Ano 1 - nº 4 - agosto/novembro de 2009

MORELLA
Edgar Allan Poe
tradução: Marco Aurélio Lucchetti



“Ele mesmo, por si mesmo unicamente,
Eternamente UM, e único.”
Platão
 

Eu olhava minha companheira Morella com um sentimento de profunda – embora singularíssima – afeição. Tendo-a conhecido há muitos anos, minha alma, desde nosso primeiro encontro, incendiou-se com um fogo que não conhecia até então. Não era o fogo de Eros; e foi amarga e tormentosa para meu espírito a convicção crescente de que não podia, de modo algum, definir sua incomum significação ou regular sua vaga intensidade. Conhecemo-nos, e o destino nos conduziu juntos ao altar; mas nunca falei de paixão, nem pensei em amor. Ela, contudo, evitava os outros e, ligando-se somente a mim, fazia-me feliz. Maravilhar-se é uma felicidade, e é uma felicidade sonhar.
A erudição de Morella era profunda. Como espero demonstrar, seus talentos não eram de ordem comum – sua mente era prodigiosa. Senti isso e, em muitas matérias, tornei-me seu discípulo. Todavia, logo compreendi que, talvez por ter sido educada em Presburg, ela me apresentava um grande número desses escritos místicos que são geralmente considerados como o sedimento da primitiva literatura germânica. Essas obras, por motivos que eu não podia imaginar, eram seu estudo predileto e constante; e se, com o passar do tempo, foram o meu também, devo isso à simples, mas eficaz, influência do hábito e do exemplo.
Em tudo isso, se não me equivoco, minha razão tinha pouco a fazer. Minhas convicções, ou me desconheço, não estavam baseadas, de maneira alguma, em um ideal, nem se podia descobrir – a menos que esteja grandemente enganado – em meus atos ou em meus pensamentos qualquer tintura das coisas místicas que eu lia. Convencido disso, abandonei-me sem reservas à direção de minha esposa e penetrei, sem medo, no labirinto de seus estudos. E, quando mergulhado nas páginas proibidas, sentia um espírito nefasto acender-se dentro de mim, Morella colocava a mão fria sobre a minha e extraía das cinzas de alguma filosofia morta palavras graves e singulares, cujo sentido estranho era gravado a fogo em minha memória. E, então, hora após hora, eu permanecia a seu lado, imergindo-me na música de sua voz, até que, por fim, essa melodia se maculasse de terror. Aí, uma sombra caía sobre minha alma; eu empalidecia e tremia interiormente, ante aqueles sons sobrenaturais. Assim, a alegria subitamente se desvanecia no horror, e o mais belo se transformava no mais horrendo, como se o Paraíso se transformasse no Inferno.
É desnecessário fixar o caráter exato das investigações que, surgindo dos volumes mencionados, constituíram, por longo tempo, quase que o único tema de conversação entre mim e Morella. Os instruídos no que se pode denominar moralidade teológica o compreenderiam facilmente; porém, os leigos pouco entenderiam. O extraordinário Panteísmo de Fichte; a Palingenésia modificada de Pitágoras; e, acima de tudo, as Doutrinas de Identidade, como apresenta Schelling... eram esses geralmente os assuntos de discussão que apresentavam mais beleza à imaginativa Morella. Essa identidade que é chamada pessoal, mr. Locke, eu creio, define-a com precisão, dizendo que consiste na salvaguarda do ser racional. E, desde que por pessoa entendemos uma consciência sempre acompanhada de pensamentos, é precisamente essa consciência o que nos faz a todos sermos nós mesmos, distinguindo-nos dos outros seres pensantes e dando-nos uma identidade pessoal. O principium individuationis – a noção dessa identidade, que, com a morte está perdida ou não para sempre – foi para mim, em todos os tempos, uma questão de intenso interesse; não só por causa da desconcertante e emocionante natureza das suas conseqüências, mas também pela maneira singular e agitada com que Morella falava a respeito disso.
