Ano 1 - nº 4 - agosto/novembro de 2009

LIGEIA
Edgar Allan Poe
tradução: Marco Aurélio Lucchetti



“E ali dentro está a vontade, que não morre. Quem conhece os mistérios da vontade, com sua força? Porque Deus é apenas uma grande força que penetra todas as coisas graças à Sua vontade. O homem não cede aos anjos, nem se rende totalmente à morte, a não ser pela debilidade de sua fraca vontade.”
Joseph Glanvill

Juro pela minha alma que não me lembro como, quando, ou mesmo precisamente onde, conheci lady Ligeia. Passaram-se longos anos desde então, e minha memória enfraqueceu devido a muito sofrimento. Ou, talvez, eu não possa agora recordar essas minúcias porque, na verdade, o caráter de minha amada, seu raro saber, seu singular mas sereno tipo de beleza e a perturbadora e cativante eloqüência de sua fala baixa e musical insinuaram-se em meu coração de maneira tão furtiva que passaram despercebidos e ignorados. No entanto, suponho que a encontrei pela primeira vez e, depois, com maior freqüência em uma grande, antiga e decadente cidade às margens do Reno. Quanto à sua família... Certamente ouvi-a falar a respeito. Não há dúvida de que suas origens são de uma época bem remota. Ligeia! Ligeia! Enterrado em estudos cuja natureza entorpece as impressões do mundo exterior, basta-me esta palavra tão doce – Ligeia! – para evocar diante dos olhos a imagem daquela que não mais existe. E agora, enquanto escrevo, recordo-me de algo: eu nunca soube o nome paterno daquela que foi minha amiga e minha noiva, daquela que foi minha companheira de estudos, daquela que se tornou, por fim, a esposa de meu coração. Seria uma exigência travessa de minha Ligeia?  Ou seria um teste para provar a força de minha afeição... que eu não fizesse perguntas a esse respeito? Ou seria antes um capricho meu, uma oferenda tremendamente romântica, no altar da mais ardorosa devoção? Apenas de modo vago recordo o fato em si. Mas que importa que eu tenha esquecido as circunstâncias que o originaram ou que se seguiram? E, se algum dia o espírito chamado Romance, se algum dia a pálida Ashtophet (com suas asas nebulosas), do Egito idólatra, presidiu, como dizem, a casamentos de mau agouro, então com certeza presidira ao meu.
Há, todavia, um ponto querido em que minha memória não falha. É a pessoa de Ligeia. Era alta, um tanto esbelta e, em seus últimos dias, bastante emagrecida. Seria inútil tentar retratar a majestade, o tranqüilo desembaraço de seu porte, ou a incompreensível leveza e elasticidade de seu andar. Ela chegava e partia como uma sombra. Não me apercebia de sua entrada em meu escritório, exceto quando ouvia a adorada música de sua voz doce e baixa, ou quando ela colocava sua mão de mármore sobre meu ombro. Em beleza de rosto mulher alguma jamais a igualou. Era o esplendor de um sonho de ópio, uma visão etérea e estimulante, uma visão mais estranhamente divina que as fantasias que pairam sobre as almas sonolentas das filhas de Delos. Suas feições, no entanto, não tinham aquele caráter regular que nos ensinaram falsamente a venerar nas obras clássicas do paganismo. “Não há beleza rara”, disse Bacon, lord Verulam, falando com justeza de todas as formas e gêneros de beleza, “sem algo de estranheza nas proporções”. Embora visse que as feições de Ligeia não possuíam a regularidade clássica, embora percebesse que seu encanto era realmente “raro”, embora sentisse que muito de “singularidade” se difundia em sua beleza, tentei em vão descobrir a irregularidade e localizar a origem de minha sensação de “singularidade”. Examinava o contorno da alta e pálida fronte: era irrepreensível (quão fria é, na verdade, essa palavra, quando aplicada a uma majestade tão divina!), com uma pele que rivalizava com o mais puro marfim. Observava suas brilhantes e abundantes madeixas, naturalmente cacheadas e tão negras quanto um corvo. Olhava as linhas delicadas de seu nariz e não me recordava de ter visto perfeição igual, a não ser nos graciosos medalhões dos hebreus. Tinham a mesma voluptuosa maciez de superfície, a mesma tendência quase imperceptível para o aquilino, as mesmas narinas harmoniosamente curvas e reveladoras de um espírito independente. Contemplava a boca encantadora e via nela o coroamento de todas as coisas celestiais: a curva magnífica do curto lábio superior; o aspecto suave e sensual do lábio inferior; as covinhas, que pareciam brincar; e os dentes que refletiam, com um brilho quase cegante, cada raio da bendita luz que caía sobre eles, quando ela os mostrava num sorriso sereno e plácido, que era ao mesmo tempo o mais radiante de todos os sorrisos. Analisava minuciosamente o formato do queixo e aqui encontrava a graciosidade de largura, a suavidade e a majestade, a perfeição e a espiritualidade grega, aquela conformação que o deus Apolo revelara em um sonho a Cleômenes. E, então, analisava os olhos de Ligeia.
