Ano 1 - nº 4 - agosto/novembro de 2009

AS PERSONAGENS FEMININAS DE POE
J. K. Huysmans



A morte, tão abusada por todos os dramaturgos, ele (Poe), de algum modo, enfocara sob um ângulo mais pungente, transformando-a, nela introduzindo um elemento algébrico e sobre-humano; porém, para dizer a verdade, não era tanto a agonia real do moribundo o que descrevia, e sim a agonia moral do sobrevivente obsedado, diante do leito lamentável, por monstruosas alucinações engendradas pela dor e o cansaço. Debruçou-se com atroz fascinação sobre as influências do terror, sobre os colapsos da vontade, racionalizou-os friamente, apertando pouco a pouco a garganta do leitor, sufocado, ofegante ante estes pesadelos de febre delirante.
Convulsionadas por neuroses hereditárias, perseguidas por coréias morais, suas criaturas só viviam pelos nervos. Suas mulheres, as Morellas, as Ligeias, possuíam imensa erudição, impregnadas das névoas da filosofia alemã e pelos mistérios cabalísticos do antigo Oriente; e tinham todas o busto de efebos, inerte, como de anjos (eram todas, por assim dizer, assexuadas).

 

Este texto foi transcrito do livro Poe Desconhecido (tradução de Luiz Fernando Brandão, Porto Alegre, L&PM, outono de 1989, p. 134), editado por Raymond Foye