Ano 1 - nº 4 - agosto/novembro de 2009

POE, UM GIGANTE DA LITERATURA
Roberto Muggiati



(...) Vários psicanalistas se debruçaram sobre a vida e obra de Poe, rica em símbolos e conflitos íntimos. Alguns interpretam sua obra como fruto de uma mente drogada, como as alucinações de um toxicômano. A droga da época é o ópio: Edgar tem doze anos quando o inglês Thomas De Quincey publica as famosas Confissões de um Comedor de Ópio. Um século antes da moda do LSD e das “viagens”, Poe criou com sua imaginação o céu-e-inferno dos sonhos artificiais, como se tivesse vivido a experiência. (...)

Imaginação desvairada, usando a forma compacta do conto, Poe é um verdadeiro gigante da Literatura, talvez o que abriu mais portas para os escritores que vieram depois dele. Já delineia o anti-herói que surgiria depois na ficção de Dostoievski, Kafka, Samuel Beckett e outros. O outsider de “O Homem das Multidões” prenuncia O Estrangeiro, de Albert Camus (...). Foi Poe quem deu forma ao romance policial; (...) sem o herói que ele criou, Monsieur C. Auguste Dupin, não existiriam o Sherlock Holmes, de Conan Doyle, o Maigret, de Simenon, o Hercule Poirot, de Agatha Christie, e mesmo detetives modernos como o Sam Spade, de Dashiell Hammett, e o Philip Marlowe, de Raymond Chandler, sem falar nos agentes de espionagem como James Bond (...). Em “Os Crimes da Rua Morgue”, depois de resumir as bases do raciocínio do detetive moderno, ele desenha com traços claros a figura de Dupin, espírito matemático que age só, despreza o Establishment e a polícia... e desvenda os mistérios apenas com a inteligência. Toda a técnica de suspense do cinema moderno (Hitchcock principalmente) é aperfeiçoada por Poe. Mas ele não se fixa em gênero nenhum (...) e prefere sempre novos caminhos.

 

Este texto foi transcrito do artigo “Allan Poe: O Amor, a Poesia, a Morte” (Ele Ela nº 31, Rio de Janeiro, Bloch, novembro de 1971, pp. 161-162), de Roberto Muggiati