Quanto aos olhos, não encontramos modelos na remota antiguidade. Talvez neles se ocultasse o mistério de que fala lord Verulam. Eram muito maiores que os olhos de qualquer criatura humana. Eram mesmo mais rasgados que os olhos de uma gazela do vale de Nourjahad. Mas era somente em certas ocasiões, em certos momentos de intensa excitação, que essa peculiaridade se tornava mais visivelmente perceptível em Ligeia. Nesses momentos, sua beleza era – ou, pelo menos, meu espírito inflamado assim o supunha – a beleza das criaturas que estão acima ou fora da Terra. As pupilas possuíam um negro brilhante, e os cílios eram longos e igualmente negros. As sobrancelhas, de desenho levemente irregular, tinham a mesma cor das pupilas e dos cílios. Todavia, a “singularidade” que eu descobria nos olhos era de natureza distinta da forma, da cor e do brilho deles e devia ser atribuída, portanto, à sua expressão. Ah! Palavra sem sentido, simples som de vaga significação, atrás do qual escondemos nossa ignorância de tanta coisa espiritual. A expressão dos olhos de Ligeia! Quantas e quantas horas meditei sobre ela! Quanto tempo, durante uma noite inteira de meio de verão, lutei para interpretá-la! Que era aquilo, mais profundo que o poço de Demócrito, que jazia no mais fundo das pupilas de minha amada? Que era aquilo? Eu estava tomado pela ânsia de descobrir. Aqueles olhos! Aquelas grandes, brilhantes, divinas pupilas! Elas se tornaram para mim as estrelas gêmeas de Leda, e tornei-me para elas seu mais apaixonado dos astrólogos.
Não há, entre as muitas anomalias da ciência psicológica, exemplo mais intensamente excitante do que o fato – nunca, creio eu, observado nas escolas – de, em nossos esforços para trazer à memória alguma coisa há muito esquecida, chegarmos à própria iminência da lembrança sem, afinal, podermos lembrar. Assim, quantas vezes, em minha intensa análise dos olhos de Ligeia, senti aproximar-se o completo conhecimento do segredo de sua expressão! Senti-o aproximar-se; contudo, nunca consegui apoderar-me dele, pois acabava por desaparecer por completo! Porém (estranho! Oh! O mais estranho de todos os mistérios!), sempre encontrei nos objetos mais comuns do universo uma série de analogias com aquela expressão. Desde que a beleza de Ligeia se introduziu em meu espírito e ali se instalou como num relicário, muitos seres do mundo material me provocaram uma sensação idêntica à que eu sentia quando seus grandes e penetrantes olhos me fitavam. Mas nem por isso deixei de ser incapaz de definir esse sentimento. Reconheci-o muitas vezes no rápido crescimento de uma vinha, na contemplação de uma mariposa, de uma borboleta, de uma crisálida, de uma corrente de água. Senti-o no oceano, na queda de um meteoro. Pressenti-o no olhar de pessoas extraordinariamente idosas. E há uma ou duas estrelas no céu (uma especialmente, uma de sexta grandeza, dupla e mutável, que se encontra próxima da grande estrela da Lira), que, vistas através do telescópio, me deram aquela sensação. Também a experimentei ao ouvir certos sons de instrumentos de corda e, não poucas vezes, ao ler certos trechos de livros. Entre inúmeros outros exemplos, lembro-me bem de certa passagem de um livro de Joseph Glanvill, que, talvez por sua singularidade, nunca deixou de infundir-me a mesma sensação: “E ali dentro está a vontade, que não morre. Quem conhece os mistérios da vontade, com sua força? Porque Deus é apenas uma grande força que penetra todas as coisas graças à Sua vontade. O homem não cede aos anjos, nem se rende totalmente à morte, a não ser pela debilidade de sua fraca vontade.”
