Ano 1 - nº 4 - agosto/novembro de 2009

A IMAGINAÇÃO DE POE
Marcus Cunliffe



(...) algumas das histórias de Poe nos deixam indiferentes ou nos repelem. “Ligeia”, julgada pelo autor seu melhor conto grotesco, é hoje, para a maioria dos leitores, uma mistura de compaixão mórbida de si mesmo, diabolismo e goticismo de quinquilharia. Outros contos, todavia, guardaram seu fascínio sinistro; são os que evitam o vampirismo e se concentram nas várias formas de sofrimento. A imaginação de Poe é, sob muitos aspectos, a de uma criança inteligente e neurótica. Como uma criança, ele se exibe, sonha com o poder. Mas, como a criança, ele é vulnerável não só aos temores noturnos (lâmpadas que se apagam, cortinas esvoaçantes) como à pressão física do gigantesco mundo adulto, cujas portas são pesadas ao abrir e cujas fechaduras emperradas ao girar. Muitos de seus enredos são claustrofóbicos, vertiginosos: as vítimas são emparedadas, enterradas vivas, sugadas em remoinhos.

 

Este texto foi transcrito do livro A Literatura dos Estados Unidos (Revista Branca, s. d., p. 50), de Marcus Cunliffe