Mas chegou um momento em que o mistério dos hábitos de minha mulher me oprimia como um encantamento. Eu não podia suportar mais o contato de seus dedos lívidos, nem o tom grave de sua fala, nem o brilho de seus olhos melancólicos. E ela sabia de tudo isso e não me censurava; parecia ter consciência de minha fraqueza ou de minha loucura e, sorrindo, chamava-a Destino. Parecia também saber a causa, para mim desconhecida, da diminuição gradual de meu afeto; no entanto, não fazia nenhuma alusão, por menor que fosse, a essa causa. E ela não era mais que uma mulher que, a cada dia, se aproximava mais e mais da morte. Com o tempo, uma mancha rubra se fixou em sua face; e as veias azuis de sua fronte se tornaram proeminentes. E, quando meu espírito se enchia de piedade ao vê-la, meu olhar encontrava seus olhos expressivos; e a compaixão transformava-se em mal-estar. Ficava tonto. Sentia a mesma vertigem que deve sentir alguém que olha para dentro de um lúgubre e insondável abismo.
Poderei, então, dizer que aguardava, com um desejo intenso e devorador, o momento da morte de Morella? Sim, eu aguardava. Mas o frágil espírito agarrou-se à sua casa de barro por muitos dias, muitas semanas, muitos cansativos meses, até que meus nervos torturados venceram minha mente. Então, fiquei enfurecido com a demora e, com o coração de um demônio, amaldiçoei os dias, as horas, os minutos amargos, que pareciam alongar-se cada vez mais – como as sombras ao morrer do dia –, à medida que sua frágil vida definhava.
Numa noite de outono, porém, quando não soprava vento algum, Morella me chamou à sua cabeceira. Uma bruma escura cobria toda a terra; e um resplendor ardia sobre as águas e entre a rica folhagem de outubro, como se um arco-íris tivesse caído do firmamento.
– Este é o dia dos dias! – Disse ela, quando me aproximei. – O mais belo dos dias para viver ou para morrer. É um belo dia para os filhos da terra e da vida! Ah! E mais belo ainda para as filhas do céu e da morte!
Beijei-lhe a fronte, e ela continuou:
– Vou morrer; no entanto, viverei.
– Morella!
– Não existiram nunca dias em que tivesse podido me amar; porém, irá adorar depois de morta aquela que, quando viva, o aborreceu.
– Morella!
– Repito que vou morrer. Mas dentro de mim há um fruto desse afeto (ah! tão pequeno!) que sentiu por mim. E, quando eu partir, a criança, nosso filho, viverá. No entanto, eu aviso: suas horas de felicidade já passaram, porque, como as rosas de Paestum não brotam duas vezes por ano, não se tem alegria duas vezes numa mesma vida. Portanto, seus dias serão de tristeza, a tristeza que é o mais duradouro dos sentimentos, assim como o cipreste é a mais duradoura das árvores.
– Morella! – Gritei. – Morella! Como sabe tudo isso?
Ela, porém, voltou o rosto sobre o travesseiro. Um leve tremor agitou seus membros, e não mais ouvi sua voz.
Entretanto, como havia dito, o filho, a quem, ao morrer, dera à luz – ele começou a respirar somente após a morte da mãe –, viveu. Era uma menina. E cresceu estranhamente em estatura e em inteligência, vindo a tornar-se a imagem perfeita de Morella. E eu a amava com um amor que jamais pensei ser possível sentir por pessoa alguma na Terra.
