Ano 1 - nº 4 - agosto/novembro de 2009

SE POE FOSSE FRANCÊS...
Camille Paglia



Os personagens são enterrados vivos em Poe porque ele vê a natureza como um útero hostil, do qual a humanidade jamais pode nascer plenamente. Sua imagem básica assemelha-se ao tholos micênico, o túmulo-útero-colméia subterrâneo. Seus contos são tholoi do romantismo tardio, fundindo os traumas de nascimento e morte. Seu mundo sofre uma gravidez interminável, apostemada. O solo do cemitério em que sua imaginação cava é a paisagem do romantismo tardio, que, uma vez vivificado, quase imediatamente afundou na massa tardo-romântica de vida-objeto em decomposição. O “Muito” da natureza criada, habilmente animada por Keats, jaz em sórdidos monturos que o romantismo tardio está cansado demais para tornar inteligíveis. Daí a sufocação e claustrofobia de Poe. A voz de seu narrador jamais muda, porque escreve a mesma história sempre e sempre. Poe personaliza os úteros daimônicos do romance gótico acrescentando o coleridgiano “EU EXISTO”. A atmosfera gótica torna-se psicologia, ou antes, psicopatologia, tempestuoso clima interno. As narrativas de Poe são desenvolvimentos da lírica do alto romantismo. (...) As narrativas de Poe são odes de invocação pagãs, orientando a imaginação masculina para a onipotente natureza feminina.
Se fosse francês, Poe teria sido, com Gautier, um fundador do esteticismo. Está cheio de anseios estéticos. Mas suas tentativas de aristocráticos ambientes de objets d’art geralmente fracassam, devido à pobreza da cultura americana de sua época. Nada havia no país para cultivar seu gosto, galerias, mansões, catedrais européias. Balzac, Gautier e Baudelaire, por outro lado, iam a festas e passeavam com pintores de vanguarda. As discussões sobre arte enchiam o ar. A elaborada câmara nupcial de “Ligeia” é para Poe o que o adornado toucador é para Balzac. Mas, ai, Poe tascou “um gigantesco sarcófago de granito negro” em cada canto do quarto. Seu estilo de decoração dourada parece o de William Randolph Hearst em San Simeon, um amontoado de objetos valiosíssimos mas incongruentes. (...) em sua busca baudelairiana de uma teoria da arte, Poe foi mal servido por seu país, com a persistente hostilidade puritana americana à beleza e ao prazer.

 

Este texto foi transcrito do livro mais conhecido da ensaísta e professora norte-americana Camille Paglia, Personas Sexuais – Arte e Decadência de Nefertite a Emily Dickinson (Sexual Personae – Art and Decadence from Nefertiti to Emily Dickinson, tradução de Marcos Santarrita, São Paulo, Companhia das Letras, 1992, pp. 529-530)