Ano 1 - nº 4 - agosto/novembro de 2009

PAUSA PARA O CAFÉ
Rubens Francisco Lucchetti


Neste número do Jornal do Cinema dedicado a Edgar Allan Poe, nada melhor do que tomarmos um café em sua companhia e ouvir o que ele tem a nos dizer.

Se me fosse solicitado definir, de forma bem sucinta, o termo “Arte”, eu a qualificaria como “a reprodução do que os sentidos percebem na Natureza através do véu da alma”.

Não é absolutamente irracional a noção de que, numa existência futura, consideraremos essa nossa atual existência como um sonho.

Escrevo por imperativo mental, para satisfazer o meu gosto e o meu amor pela Arte. A glória não exerce em mim a menor influência determinista. Como eu poderia preocupar-me com o juízo de uma multidão, se desprezo cada um dos indivíduos que a constituem?

O gênio é parente próximo da loucura.

Em geral, nossas primeiras impressões são as verdadeiras.

Certamente, toda causa produz um efeito. Mas, em geral, é igualmente bem certo que uma repetição de efeitos tende, por sua vez, a tornar-se um hábito. Aí é que reside o princípio do que chamamos vagamente hábito.

Se não podemos compreender Deus em suas obras visíveis, como poderemos compreendê-lo em seus pensamentos mais inconcebíveis?

Os planos de Deus são perfeitos. O Universo é um plano de Deus.

Uma infinidade de erros tem lugar em nossa Filosofia, em razão de o homem considerar-se cidadão de um único mundo, de um único planeta, em vez – de ao menos ocasionalmente – contemplar sua posição como um autêntico ser cosmopolita, como um homem do Universo.

Depois de ler tudo o que foi escrito e após pensar tudo o que se pode pensar sobre os temas Deus e alma, o homem, que tem o direito de dizer o que pensa sob qualquer condição, vai se ver frente a frente com a conclusão de que, nestes temas, o pensamento mais profundo é o que menos facilmente pode ser distinto do pensamento mais superficial.

Não posso deixar de pensar que os maiores espíritos, os que mais consciência têm da vaidade das glórias humanas, se contentaram em permanecer mudos e desconhecidos.

Podemos sempre duplicar a beleza de uma paisagem, contemplando-a com os olhos semicerrados.

O Sentimento Poético pode, sem dúvida, desenvolver-se de vários modos – na Pintura, na Escultura, na Arquitetura, na Dança... muito particularmente na Música e muito peculiarmente, com vasto campo, na composição do Ajardinamento Paisagístico.

Somos muitas vezes levados a sentir, com prazer, que de uma harpa terrena irrompem notas que não podem deixar de ser familiares aos anjos.

Às vezes, me divirto tentando imaginar qual seria o destino de um indivíduo dotado, ou melhor, amaldiçoado com um intelecto muito superior ao de sua raça. Naturalmente, ele teria consciência de sua superioridade; tampouco poderia (se sob outros aspectos constituído à forma humana) evitar manifestar sua consciência.  Assim, conquistaria um inimigo em cada esquina.

É preciso observar que um poema só merece este título enquanto emociona, elevando a alma. O valor do poema está na razão desta emoção exaltante.

Considero que os perfumes têm poderes dos mais particulares para provocar em nós associações de idéias, associações que diferem essencialmente das nascidas das sensações que provêm do paladar, do tato, da visão e da audição.

Há momentos em que, mesmo aos sóbrios olhos da Razão, o mundo da nossa triste humanidade deve assumir o aspecto de Inferno (...).

O progresso realizado em alguns anos pelas revistas e magazines não deve ser interpretado como quereriam certos críticos. Não é uma decadência do gosto ou das letras americanas. É, antes, um sinal dos tempos. É o primeiro indício de uma era em que se irá caminhar para o que é breve, condensado, bem digerido, e se irá abandonar a bagagem volumosa; é o advento do jornalismo e a decadência da dissertação. Começa-se a preferir a artilharia ligeira às grandes peças. Não afirmarei que os homens de hoje tenham o pensamento mais profundo do que há um século; mas, indubitavelmente, eles o têm mais ágil, mais rápido, mais reto, mais metódico, menos pesado. De outro lado, o fundo dos pensamentos se enriqueceu. Há mais fatos conhecidos e registrados, mais coisas para refletir. Somos inclinados a enfeixar o máximo possível de idéias no mínimo de volume e espalhá-las o mais rapidamente que pudermos. Daí nosso jornalismo atual; daí, também, nossa profusão de magazines.

A multiplicação dos livros, em todos os ramos da Ciência, é um dos flagelos de nossa época. É, mesmo, um dos obstáculos mais sérios à aquisição de conhecimentos exatos. O leitor encontra seu caminho obstruído por uma multidão de materiais e só tateando é que, de vez em quando, encontra alguns restos úteis, misturados, por acaso, aos demais.

Encarando o mundo como ele é, veremos ser tolice negar que, para o sucesso mundano, a Vileza é um caminho mais seguro que a Virtude. O que as Escrituras entendem como “o fermento da iniqüidade” é o fermento com que os homens prosperam.

Um artista somente o é pelo seu sentimento refinado de beleza, que para ele se torna assim uma fonte de gozo extático.

Eu não fui desde a infância jamais
Semelhante aos outros. Nunca vi as coisas
Como os outros as viam. Nunca logrei
Apaziguar minhas paixões na fonte comum
Nem tampouco extrair dela os meus sofrimentos.
Nunca pude, em conjunto com os outros,
Despertar o meu peito para as doces alegrias,
E, quando ame, fi-lo sempre sozinho.
Por isso, na aurora da minha vida borrascosa,
Evoquei como fonte de todo o bem e todo o mal
O mistério que envolve, ainda e sempre,
Por todos os lados, o meu cruel destino...

 
Rubens Franciso Lucchetti é ficcionista e roteirista de Cinema e Quadrinhos