgando risadas arrepiantes, Poe descrevia um medo real, um medo que estava dentro do personagem, um medo que estava dentro dele próprio, autor, porque eram os seus terrores, as suas fobias, os seus recalques, reais, autênticos, verdadeiramente existentes, que ele transfundia em seus personagens, que eram sempre projeções dele, Poe, e não criaturas tiradas do mundo objetivo. Não há conto algum de Poe que seja narrado na terceira pessoa. Ele é quem sempre fala, quem sempre narra ou quem está presente para ouvir a confissão deste ou daquele personagem. E é o seu “eu” repleto de terrores, de presságios, de complexos, de inibições, de males físicos e morais que se revela nas suas histórias de terror e de morte.
(...)
Os mistérios da mente e o mistério da morte constituem o tema principal dos contos de Poe. Os terrores que ele descreve com intensidade e impressionante realismo são terrores que se geram na própria mente do personagem, e a realidade ambiente é vista através desse terror e por ele deformada. No seu livro Edgar Poe par Luimême, o escritor Jacques Cabau assinala que o “conto de Poe é o contrário do conto de terror clássico. Em lugar de lançar um indivíduo normal num universo inquietante, Poe larga um indivíduo inquietante em um mundo normal. Nada acontece ao herói; ele é que acontece ao mundo. Não é tomado por um horror exterior; não é o medo que dispara a neurose, mas a neurose que suscita o medo. O herói é medusado pela própria visão. Uma vez apanhado nos seus próprios mecanismos de fascinação, é arrastado para a engrenagem da obsessão”.

 

Este texto foi transcrito da Nota Preliminar que o tradutor Oscar Mendes escreveu para o livro Contos de Terror, de Mistério e de Morte (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1981, pp. 8-9), de Edgar Allan Poe