Com o passar dos anos e graças a subseqüentes reflexões, consegui estabelecer certa, embora remota, relação entre essas palavras do moralista inglês e parte do caráter de Ligeia. Uma intensidade no pensamento, na ação, na palavra era nela, possivelmente, resultado, ou pelo menos sinal, daquela gigantesca volição que, durante nosso longo convívio, não deu outra prova mais evidente de sua existência. De todas as mulheres que conheci... ela, a tranqüila, a plácida Ligeia, foi a mais violentamente presa dos agitados abutres da paixão desenfreada. E essa paixão eu não podia avaliar senão pela miraculosa dilatação daqueles olhos que, ao mesmo tempo, me encantavam e me aterrorizavam; pela quase mágica melodia, modulação, clareza e placidez de sua voz muito baixa; e pela ardente energia (tornada duplamente efetiva pelo contraste com sua maneira de emiti-las) das estranhas palavras que costumava usar.
Falei do saber de Ligeia: era imenso, como nunca conheci em mulher alguma. Era profunda conhecedora das línguas clássicas; e, até onde iam meus conhecimentos das línguas modernas da Europa, nunca a surpreendi no menor erro. Na verdade, seu saber não se revelava só na Lingüística, mas em qualquer tema de erudição acadêmica. Ligeia não cometia erros! Quão singularmente esse aspecto da personalidade de minha esposa chamou, nos últimos tempos, minha atenção! Disse que seu saber era imenso, como eu nunca conhecera em uma mulher; mas onde está o homem que percorreu, e com êxito, todos os vastos domínios da Filosofia, da Física e da Matemática? Eu não via então o que agora percebo claramente: seus conhecimentos eram imensos, espantosos. Eu estava, porém, suficientemente a par de sua infinita supremacia e resignava-me, com uma confiança infantil, a ser por ela guiado através do caótico mundo da investigação metafísica em que me achava ativamente ocupado nos primeiros anos de nosso casamento. Que imenso júbilo, que intenso prazer, que tamanha esperança etérea eu sentia – quando Ligeia se inclinava sobre mim, em meio de estudos tão pouco devassados, tão pouco conhecidos – alargar-se, diante de mim, aquela admirável perspectiva, ao longo de cuja via esplêndida e virgem podia afinal avançar até o termo de uma sabedoria por demais preciosa e divina para não ser proibida!
