Ano 1 - nº 4 - agosto/novembro de 2009

POE – DE ESCRITOR MALDITO A AUTOR RECONHECIDO
Arthur Rosenblat Nestrovski



De 1854 a 1870, as obras de Poe, traduzidas por Baudelaire, foram publicadas em nove volumes de contos e ensaios coligidos e oferecidas ainda aos leitores de Le Pays, Révue de Paris e alguns outros periódicos. Graças aos esforços de Baudelaire, tornou-se Poe o arquétipo francês do poète maudit, do artista como indivíduo à margem da sociedade burguesa, excêntrico que se opõe e resiste ao coro dos contentes, complacentes e assalariados. Os mitos envolvendo a vida pessoal de Poe foram em grande parte responsáveis pelo fracasso crítico de suas obras nos Estados Unidos. Deve-se inteiramente aos franceses o reconhecimento de seu real valor. As traduções de Baudelaire e os três ensaios críticos que o poeta francês escreveu para acompanhá-las constituíram a fonte primária da devoção dos simbolistas à obra de Poe; e o interesse desses, por sua vez, suscitou uma onda de entusiasmo pelos “Poemas” e “Contos” que rapidamente se expandiu por toda a Europa e, afinal, pelos Estados Unidos também. (Robert Louis) Stevenson e (Arthur) Conan Doyle reconheceram seu débito para com a obra de Poe, e Joseph Conrad elogiava suas descrições do mar. Thomas Mann encontrou em “William Wilson” um clássico exemplo do tema do doppelgänger, do “duplo”. A influência de Poe sobre a obra de (Nathaniel) Hawthorne é hoje claramente identificável, bem como os numerosos paralelos entre “Narrativa de Arthur Gordon Pym” e Moby Dick.

 

Este texto foi transcrito do livro Debussy e Poe (Porto Alegre, L&PM, primavera de 1986, pp. 18-20), de Arthur Rosenblat Nestrovski