Ano 1 - nº 4 - agosto/novembro de 2009

UM POEMA “TRADUZÍVEL”



(...) “O Corvo”, de Edgar Allan Poe, transformou-se rapidamente, depois de sua descoberta por Baudelaire, em um dos poemas mais famosos da literatura universal, não só pela sua excelência e originalidade, pelo efeito quase hipnótico da estrutura, como também pelo ensaio a que deu origem, “A Filosofia da Composição”, no qual Poe, com a sua irresistível atração pelas mistificações dialéticas, cria uma brilhante gênese, obviamente montada a posteriori, do poema, a qual, apesar disso, e talvez por isso mesmo, se tornou um dos textos primordiais da poética moderna, dando origem a uma linhagem que, passando por (Paul) Valéry, vai entroncar em numerosos críticos e poetas posteriores.
“O Corvo”, com o seu virtuosismo formal explícito, com as suas rimas internas e aliterações inumeráveis, com o seu refrão obsessivo, não podia deixar de atrair, pelo visível mesmo de suas dificuldades, o interesse dos tradutores, revelando-se afinal, sem dúvida alguma, um poema “traduzível”, enquanto muitos outros, aparentemente menos repletos de obstáculos formais tão evidentes (...), comprovaram ser, na verdade, de muito mais difícil, ou impossível, tradução, dotados como eram de uma poesia mais visceral e menos dependente de efeitos formais reproduzíveis.

 

Este texto foi transcrito da Nota Editorial escrita para o livro “O Corvo” e Suas Traduções (Rio de Janeiro, Lacerda Editores, 1998, p. 7), organizado por Ivo Barroso