Ano 1 - nº 4 - agosto/novembro de 2009

EDGAR ALLAN POE E A FICÇÃO CIENTÍFICA
Roberto de Sousa Causo



O século 19 foi um tempo de agudas transformações científicas e tecnológicas. Foi também um período de transformação na natureza do público leitor (e, por conseqüência, nas formas de leitura e de escrita). A Revolução Industrial levou à necessidade da alfabetização universal, iniciada nos países em que essa revolução nos meios de produção, na urbanização e nas formas de organização da sociedade estavam mais adiantadas: Inglaterra, França, Estados Unidos. Por sua vez, o novo público leitor, criado fora dos parâmetros elitistas das classes aristocráticas e burguesas – e em transição entre o mundo rural e o urbano, a vida campesina e a linha de produção industrial –, demandava novas formas de literatura que o ajudassem a compreender e a negociar as armadilhas desse mundo novo.
É extraordinário, portanto, que um escritor em particular, o norte-americano Edgar Allan Poe (1809-1849), morto precocemente aos quarenta anos, se colocasse pela força do seu gênio criador no entroncamento da criação de três gêneros de enorme importância para os séculos 19 e XX: o Horror, a Literatura de Detetive & Mistério e a Ficção Científica.
A importância de Poe para a Ficção Científica é enorme. Escrevendo na primeira metade do século 19, ele influenciou alguns dos autores que dariam a cara do gênero na segunda metade – Jules Verne (1828-1905) em especial. Verne conheceu os escritos de Poe a partir das traduções em Francês de Baudelaire; e o autor francês das voyages extraordinaires chegou a escrever a respeito de Poe, na década de 1860, nas páginas da revista Musée de Familles.
Em alguns casos, a conexão entre os temas de um e de outro é direta: parece evidente que a presença dos balões na obra de Verne tem raiz no famoso texto de Poe, “A Balela do Balão”, de 1844, que descreve, como reportagem, o primeiro vôo transatlântico (da Europa aos Estados Unidos) feito por um balão. E, se Poe influenciou Verne a levar os heróis de Viagem ao Centro da Terra (1864) pela boca de um vulcão, o próprio Poe – que escreveu “Narrativa de Arthur Gordon Pym” (1838), com premissa semelhante – provavelmente tomou a idéia da Terra oca de John C. Symmes (1779-1829). Assim como tomou algo da sua viagem à Lua, em “A Aventura Sem Par de um Certo Hans Pfaall” (1835), das Aventuras do Barão de Münchhausen (1785), de Rudolph Erich Raspe (1737-1794).
A influência de Poe na Ficção Científica é estendida até o século XX. Em 1926, quando lançou a revista Amazing Stories, talvez a primeira especializada em FC, o editor Hugo Gernsback (1884-1967) usou Poe (e Verne e H. G. Wells) para definir o tipo de contos que desejava para a revista.
A Ficção Científica, porém, evoluiu tremendamente no século XX, e muitos leitores modernos teriam dificuldade em enxergar as histórias de Poe como pertencentes ao gênero. “O Caso do Sr. Valdemar” (1845), que eu incluí na antologia Histórias de Ficção Científica (Ática, 2005), tem uma atmosfera tétrica e trata de hipnotismo e suspensão animada, e “A Palestra de Eiros e Charmion” (1839) apresenta duas criaturas angelicais rememorando, sob forma de diálogo platônico, a destruição da Terra por um cometa. Por sua vez, “Mellonta Tauta” (1849) é uma narrativa futurista, ambientada no ano 2848, ou mil anos à frente do ano em que foi escrita. O futuro que descreve é sombrio.
De qualquer modo, Poe empregava algo dos conhecimentos científicos da sua época, marcada pelas discussões da eletroquímica e do eletromagnetismo. Ele mesmo era um matemático e criptógrafo amador, que, segundo Harold Beaver, ambicionava “decifrar Deus, o Pai Todo-Poderoso, em termos de um todo-poderoso código elétrico”.
Com Poe, um dos pais da Ficção Científica, o gênero já nasce desconfiado da técnica. Parte do espírito romântico do século 19: Poe enxergava a técnica como servidora da sociedade, realizando por isso um movimento oposto ao da verdadeira liberdade do espírito. O cientista, para ele, assumia uma face pouco lisonjeira: “De todas as pessoas no mundo, são eles ao mesmo tempo os mais preconceituosos e os menos capazes de usar, de generalizar ou decidir sobre os fatos que trazem à luz no curso de seus experimentos.” Em Poe, o cientista bitolado perde para o poeta, na investigação da natureza do Universo, embora para ele essa investigação tivesse sempre, em algum lugar, um caráter científico e matemático.
Em Poe, ciência, misticismo e a dimensão existencial do sujeito estão sempre a girar um sobre o outro, em um redemoinho constante. Duzentos anos depois do seu nascimento, a mesma ciranda continua a girar.

 

Roberto de Sousa Causo é bacharel em Letras, escritor e editor