Ano 1 - nº 4 - agosto/novembro de 2009

D. W. GRIFFITH E EDGAR ALLAN POE
artigo de Marco Aurélio Lucchetti



Há exatos cem anos era produzido o filme Edgar Allen Poe (notem que os produtores grafaram errado o nome do meio do escritor).
Dirigido por um dos criadores da linguagem cinematográfica, o norte-americano David W. Griffith (1875-1948) – segundo Octavio de Faria, Griffith foi “o diretor que realmente impulsionou o cinema-menino, colocando-o em poucos anos na posição de uma autêntica e até então insuspeitada arte”, e é “uma figura sem paralelo no cinema americano” –, Edgar Allen Poe tem pouco mais de sete minutos de duração e conta a seguinte história:
Num quarto, Virginia Poe (interpretada por Linda Arvidsen, a sra. David W. Griffith), visivelmente doente, repousa numa cama. Poe (Herbert Yost) entra no quarto e fica preocupado com o estado de saúde de sua jovem esposa. De repente, surge um corvo, empoleirado sobre um busto numa prateleira, num canto do aposento. Poe olha para o pássaro, senta-se a uma mesa que está embaixo da prateleira e, inspirado, começa a escrever numa folha de papel. A todo momento, ele mostra o que está escrevendo (obviamente o poema “O Corvo”) para a mulher. A seguir, numa redação de jornal, dois jornalistas trabalham. Poe entra na redação e dá o poema para os jornalistas lerem. Os dois homens lêem e recusam o poema. Depois, na redação de outro jornal, um homem (ele é editor) conversa com uma mulher. Poe aparece e mostra seu poema para a mulher, que, após ler algumas frases, o rejeita. Então, o editor lê a poesia e, decidindo publicá-la, paga por ela. Poe parte satisfeito, com o dinheiro na mão. Enquanto isso, Virginia sofre na cama e acaba desfalecendo. Com ar triunfante, Poe chega, trazendo mantimentos e um cobertor. Ele começa a agasalhar a esposa com o cobertor; porém, ao pegar-lhe no braço, percebe que chegou tarde demais e que ela não passa de um cadáver. O escritor fica, então, desesperado.
Curioso esboço biográfico, Edgar Allen Poe é, de acordo com o crítico e pesquisador cinematográfico português Lauro António, “uma ficção sobre um aspecto da vida de Poe, tentando explicar a gênese de um poema e estabelecendo uma relação dramática entre a criação literária e a vida quotidiana”.
Ainda em 1909, Griffith realizou, a partir de um argumento de Frank E. Woods, The Sealed Room, cujo final é visivelmente inspirado em “O Barril de Amontillado”, como se pode perceber pelo resumo do filme:
O rei da França (Arthur V. Johnson) manda construir um quarto secreto, que pretende usar para se encontrar com a amante (Marion Leonard). Depois, a amante usa o quarto para seus encontros amorosos com o baladeiro da corte (Henry B. Walthall). E, certo dia, quando estão no ninho de amor, a amante e o baladeiro são emparedados vivos pelo rei, que descobriu a traição.
Em 1914, ou seja, um ano após haver realizado Judith of Bethulia, sua primeira grande produção, Griffith (ele devia ser um fã da obra de Poe) dirigiu – para a empresa cinematográfica Reliance-Majestic – o filme The Avenging Conscience, que já foi descrito como “um mosaico de Edgar Allan Poe”, uma vez que é claramente inspirado em “O Coração Revelador” e faz referência a “Annabel Lee”, “O Poço e o Pêndulo” e “O Gato Preto”.
Distribuído originalmente pela Mutual, que poucos anos depois produziria algumas das mais importantes comédias curtas de Charles Chaplin (O Vagabundo/The Vagabond, Rua da Paz/Easy Street, O Balneário/The Cure, O Imigrante/The Immigrant e O Aventureiro/The Adventurer), The Avenging Conscience tem cerca de uma hora de duração (uma metragem longa para um filme mudo); e sua história pode ser assim resumida:
Um rapaz órfão (Henry B. Walthall), que mora com um tio zarolho (Spottiswood Aitken), lê o poema “Annabel Lee”. Em seguida, ele apresenta para o tio a namorada (Blanche Sweet), que, por coincidência, se chama Annabel. O tio não simpatiza com a moça, chama-a de “uma mulher vulgar” e expulsa-a da casa. O rapaz não gosta do modo como o tio tratou Annabel e, após ver no jardim uma aranha envolver em seu abraço letal uma mosca e um grupo de formigas matar um inseto, decide assassiná-lo, como vingança. O sobrinho mata o tio e passa a ser assombrado por seu fantasma. Para piorar as coisas, o crime foi visto através da janela por um homem (George Seigmann), que começa a chantagear o sobrinho assassino. No final, o rapaz acorda; e o espectador, então, percebe que tudo foi um sonho/pesadelo.
The Avenging Conscience é um dos mais fascinantes filmes da década de 1910, tem uma construção dramática admirável em muitos momentos e seqüências realmente inesquecíveis – dentre essas seqüências podem ser destacadas: a do fantasma do tio perseguindo o sobrinho; a do encontro do sobrinho com um detetive que sabe que ele é um assassino; a do detetive batendo com um lápis numa mesa ao lado de um relógio de parede, o que enerva o sobrinho (leva-o a “ouvir” as batidas do coração do tio morto) e faz com que ele confesse o crime; e a cena final, em que se revela que tudo não passou de um sonho do protagonista (esse recurso seria usado muitos anos mais tarde por Fritz Lang num dos maiores clássicos do Filme Noir, Um Retrato de Mulher/The Woman in the Window, estrelado por Edward G. Robinson e Joan Bennett).
The Avenging Conscience é, enfim, uma fita que deve ser vista por todos aqueles que desejam saber verdadeiramente o que é Cinema.