Ano 1 - nº 4 - agosto/novembro de 2009

O ARTISTA COMO UM PLAGIADOR
Henry Thomas & Dana Lee Thomas



(...) Poe tornou-se famoso como escritor bizarro. Famoso, mas não próspero. Todo o mundo literário se erguera para reconhecer-lhe o talento, ao ganhar o primeiro prêmio com “O Escaravelho de Ouro”, um conto de cifras e segredos. Mas o prêmio rendeu-lhe apenas cem dólares e uma infinidade de aborrecimentos. A história fizera surgir a mania dos “códigos”. Grande número de admiradores mandava-lhe criptogramas e desafiava-o a que os resolvesse. “Perdi em tempo, que para mim é dinheiro, mais de mil dólares, decifrando mensagens secretas” – e isso com o único objetivo de demonstrar a uma grande assistência as suas qualidades analíticas. E a sua assistência se tornou ainda maior, quando surpreendeu o mundo com “O Corvo”. Não obstante, apesar de toda a sua fama, continuou tão pobre como antes: vendera “O Corvo” por dez dólares. E assim passou ele pelo mundo, triste, solitária, faminta celebridade trajada de preto, encontrando as pessoas com um sorriso cínico, a “sonhar sonhos que nenhum mortal jamais sonhara antes”.


Trecho inicial do poema "O Corvo", tal como foi publicado no jornal New York Mirror

A despeito da tristeza e da fome, continuou criando suas estranhas visões e – admitamo-lo – plagiando livremente quando lhe diminuía o fogo da imaginação. Quando outros escritores lançavam mão dessa classe não permitida de empréstimo, ele chamava isso abertamente de roubo. Mas quando ele próprio o fazia... bem, ele o fazia, e isso era tudo! Vivia num mundo cujas leis, cujos costumes e cujas necessidades ficavam muito além da compreensão da média da inteligência humana. Seus criptogramas, suas mistificações, suas descrições pseudo-científicas de viagens em balão e as narrações de conversas com mortos e cadáveres ressuscitados – tudo isso era parte e parcela da fantasmagoria em que o seu espírito habitualmente vivia. Acaso a vida inteira não era uma mistificação, uma visão fantástica plagiada por algum Poeta Divino do pesadelo épico de um espírito diabólico? Por que, então, não deveria ele, poeta humano, plagiar as visões fantásticas de outros cérebros humanos?

 

Este texto foi transcrito do livro Vidas de Grandes Poetas (Living Biographies of Great Poets, Porto Alegre, tradução de Brenno Silveira, Porto Alegre, Globo, 1952, pp. 233-234), de Henry Thomas & Dana Lee Thomas