Ano 1 - nº 4 - agosto/novembro de 2009

EDGAR ALLAN POE
H. P. Lovecraft
tradução: Marco Aurélio Lucchetti



Nos anos 1830, despontou um autor que afetou não somente a história do conto sobrenatural, mas também a de todos os tipos de obra de ficção em geral, e que modelou grande número de escolas estéticas européias. E temos a ventura de este autor, Edgar Allan Poe, ser nosso conterrâneo.
A fama de Poe foi objeto das mais curiosas vicissitudes; e, agora, está na moda, entre a intelligentsia avançada, minimizar sua importância como escritor e sua influência. Sem dúvida, seria difícil para um crítico imparcial negar o enorme valor de sua obra e a potência penetrante de seu pensamento como criador de visões artísticas. É verdade que seu tipo de visões teve precursores; porém, foi ele o primeiro a dar-se conta de suas possibilidades e de dar-lhes forma suprema e expressão sistemática. Também é verdade que os outros escritores que lhe seguiram podem ter produzido contos superiores aos seus; mas temos de compreender que foi ele quem lhes deu o exemplo e ensinou-lhes uma arte que, uma vez aberto o caminho e marcado o rumo, foram capazes de levar mais longe. Assim, apesar de suas limitações, Poe realizou o que ninguém havia ou poderia ter realizado até então; e é a ele – unicamente a ele – que devemos a moderna história de Horror em seu estilo final e perfeito.
Antes de Poe, a maioria dos escritores de histórias sobrenaturais trabalhava quase sempre na escuridão – esses escritores não tinham a devida compreensão das bases psicológicas da sedução do horror e, tolhidos em maior ou menor grau pela conformidade a certas convenções literárias fúteis (o final feliz, a virtude premiada), deixavam-se geralmente arrastar por um falso didatismo moral e pela aceitação dos valores e modelos populares, empenhando-se em inserir suas próprias emoções na história e procurando tomar partido em favor dos defensores das idéias artificiais da maioria. Poe, ao contrário, percebeu a impessoalidade essencial do verdadeiro artista e sabia que a função da ficção criativa é puramente expressar e interpretar os acontecimentos e as sensações tais como realmente são, não importando a que servem ou o que provam, com o autor desempenhando tão-somente a função de cronista vivaz e imparcial e não a de um professor, um simpatizante ou um apologista. Poe sabia claramente que todas as fases da vida e do pensamento podem ser escolhidas por igual por um escritor e, ao escolher como tema de seus relatos os fenômenos estranhos e tenebrosos, optou por ser o intérprete desses sentimentos poderosos que infligem mais dores que alegrias, mais ruína que prosperidade, mais terror que tranqüilidade e que são fundamentalmente adversos ou indiferentes aos gostos e sentimentos tradicionais da humanidade e à saúde, sanidade e bem-estar geral da espécie.
Dessa maneira, os espectros de Poe adquiriram uma malignidade convincente que não se encontra em nenhum de seus antecessores, inaugurando um novo modelo de realismo nos anais do horror literário. Além disso, suas intenções impessoais e artísticas se apoiavam em uma postura científica até então nunca vista. Assim, Poe estudava mais a mente humana que os costumes da ficção gótica e trabalhava com um conhecimento analítico das verdadeiras fontes do terror, o que duplica a força das suas narrativas e livram-nas de todo o absurdo inerente às obras puramente convencionais do gênero.
(...) Cabe afirmar que Poe foi o inventor do conto em sua forma atual. (...) Por outro lado, avidamente acolhido, apadrinhado e intensificado por seu eminente admirador francês, Charles Pierre Baudelaire, Poe tornou-se, de certo modo, o pai dos decadentes e dos simbolistas.

 

Este texto foi traduzido do livro Supernatural Horror in Literature, de Howard Phillips (H. P.) Lovecraft