Como então deve ter sido pungente o pesar com que, alguns anos depois, vi minhas bem fundadas esperanças criarem asas por si mesmas e voarem para bem longe! Sem Ligeia eu era apenas uma criança tateando no escuro. Somente sua presença, suas lições... tornavam claros os muitos mistérios do transcendentalismo em que estávamos mergulhados. Privadas do brilho radioso de seus olhos, as letras, brilhantes e douradas, tornavam-se mais pesadas e opacas do que o simples chumbo. Então, Ligeia adoeceu. Agora, seus olhos brilhavam cada vez menos sobre as páginas que eu examinava; os dedos pálidos adquiriam a tonalidade transparente da cera, a cor da morte; as veias azuis da testa palpitavam freneticamente, aos influxos da mais leve emoção. Compreendia que ela ia morrer, e, desesperado, lutei com o horrível Azrael. E as lutas daquela mulher apaixonada eram, para meu espanto, ainda mais enérgicas do que as minhas. Havia muito em sua natureza inquebrantável para fazer-me crer que, para ela, a morte viria sem terrores; mas não foi assim. As palavras não conseguem exprimir a idéia da ferocidade com que ela lutou com a Morte. Eu gemia de angústia diante daquele deplorável espetáculo. Eu queria acalmá-la; porém, perante a intensidade selvagem de seu desejo de viver, de viver, nada mais que viver, qualquer consolação e qualquer raciocínio seriam sinônimos de máxima tolice. Todavia, nem mesmo no último instante, em meio às mais convulsivas contorções de seu impetuoso espírito, foi abalada a placidez externa de suas maneiras. Falou-me com voz suave e baixa, mas eu não queria deter-me no terrível significado daquelas palavras. Meu cérebro girava, enquanto eu, extasiado, ouvia aquelas aspirações que ouvidos humanos jamais tinham escutado até então.
De que Ligeia me amasse nunca duvidei; e era fácil imaginar que, num peito como o dela, o amor não deveria ter reinado como uma paixão comum. Apenas na morte, entretanto, tornei-me perfeitamente consciente da força de seu afeto. Passava longas horas segurando minhas mãos e extravasando sua devoção por mim, uma devoção que chegava às raias da idolatria. Ignoro o que havia feito para merecer ouvir suas palavras de afeto, que soaram como uma confissão. Ignoro também a razão de terem me castigado com a retirada de minha amada esposa naqueles doces instantes. Mas sobre esse assunto não quero estender-me. Apenas direi que no abandono mais do que feminino de Ligeia a um amor – ai de mim! –, um amor imerecido e concedido a quem era de todo indigno, eu percebi afinal a razão de sua selvagem dor por abandonar a vida tão precocemente. É a ânsia desesperada de viver, o desejo veemente de viver, apenas de viver, que não tenho poder para retratar, não tenho palavras para expressar.
Na noite de sua morte, fez-me recitar alguns versos que compusera uns dias antes. Os versos eram os seguintes:



Vede! É uma noite engalanada
         Nos derradeiros anos desolados!
Uma multidão alada
         – Anjos envoltos em véus e em lágrimas afogados –
Vem num teatro se acomodar
         Para ver um drama de esperanças e terror,
Enquanto, vacilante, a orquestra está a tocar
         Hosanas ao Senhor.

Criados à imagem do Altíssimo,
         Os mimos representam tristes cenas.
Andando daqui para ali, em ritmo vivíssimo.
         São fantoches apenas,
Nas garras dumas Sombras sepulcrais,
         Que mudam, a seu bel-prazer, a luz e a ação
E espalham, sob as asas colossais,
         A eterna Maldição!

Por certo, o drama não será esquecido,
         Embora incoerente:
Um sonho que se esquiva, perseguido
         Por gente convergente,
Que sempre volta ao ponto em que começa,
         Num vívido vaivém.
E há Erros e há Loucura nessa peça,
         E há Dor e Horror também.

Mas vede! No meio dos atores,
         Estranho ser rasteja!
É um ser vermelho-sangue, que surge dos bastidores,
         Mordendo a quem deseja.
E ele se torce, e pula, e serpenteia!
         Os mimos são seu pão;
E os anjos choram, ao ver-lhe a boca cheia
         de sangue e podridão.

Silêncio e escuridão. Fim da batalha!
         E sobre os corpos frios
Desaba o pano, igual a uma mortalha.
         E os anjos, já sem véus, entre arrepios
– A alma ainda lhes dói –,
            Declaram, com surpresa e com pavor,
Que essa tragédia é o “Homem”; e seu herói,
            O Verme Vencedor!



– Ó Deus! – Quase gritou Ligeia, levantando-se de um salto e estendendo os braços para cima num movimento espasmódico, quando cheguei ao fim desses versos. – Ó Deus! Ó Divino Pai! Serão sempre assim essas coisas? Não será algum dia vencido esse vencedor? Não somos uma parte, uma parcela de Ti? Quem... quem conhece os mistérios da vontade, com sua força? O homem não cede aos anjos, nem se rende totalmente à morte, a não ser pela debilidade de sua fraca vontade.
