Ano 1 - nº 4 - agosto/novembro de 2009

O RETRATO OVAL
Edgar Allan Poe
tradução: Marco Aurélio Lucchetti



O castelo cuja entrada meu criado ousara forçar, para não permitir que eu, em minha condição de ferido gravemente, passasse a noite ao relento, era uma daquelas construções que, misturando melancolia e grandeza, por muito tempo ergueram-se carrancudas ao longo dos Apeninos, tanto na vida real como na imaginação da sra. Radcliffe (1). Segundo todas as aparências, tinha sido temporariamente e muito recentemente abandonado. Acomodamo-nos num dos aposentos menores e mobiliado com menos suntuosidade. Ele situava-se numa pequena e remota torre do edifício. Suas decorações eram ricas, embora antigas e estragadas. Suas paredes estavam forradas de tapeçarias e adornadas com numerosos e multiformes troféus heráldicos e um número extraordinariamente grande de espirituosas pinturas modernas em molduras de rico arabesco dourado. Por aquelas pinturas, que não pendiam apenas das paredes, mas também dos inúmeros cantos que a estranha arquitetura do castelo tornava necessários... Por aquelas pinturas meu delírio incipiente havia-me levado, talvez, a tomar profundo interesse; assim, ordenei a Pedro que fechasse os pesados postigos do aposento – pois já era noite –, acendesse as velas de um candelabro alto que estava à cabeceira de minha cama e abrisse completamente as franjadas cortinas de veludo preto que envolviam o leito. Eu quis que tudo isso fosse feito para, no caso de não conseguir dormir, poder pelo menos entregar-me, alternadamente, à contemplação dos quadros e à leitura de um pequeno volume que encontrara sobre o travesseiro e que criticava e descrevia as pinturas.
Li durante muito – muito – tempo e contemplei devotamente aqueles quadros. As horas passaram rápida e maravilhosamente, e chegou a sombria meia-noite. A posição do candelabro desagradava-me; e, estendendo a mão com dificuldade, já que não queria perturbar meu criado adormecido, coloquei-o de modo que lançasse em cheio a luz sobre o livro.
Minha ação, porém, produziu um efeito inteiramente imprevisto. Os raios das numerosas velas (havia muitas) incidiram sobre um nicho que até então estivera mergulhado na mais densa sombra lançada por uma das colunas da cama. Conseqüentemente, vi, à plena luz, uma tela que ainda não havia percebido. O retrato de uma jovem que despertava para a feminidade. Lancei rápido olhar para o quadro e depois fechei os olhos. Por que fiz isso não ficou claro nem a mim mesmo. Mas, enquanto minhas pálpebras permaneceram cerradas, busquei dentro de minha mente a razão de ter agido daquele modo. Fora um movimento impulsivo, para ganhar tempo de pensar, para assegurar-me de que a vista não me enganara, para acalmar e dominar minha imaginação, a fim de olhar de novo com mais serenidade e mais certeza. Após alguns momentos, olhei outra vez, fixamente, a pintura.
Do que agora eu via perfeitamente não podia e não devia duvidar, porque o primeiro lampejo das velas sobre a tela pareceu ter dissipado o sonolento torpor que furtivamente se apossava de meus sentidos e sem demora me pôs completamente desperto.
O retrato, como eu já disse, era de uma jovem. Mostrava apenas cabeça e ombros, no estilo chamado tecnicamente de vignette, quase nos moldes das cabeças favoritas de Sully (2). Os braços, o colo e mesmo as pontas do cabelo luminoso mesclavam-se imperceptivelmente ao vago mas profundo sombreado que constituía o fundo do conjunto. A moldura era oval, ricamente dourada e filigranada em estilo mourisco. Como objeto de arte, nada podia ser mais admirável que a própria pintura. Mas não podia ser a execução da obra, ou a imortal formosura do rosto, que me impressionara tão súbita e veemente. Menos ainda poderia ter sido minha imaginação, que, despertada de seu quase adormecimento, tivesse confundido aquela cabeça com a de uma pessoa viva. Vi logo que as peculiaridades do desenho, da vignette e da moldura teriam repelido instantaneamente tal idéia. Pensando seriamente sobre isso, fiquei talvez uma hora meio erguido, meio reclinado, com os olhos fixos no quadro. Por fim, compreendendo o verdadeiro segredo de seu feito, deitei-me. Descobrira que o encanto do retrato estava na expressão de uma absoluta aparência de vida, que, a princípio, me espantou e, depois, confundiu-me, dominou-me e aterrorizou-me. Com profundo e reverente temor, tornei a colocar o candelabro em sua posição primitiva. Ficando assim oculta a causa de minha agitação, apanhei avidamente o volume que descrevia as pinturas e sua história.
Na página que se referia ao retrato oval, li as seguintes palavras, vagas e singulares:

“Ela era uma donzela da mais rara beleza; e, além de atraente, era também cheia de alegria. E maldita foi a hora em que viu, amou e desposou o pintor. Ele, apaixonado, estudioso, austero e já tendo uma noiva em sua arte. Ela, uma donzela da mais rara beleza, era toda luz e sorrisos, além de travessa como uma corça nova. Amava e animava todas as coisas. Odiava somente a Arte, que era sua rival. Temia somente a paleta, os pincéis e outros sinistros instrumentos que a privavam do rosto do amado. Foi, portanto, terrível para essa mulher ouvir o pintor expressar o desejo de retratá-la. Mas ela era humilde, obediente e, durante semanas a fio, sentou-se mansamente no escuro e alto quarto da torre, onde a luz vinha apenas de cima e projetava-se, escassa, sobre a alva tela. Ele, o pintor, tomou gosto por seu trabalho, que prosseguiu hora após hora, dia após dia. Era homem apaixonado, rude, taciturno, que se perdia em devaneios; assim, não percebia que a luz que caía tão lívida naquela torre solitária ia murchando a saúde e o espírito de sua esposa, que para todos – menos para ele – definhava visivelmente. Apesar disso, ela continuava ainda e sempre a sorrir, sem um queixume, porque via que o pintor (que tinha alto renome) trabalhava com fervoroso prazer, dia e noite. E todos os que contemplavam o retrato falavam em voz baixa de sua semelhança, como prova da mestria do pintor e de seu intenso amor por aquela a quem pintava de modo tão exímio. Quando a obra se aproximava do término, ninguém mais foi admitido na torre, porque o pintor se tornara selvagem no ardor de seu trabalho. Ele raramente desviava os olhos da tela, nem mesmo olhava para sua esposa. E, portanto, não percebia que as tintas que espalhava sobre a tela eram tiradas das faces daquela que se sentava a seu lado. Certo dia, em que muito pouco restava a fazer, com exceção de uma pincelada sobre a boca e um colorido nos olhos, o espírito da dama bruxuleou novamente, como a chama dentro de uma lamparina. E, então, foi dada a pincelada e completado o colorido. E, por um momento, o pintor deteve-se, extasiado, diante da obra que havia executado. Em seguida, enquanto ainda contemplava o retrato, pôs-se a tremer e, pálido, horrorizado, gritou:
‘Isto é, na verdade, a própria Vida!’ Voltou-se, subitamente, para ver sua bem-amada... Ela estava morta!”

 

NOTAS:

(1) Ann Ward Radcliffe (1764-1823) é parte integrante do Romantismo inglês e marco da literatura universal. Ela é, cronologicamente falando, a primeira mulher-romancista européia, precursora das inúmeras escritoras inglesas – Jane Austen, Mary Shelly, as irmãs Brontë (Charlotte, Emily e Anne) e Virginia Woolf (que considerava a sra. Radcliffe “protótipo do Romantismo”), entre outras. Escreveu cinco romances: The Castle of Athlin and Dunbayne (1789), A Sicilian Romance (1790), The Romance of the Forest (1792), The Mysteries of Udolpho (1794) e The Italian (1797), que são do gênero Gótico. – nota do tradutor

(2) Nascido na Inglaterra, Thomas Sully (1783-1872) foi um pintor norte-americano que em seus trabalhos sempre deu preferência aos efeitos pictóricos. Uma de suas obras mais conhecidas é “Washington Crossing the Delaware”, realizada por volta de 1818. – nota do tradutor