Passado algum tempo, a melancolia, o horror e a angústia se instalaram em meu coração. Já disse que a menina crescera estranhamente e que estranhamente se desenvolvera a sua inteligência. Além de estranha, nenhuma outra palavra poderia designar melhor o rápido desenvolvimento de seu corpo. E terríveis e tumultuosos foram meus pensamentos, enquanto vigiava seu desenvolvimento intelectual. E poderia ser de outra maneira, se eu descobria, diariamente, em suas concepções infantis, os traços de uma mulher já plenamente desenvolvida? Se as lições da experiência saíam de seus lábios de criança? Via-se, a cada instante, a sabedoria e as paixões da maturidade cintilarem em seus olhos grandes e meditativos? Se já era impossível à minha alma dissimular, por mais tempo, a certeza de que algo terrível e inquietante se tinha introduzido em meu espírito e que todos os meus pensamentos estavam influenciados pelas estranhas histórias e pelas impressionantes teorias de Morella? Furtei, então, à curiosidade do mundo esse ser que o destino me mandava adorar; e, no rigoroso isolamento de meu lar, velei, com mortal ansiedade, por ele.
Enquanto passavam os anos, todos os dias, eu contemplava seu santo, doce e eloqüente rosto. Então, descobria em suas feições inúmeras semelhanças com as de sua mãe. E, a cada instante, essas semelhanças se tornavam mais completas, definidas, inquietantes e espantosas. Era lógico que seu sorriso se parecesse com o da mãe, mas essa demasiada identidade fazia-me estremecer. Era lógico também que seus olhos se parecessem com os da mãe; mas eles também penetravam muitas vezes no fundo de minha alma, com a mesma intensa e desnorteante expressividade dos de Morella. E, no contorno de sua fronte elevada, nos cachos de seu cabelo sedoso, no hábito de mergulhar nele os dedos pálidos, no timbre grave e musical de sua voz e, sobretudo – acima de tudo! – nas frases e expressões da morta saídas dos lábios da viva, eu encontrava alimento para um horrível pensamento devorador, para um verme que não queria morrer.
Assim se passaram dois lustros de sua vida, e ela continuava ainda sem nome. “Minha criança” e “meu amor” eram as palavras que eu, um pai afetuoso, usava habitualmente para chamá-la. O nome Morella morrera com a morte de Morella. E nunca falei da mãe para a filha, era impossível para mim fazê-lo. Por outro lado, durante sua breve existência, minha criança não recebeu quaisquer impressões do mundo exterior, a não ser – é claro – aquelas que eram inevitáveis. Mas, fatalmente, a cerimônia do batismo se apresentou ao meu espírito, com agitação e enervamento, como uma libertação imediata dos terrores de meu destino. E, já diante da pia batismal, hesitei em escolher um nome, apesar de surgirem em minha mente inúmeras denominações (de tempos antigos e tempos modernos, de meu país e de terras estrangeiras) repletas de beleza, assim como tantos outros nomes evocadores de nobreza, ventura e bondade. Que foi, então, que me impeliu a recordar a morta? Que demônio me obrigou a sussurrar um nome cuja simples recordação fazia o sangue fluir mais rápido em minhas veias e o coração disparar em meu peito? Que espírito maligno falou das profundezas de minha alma, quando, sob as abóbadas escuras da nave e no silêncio sepulcral da noite, sussurrei junto ao ouvido do santo homem: “Morella”? Nesse momento, o rosto de minha filha cobriu-se (por obra de algum demônio) com a cor da morte. Em seguida, minha criança voltou os olhos límpidos para o céu e, caindo sobre a negra e fria laje, murmurou: “Aqui estou!”
Essas palavras curtas e simples soaram friamente claras e distintas aos meus ouvidos e, depois, como chumbo derretido, infiltraram-se sibilantes em meu cérebro. Perdi completamente as noções de espaço e de tempo. Tudo se cobriu de sombras; e todas as figuras terrenas se tornaram, aos meus olhos, apenas sombras, entre as quais eu só distinguia com clareza uma – Morella! Aos meus ouvidos, o vento e o marulho das ondas sussurravam apenas um som: Morella! Minha filha morreu, e foram minhas mãos que a carregaram até o túmulo. E ri um riso longo e amargo, quando, ao sepultar a segunda, não encontrei o menor vestígio da primeira Morella.