Então, como que exausta de emoção, deixou seus alvos braços caírem e voltou solenemente a deitar em seu leito de morte. Depois, quando dava seus últimos suspiros, murmurou: “O homem não cede aos anjos, nem se rende totalmente à morte, a não ser pela debilidade de sua fraca vontade.”
Ela morreu. E eu, completamente aniquilado pela tristeza, não pude mais suportar minha solitária residência na sombria e decadente cidade às margens do Reno. Não me faltava aquilo que o mundo chama de riqueza. Ligeia me trouxera muito, muitíssimo mais do que ordinariamente o destino reserva aos mortais. Por isso, após alguns meses a vaguear, adquiri e submeti a alguns reparos uma abadia em uma das regiões mais incultas e desertas da bela Inglaterra. A sombria e lúgubre grandiosidade do edifício, o aspecto quase selvagem do local, as melancólicas e veneráveis recordações ligadas a ele, tudo isso tinha muito em comum com a sensação de completo abandono que me havia levado àquela remota e despovoada região. Pouco modifiquei a parte externa da abadia, que apresentava sinais de ruína e de bolor; contudo, espalhei em seu interior, talvez como uma forma de aliviar minhas tristezas, objetos dignos de um palácio real. Eu havia adquirido na infância o gosto por essas extravagâncias; e, agora, elas me voltavam como conseqüência de meu pesar! Ai de mim! Em todas aquelas esplêndidas e fantásticas cortinas, nas solenes esculturas egípcias, nas cornijas extravagantes, nos móveis estranhos, nos tapetes de desenhos singulares não era difícil descobrir um começo de loucura! Eu me tornara um escravo do ópio, e meus atos e minhas idéias tinham tomado a coloração de meus sonhos. Mas não devo deter-me em pormenorizar tais absurdos. Devo falar apenas daquele aposento – aposento amaldiçoado para sempre – para onde conduzi, do altar, como minha esposa, como sucessora da inesquecível Ligeia, a loura e de olhos azuis lady Rowena Trevanion de Tremaine.
Não há pormenor da arquitetura e decoração da câmara nupcial que não esteja agora claramente diante de meus olhos. Onde estavam os membros da orgulhosa família da noiva quando, movidos pela sede de ouro, permitiram ultrapassar a soleira de um aposento ornado daquela maneira uma donzela e uma filha tão querida? O quarto ficava numa alta torre da abadia e era de forma pentagonal e de espaçosas dimensões. Ocupando toda a face sul do pentágono havia uma única janela, imensa folha de vidro inteiriço de Veneza, de cor plúmbea, de maneira que os raios do sol ou da lua ao atravessá-la incidiam com um tom apavorante sobre os objetos do interior. Sobre a parte superior dessa janela estendia-se uma velha parreira que subia pelas sólidas paredes da torre. O teto, de carvalho quase negro, era excessivamente alto, abobadado e cheio de extravagantes arabescos de estilo semigótico e semidruídico. Do centro dessa sombria abóbada pendia, de uma única corrente de ouro com longos elos, um imenso turíbulo do mesmo metal.
