Ano 1 - nº 4 - agosto/novembro de 2009

O ESTRANHO PRÓXIMO DO FANTÁSTICO
Tzvetan Todorov



Eis uma novela de Edgar Allan Poe que ilustra o estranho próximo do fantástico: “A Queda da Casa de Usher”. O narrador chega uma noite a essa casa, chamado por seu amigo Roderick Usher; este lhe pede que fique com ele durante algum tempo. Roderick é um ser hipersensível, nervoso, que adora sua irmã, gravemente doente no momento. Esta morre alguns dias mais tarde; e os dois amigos, ao invés de a enterrar, depositam seu corpo num dos subterrâneos da casa. Alguns dias se passam; numa noite de tempestade, os dois homens se encontram num cômodo e o narrador lê em voz alta uma antiga história de cavalaria. Os sons descritos na crônica parecem fazer eco aos ruídos que se ouvem na casa. Por fim, Roderick Usher se levanta e diz, com voz quase imperceptível: “Nós a sepultamos viva.” Com efeito, a porta se abre, a irmã aparece na soleira. O irmão e a irmã se lançam nos braços um do outro e caem mortos. O narrador foge da casa exatamente a tempo de vê-la desmoronar-se no lago vizinho.
O estranho tem aqui duas fontes. A primeira: o número de coincidências (tantas quanto numa história de sobrenatural explicado). Assim, poderiam parecer sobrenaturais a ressurreição da irmã e a queda da casa depois da morte de seus habitantes; mas Poe não deixou de explicar racionalmente um e outro acontecimento. Assim, diz ele da casa: “Talvez o olho de um observador minucioso descobrisse uma rachadura quase imperceptível, que, partindo do teto da fachada, abria caminho em ziguezague através da parede e ia perder-se nas águas funestas do lago.” E de lady Madeline: “Crises freqüentes, embora passageiras, de caráter quase cataléptico, eram os diagnósticos muito singulares.” A explicação sobrenatural é, portanto, apenas sugerida, e não é necessário aceitá-la.
A outra série de elementos que provocam a impressão de estranheza não está ligada ao fantástico mas ao que se poderia chamar de “experiência dos limites” e que caracteriza o conjunto da obra de Poe. Baudelaire já escrevia a seu respeito: “Nenhum homem contou com maior magia as exceções da vida e da natureza.” Em “A Queda da Casa de Usher”, é o estado extremamente doentio do irmão e da irmã que perturba o leitor. Em outras partes, serão cenas de crueldade, o gozo no assassinato, que provocam o mesmo efeito estranho. Esse sentimento parte pois dos temas evocados, os quais se ligam a tabus mais ou menos antigos.

 

Este texto foi transcrito do livro As Estruturas Narrativas (São Paulo, Perspectiva, 1969, pp. 158-159), de Tzvetan Todorov