Ano 1 - nº 4 - agosto/novembro de 2009

METZENGERSTEIN – O CONTO
Constantino Paleólogo



(...) “Metzengerstein”, publicado em janeiro de 1836. Nada é impossível para a tenebrosa imaginação de Poe. A mais horripilante representação do seu conflito interior, devemos aceitá-la tal como a escreveu. Estivéssemos tratando de outro autor e talvez recuássemos diante da interpretação que esta história exige. Se nela não existissem certas particularidades demasiado positivas, confessaríamos nossa impotência para explicar a sua significação. Mas os fatos falarão por si.
Os olhos do jovem barão de Metzengerstein voltaram-se “involuntariamente para a figura de um enorme cavalo, dum colorido fora do comum, representado na tapeçaria como pertencente a um antepassado sarraceno da família de seu rival. Quanto mais olhava, mais absorvente se tornava o feitiço, mais impossível lhe parecia poder arrancar seu olhar do fascínio daquela tapeçaria. Mas a algazarra lá de fora se tornou de repente mais violenta; e, com um esforço constrangedor, desviou sua atenção para o clarão de luz vermelha, lançado em cheio sobre as janelas do aposento, pelas cavalariças em chamas. A ação, porém, foi apenas momentânea; seu olhar se voltou maquinalmente para a parede. Com extremo espanto e horror, verificou que a cabeça do gigantesco corcel havia, entrementes, mudado de posição. O pescoço do animal antes arqueado, como que cheio de compaixão, sobre o corpo prostrado de seu dono, estendia-se, agora, plenamente, na direção do barão. Os olhos, antes invisíveis, tinham agora uma expressão enérgica e humana, cintilavam com um vermelho ardente e extraordinário; e os beiços distendidos do cavalo, que parecia enraivecido, exibiam por completo seus dentes sepulcrais e repugnantes”.
Cheio de terror, o barão saiu e “no portão principal encontrou três eguariços. Com muita dificuldade e com imenso perigo de suas vidas, continham eles os saltos convulsivos dum cavalo gigantesco de cor avermelhada”. E Metzengerstein descobre que é o mesmo fantástico animal da tapeçaria. Os servos descobrem que na testa do cavalo estão as iniciais de Wilhelm Von Berlifitzing, o rival do barão. Mas Metzengerstein se apossa do cavalo e simultaneamente recebe a notícia da morte do seu inimigo. Desde então não pôde separar-se do terrível animal. Surgiram desse fato insinuações tenebrosas: “Na verdade, o apego depravado do barão à sua montaria, recentemente adquirida, apego que parecia alcançar novas forças a cada novo exemplo das inclinações ferozes e demoníacas do animal, tornou-se, por fim, aos olhos de todos os homens de bom senso, um fervor nojento e contra a natureza.” Dizia-se também que, por vezes, o jovem Metzengerstein empalidecera e fugira, “diante da súbita e inquisitiva expressão de seu olhar quase humano”. Afinal, numa noite tempestuosa, o barão cavalga o corcel e galopa nas trevas. O palácio incendeia-se e, ante os olhares assombrados da turba, surge o terrível cavalo, que o dono já não pode dominar; e ambos desaparecem “no turbilhão caótico do fogo”.
Esse cavalo que surge do outro mundo, tendo na testa as iniciais do inimigo do protagonista, e que inspira ao barão um fervor nojento e contra a natureza, que mais pode significar senão o problema subconsciente do autor? Que mais pode significar além da mórbida representação do impulso sexual (?) por um cadáver, que sua imaginação tenebrosa transformou num cavalo “de dentes sepulcrais e repugnantes”? Nem sequer faltou o pormenor de que o objeto do “fervor nojento” pertencera no passado ao rival do protagonista e este só o possuía após a morte daquele!

 

Este texto foi transcrito do livro Machado, Poe e Dostoievski (Revista Branca, s. d., pp. 33-35), de Constantino Paleólogo