Algumas otomanas e candelabros dourados estavam dispersos pelo aposento. E havia também o leito, o leito nupcial. Era de estilo indiano, baixo e esculpido em ébano maciço, com um dossel semelhante a uma mortalha. E, em cada um dos cantos do quarto, estava – tirado dos túmulos dos reis do Antigo Egito – um gigantesco sarcófago de granito negro, com suas vetustas tampas cheias de esculturas feitas em tempos imemoriais. Mas (ai de mim!) era na tapeçaria que a fantasia (ou a loucura, se preferirem) se tornava mais evidente. As paredes prodigiosamente altas estavam cobertas, de cima até embaixo, de uma tapeçaria pesada e feita do mesmo tecido que recobria as otomanas, o leito de ébano e as suntuosas cortinas que vedavam parcialmente a janela. Era um tecido de ouro fino, todo salpicado, a intervalos regulares, de arabescos com cerca de trinta centímetros de diâmetro e bordados no pano. Esses desenhos, do mais negro azeviche, só tomavam o verdadeiro estilo do arabesco quando observados de certo ângulo. Graças a um processo que já existia na mais remota antiguidade, eram feitos de modo a mudar de forma. Para quem entrasse no quarto, pareciam simples monstruosidades; porém, à medida que se avançava, desaparecia gradualmente essa aparência; e, então, o visitante via-se rodeado por uma infindável sucessão de formas inquietadoras que pertencem à superstição nórdica ou que surgem nos sonhos pecaminosos dos monges. O efeito fantasmagórico dessas figuras de pesadelo era enormemente aumentado pela passagem de uma corrente de ar. Provocada artificialmente, essa corrente de ar vinha de trás da tapeçaria e dava uma horrenda e inquietante animação ao conjunto.
Tal era a câmara nupcial da abadia, onde lady de Tremaine e eu passamos as horas não sagradas do primeiro mês de nosso casamento. Que minha esposa temia o impetuoso caráter de meu temperamento, que ela me evitava, que me amava muito pouco... eram coisas que não podia deixar de perceber, mas isso quase me divertia. Eu a odiava com um ódio mais diabólico do que humano e pensava constantemente – e com intensidade! – em Ligeia, a amada, a augusta, a morta. Era uma profusão de recordações: deleitava-me em evocar sua pureza, sua sabedoria, sua elevada e etérea natureza, seu apaixonado e idolátrico amor. Nessas ocasiões, meu espírito ardia completa e livremente com uma chama mais ardente que a da própria Ligeia. Na excitação de meus sonhos de ópio (eu estava preso nas algemas da droga), costumava gritar seu nome durante a noite, nas horas mortas, ou de dia, nos mais sombrios e recônditos refúgios dos vales, como se a ânsia selvagem, a paixão solene e o ardor de meu amor pela morta pudessem trazê-la de volta à vida.
No início do segundo mês do casamento, lady Rowena foi atacada por súbita enfermidade, da qual só lentamente veio a restabelecer-se. A febre que a consumia tornava suas noites penosas; e, em seu estado de sonolência, falava de estranhos ruídos e movimentos produzidos na alcova e que, sem dúvida, eram devidos às influências fantasmagóricas do mobiliário e da tapeçaria. Afinal veio a convalescença; e ela, por fim, recobrou a saúde. Todavia, mal se passara breve período, eis que um segundo e mais violento acesso da doença tornou a atirá-la em um leito de sofrimento; e deste ataque seu fraco organismo jamais se recuperou inteiramente. A partir de então, sua doença tomou caráter alarmante, desafiando o saber e os grandes esforços de seus médicos. Com o agravamento da enfermidade, não pude deixar de perceber que crescia nela uma irritação constante... as coisas mais vulgares adquiriam a seus olhos um terrível aspecto. Tornou a falar, e agora com mais freqüência e mais insistência, dos sons, dos mais leves sons, e dos insólitos movimentos da tapeçaria.
