Ano 1 - nº 4 - agosto/novembro de 2009

POE E O ARDOR INFATIGÁVEL PELO IDEAL
Charles Baudelaire



Nos contos de Poe jamais se encontra amor. Pelo menos “Ligeia”,  “Eleonora” não são, propriamente falando, histórias de amor, sendo outra a idéia principal sobre a qual gira a obra. Talvez ele acreditasse que a prosa não é uma linguagem à altura desse estranho e quase intraduzível sentimento; porque suas poesias, em compensação, estão fortemente saturadas de amor. A divina paixão nelas aparece magnífica, constelada, e sempre velada por uma irremediável melancolia. Nos seus artigos, fala algumas vezes de amor como de uma coisa cujo nome faz a pena estremecer. No “Domínio de Arnheim”, afirmará que as quatro condições elementares da felicidade são: “a vida ao ar livre, o amor duma mulher, o desprendimento de qualquer ambição e a criação dum Belo novo”. O que corrobora a idéia da sra. Frances Osgood, referente ao respeito cavalheiresco de Poe pelas mulheres, é que, malgrado seu prodigioso talento para o grotesco e para o horrível, não há, em toda a sua obra, uma única passagem que se refira à lubricidade ou mesmo aos prazeres sensuais. Seus retratos de mulheres são, por assim dizer, aureolados; brilham em meio dum vapor sobrenatural e são pintados à maneira enfática dum adorador. Quanto aos pequenos episódios romanescos, há motivo para espanto que uma criatura tão nervosa, cuja sede do Belo era talvez o traço principal, tenha por vezes, com ardor apaixonado, cultivado a galantaria, esta flor vulcânica e almiscarada, para a qual o cérebro fervente dos poetas é terreno predileto?
Em Edgar Poe, não há choraminguices enervantes, mas por toda a parte, incessantemente, o ardor infatigável pelo ideal. (...) Dir-se-ia que procura aplicar à Literatura os processos da Filosofia, e à Filosofia o método da Álgebra (...). Poe parece querer (...) atribuir-se o monopólio da explicação racional. Assim, as paisagens que servem por vezes de fundo a suas ficções febris são pálidas como fantasmas. Poe, que não partilhava das paixões dos outros homens, desenha árvores e nuvens que se assemelham a sonhos de nuvens e de árvores, ou antes, que se assemelham a suas estranhas personagens, agitados como elas por um calafrio sobrenatural e galvânico.
As personagens de Poe, ou melhor, a personagem de Poe, o homem de faculdades superagudas, o homem de nervos relaxados, o homem cuja vontade ardente e paciente lança um desafio às dificuldades, aquele cujo olhar está  ajustado, com a rigidez duma espada, sobre objetos que crescem, à medida que ele os contempla – é o próprio Poe. E suas mulheres, todas luminosas e doentes, morrendo de doenças estranhas e falando com uma voz que parece uma música, são ele ainda; ou pelo menos, por suas aspirações estranhas, por seu saber, por sua melancolia incurável, participam fortemente da natureza de seu criador. Quanto à sua mulher ideal, a sua Titânide, revela-se em diferentes retratos – esses retratos são, na verdade, diferentes maneiras de sentir a beleza –, esparsos nas suas poesias pouco numerosas (...).

 

Este texto foi transcrito do livro Poemas e Ensaios (tradução de Oscar Mendes & Milton Amado, Rio de Janeiro, Globo, 1987, pp. 17-18), de Edgar Allan Poe