Uma noite, no final de setembro, Rowena me chamou a atenção, com uma ênfase maior do que a usual, para o angustiante assunto. Acabava de despertar de um sono inquieto; e eu estivera observando, com ansiedade e terror, as contrações de seu rosto emagrecido. Eu estava sentado junto ao leito, numa das otomanas. Rowena se ergueu parcialmente e falou, em um ansioso sussurro, de ruídos que ela então ouvia mas que eu não podia ouvir; falou também de movimentos que ela então via mas que eu não podia ver. O vento soprava velozmente atrás da tapeçaria, e eu tentei mostrar-lhe (o que, confesso, eu mesmo não acreditava inteiramente) que aqueles sussurros inarticulados e aquelas ligeiras variações das figuras na parede eram apenas os efeitos naturais daquela costumeira corrente de vento. Mas a palidez mortal de seu rosto demonstrou-me que os esforços para tranqüilizá-la seriam infrutíferos. Ela parecia estar desmaiando, e criado algum poderia ouvir se eu chamasse. Lembrei-me de onde estava uma garrafa de vinho leve que os médicos haviam receitado e apressei-me em atravessar o quarto para ir buscá-la. Quando passei sob a luz do turíbulo, senti que algo palpável (embora invisível) passara de leve junto de mim. No mesmo instante, vi sobre a tapeçaria dourada, bem no centro da claridade projetada pelo turíbulo, uma sombra, uma sombra fraca, débil, de aspecto angelical, tal como poderia ser a sombra de uma sombra. Como eu estava sob a ação de uma dose excessiva de ópio, dei pouca atenção a essas coisas e não falei delas a Rowena. Encontrei o vinho, atravessei de novo o quarto e enchi uma taça, que levei aos lábios de minha mulher. Ela já se recuperara parcialmente e segurou a taça sem auxílio. Fiquei olhando-a, enquanto me afundava numa otomana próxima. Então, percebi distintamente um leve rumor de passos sobre o tapete perto do leito e, um segundo mais tarde, quando Rowena levava o vinho aos lábios, vi – ou posso ter sonhado que vi – cair dentro da taça, como vindos de uma fonte invisível suspensa no ar, três ou quatro gotas de um líquido brilhante e vermelho. Se eu vi isso, Rowena não o viu e bebeu o vinho sem hesitar. Abstive-me de falar-lhe de uma circunstância que devia, afinal de contas, ter sito fruto de minha imaginação, produto do ópio e das altas horas da noite.
Não posso ocultar, no entanto, que, imediatamente após a ingestão do vinho, uma rápida mudança para pior se verificou na doença de minha mulher. Tanto que, na terceira noite, as mãos dos criados prepararam-na para o túmulo; e, no quarto dia, eu fiquei só, com o seu corpo amortalhado, naquela câmara fantasmagórica que a recebera como minha esposa. Estranhas visões, geradas pelo ópio, esvoaçavam, como sombras, à minha volta. Com olhar inquieto, contemplava os sarcófagos nos cantos do quarto, os desenhos da tapeçaria e as contorções das chamas multicoloridas do turíbulo suspenso. Subitamente, meus olhos fixaram-se no local onde vira passar a sombra de uma sombra. Não vi nada dessa vez e voltei meus olhos para a pálida e rígida figura que jazia no leito. Vieram, então, ao meu pensamento mil recordações de Ligeia. Senti voltar ao meu íntimo, com a violência de uma torrente, toda a angústia inenarrável com que eu a vira assim amortalhada. A noite avançava; e, com o cérebro cheio de amargas lembranças da única e supremamente amada, eu continuava a olhar o corpo de Rowena.
Por volta da meia-noite, ou talvez mais tarde, já que eu perdera a noção do tempo, um soluço baixo, muito leve, mas distinto, despertou-me de meus devaneios. Senti que ele vinha do leito de ébano, o leito de morte. Com a angústia do terror supersticioso, apurei os ouvidos; mas o som não se repetiu. Concentrei o olhar no corpo de Rowena, procurando descobrir nele o menor movimento. Ele continuou imóvel. Passaram-se alguns minutos; e, pouco a pouco, uma coloração muito débil, quase imperceptível, invadiu as maçãs do rosto e estendeu-se ao longo das pálpebras cerradas. Sob a ação de um horror indizível, senti meu coração parar de bater e meus membros tornarem-se rígidos. O senso do dever, contudo, agiu para devolver-me o sangue-frio; e logo imaginei que tínhamos sido precipitados ao fazer os preparativos fúnebres. Só podia ser isso. Rowena ainda vivia. Era necessário agir imediatamente. Mas a torre ficava separada da parte da abadia onde dormiam os criados; e eu não podia pedir a ajuda deles sem sair do quarto por alguns minutos, e eu não queria deixar o corpo de minha mulher sozinho. De repente, a cor desapareceu do rosto e das pálpebras, deixando uma palidez ainda maior do que a do mármore; uma frialdade e uma viscosidade repulsivas espalharam-se sobre toda a superfície do corpo; e sobreveio a rigidez cadavérica. Deixei-me cair, trêmulo, na poltrona da qual me erguera tão sobressaltadamente e entreguei-me novamente ao sonho e à apaixonante evocação de Ligeia.
Uma hora assim se passou, quando – seria isso possível? – ouvi, pela segunda vez, um vago ruído que partia do leito. Agucei os ouvidos e voltei a ouvir um suspiro. Então, precipitei-me sobre o corpo e vi... vi claramente um tremor nos lábios. Um minuto depois, eles se abriram, descobrindo uma fileira brilhante de dentes de pérolas. A surpresa agora lutava em meu peito. Senti que a vista se tornava embaçada e foi apenas com grande esforço que consegui me controlar. Agora, sobre a fronte, o rosto e a garganta de Rowena estendia-se uma tênue coloração. Um calor perceptível invadia todo o corpo, e ouvia-se mesmo um leve bater do coração. Minha mulher vivia. E eu, cheio de terror, entreguei-me ao trabalho de reanimá-la. Friccionei e molhei-lhe as têmporas e as mãos; fiz, enfim, tudo o que a experiência e não poucas leituras médicas podiam sugerir. Não deu resultado. Subitamente, a cor desapareceu, a pulsação cessou, os lábios retomaram a expressão cadavérica; e, em seguida, o corpo inteiro adquiriu a gélida frigidez, o tom lívido, a rigidez intensa e todas as repugnantes peculiaridades do defunto que, durante muitos dias, havia ocupado uma sepultura.

E imergi de novo nas recordações de Ligeia, e novamente – só de lembrar... eu tremo! – chegou a meus ouvidos um leve soluço vindo do leito de ébano. Mas por que devo descrever minuciosamente os horrores indescritíveis daquela noite? Por que devo narrar como, momento após momento, quase até o alvorecer, esse medonho drama de revivifação se repetiu? Não é necessário. Só vou dizer que, a cada nova recaída, a morte era mais rígida e aparentemente mais inexorável. Cada nova agonia parecia uma luta contra um adversário invisível, e cada luta era seguida de estranhas alterações na fisionomia de lady Rowena.
A maior parte da noite já havia transcorrido, quando a morta se moveu mais distintamente, embora revelando um deplorável estado de decomposição. Há muito eu cessara de lutar, ou de mover-me, e permanecia desesperadamente enterrado na poltrona. O cadáver, repito, moveu-se, e agora de modo mais violento do que antes. As cores da vida retornaram a seu rosto com singular energia, os membros perderam sua rigidez. Poderia ser dito que Rowena repelira, por completo, as cadeias da Morte. Tive plena certeza disso – ela vivia! –, no instante em que se levantou do leito e, com passos vacilantes e os olhos fechados, avançou para o meio do aposento.
Não tremi, não me mexi, porque inúmeros pensamentos inexplicáveis, relacionados com o aspecto, a estatura e o porte daquele ser amortalhado, entraram de improviso em meu cérebro. Meu pensamento estava paralisado, petrificado. Não me movia, mas contemplava a criatura. Era mesmo Rowena que estava à minha frente? Era verdadeiramente Rowena, a lady Rowena Trevanion, a de cabeleira loura e olhos azuis? Por que deveria eu duvidar disso? Por que não haveria de ser lady Rowena? Mas... então ela crescera depois de sua enfermidade? Que loucura indescritível se apoderou de mim perante esta idéia?! Um salto, e fiquei a seu lado! Evitando meu contato, ela libertou a cabeça da espectral mortalha. Então, espalharam-se no ar pesado daquela câmara uma massa abundante de cabelos – eram cabelos cacheados e tão negros quanto um corvo. Em seguida, abriram-se vagarosamente os olhos da criatura.
– Oh! Aí estão! – Exclamei. – Nunca... nunca poderei enganar-me... esses são os olhos grandes, negros e estranhos de meu amor perdido... são os olhos de lady... LADY LIGEIA !