Ano 1 - nº 4 - agosto/novembro de 2009

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE EDGAR ALLAN POE
Samir Najar
(especial para o
Jornal do Cinema)



A despeito de sua desordenada e trágica vida, Edgar Allan Poe (1809-1849) retém um lugar único e honrado na literatura norte-americana. Ele foi o primeiro crítico literário nascido em solo estadunidense, foi também praticamente o responsável pela criação do conto literário como uma forma de ficção; e seus poemas tiveram uma grande repercussão internacional.

Poe surgiu durante o período do desenvolvimento territorial, industrial e econômico dos Estados Unidos; e, nesse ambiente de grande atividade material, a Literatura não era muito valorizada em solo norte-americano (até 1820, a prosa de ficção não era importante nos Estados Unidos; ela era descolorida e baseada nos vultos da Guerra da Independência Americana).

Poe, cuja vida foi uma constante luta contra a incompreensão e a indiferença de sua época (isso o levou a procurar conforto no falso éden da bebida e do ópio, que provocaram a sua morte prematura), foi o primeiro escritor a criar uma atmosfera de mistério e morte por meios meramente estéticos (ele escolheu o elemento sobrenatural como seu tema literário). E, em suas histórias, a atmosfera do medo é a emoção fundamental. Poe classificou seus contos em três categorias: os Grotescos, os Arabescos e os Racionalistas.

Os contos Grotescos, como “O Barril de Amontillado” (“The Cask of Amontillado”), apresentam um humor sinistro, irônico e frio. Esse estilo está presente nos diálogos dos dois personagens do conto, Montresor e Fortunato:

Montresor: “Sua saúde é preciosa.”
Fortunato: “Bebo à saúde dos que repousam enterrados, em torno de nós.”
Montresor: “E eu bebo para que você tenha vida longa.” Montresor diz isso mesmo sabendo que irá matar Fortunato pouco depois.

Quanto aos contos Arabescos, como “A Queda da Casa de Usher” (“The Fall of the House of Usher”), em que Poe nos apresenta uma narrativa baseada em forte sentimento de emoção e horror, todos os elementos são colocados para alcançar o clímax (os mínimos acontecimentos são de grande importância na construção da trama).

E os contos Racionalistas, como “Os Crimes da Rua Morgue” (“The Murders in the Rue Morgue”),“O Mistério de Marie Roget” (“The Mystery of Marie Rogêt”) e “O Escaravelho de Ouro” (“The Gold-Bug”), em que a narrativa está fundamentada na lógica e na análise racional, apontam Poe como o pioneiro das histórias de Detetive & Mistério.

Os escritos de Poe foram traduzidos em quase todas as línguas (na França, eles foram traduzidos e publicados por Charles Baudelaire).

Foi Poe um escritor lúcido, que sempre se preocupou com a técnica. “A Filosofia da Composição” e “O Princípio Poético” são dois de seus trabalhos, dois ensaios, que expressam uma forma de Arte pela Arte.

Assim como Dante, Camões e Milton, Poe foi o criador da atmosfera poética, o supremo artesão da expressão, o tecelão de metáforas e belezas do ritmo e da forma.

Dentro do estilo romântico, ele provou que o verdadeiro artista é completamente versátil e capaz de fazer o que quer com as palavras. Seu famoso poema “O Corvo” (“The Raven”) é um bom exemplo disso.

Composto no período do Romantismo exagerado, “O Corvo” traduz, à primeira vista, todo o sentimento do poeta ante a perda do ser amado. Repleto de efeitos sonoros, é um poema de dezoito sextetos cujo esquema de rima é abcbbb, sendo que os versos a e c apresentam rimas internas como: “dreary/weary”“napping/tapping/rapping” “morrow/borrow/sorrow”; e é interessante notar que no primeiro verso do poema Poe usa a estrutura francesa, isto é, o adjetivo “dreary” colocado após o substantivo “midnight”. Observamos ainda a produção de sons (onomatopéias e aliterações), como ilustram os versos abaixo:

“And the silken, sad,
uncertain rustling of each purple curtain
Thrilled me – filled me with fantastic terrors never felt before;
So that now, to still the
beating of my heart, I stood repeating:
’Tis some visitor entreating entrance at my chamber door –
Some late visitor entreating entrance at my chamber door –;”


(…) I was
napping, and so gently you came rapping,
And so faintly you came tapping, tapping at my chamber door,”

“From my book surcease of sorrow – sorrow for the lost Lenore,”

“And the silken sad uncertain rustling of each purple curtain

A repetição de “nevermore” no final do décimo primeiro sexteto sugere uma atmosfera de algo fatal e irreversível. Os usos das vogais O e U sugerindo escuridão, sombras, melancolia e mistério em meio da noite nos transmitem a atmosfera do poema.
O ritmo predominante no poema é o troqueu, e os versos são octametros e heptametros e meio, como no exemplo:

‘Be that word our sign of parting, bird or fiend!’ I shrieked, upstarting:
‘Get thee back into the tempest and the Night’s Plutonian shore!
Leave no black plume as a token of that lie thy soul hath spoken!
Leave my loneliness unbroken! Quit the bust above my door!
Take thy beak from out my heart, and take thy form from off my door!’
Quoth
the Raven, ‘Nevermore’.”

“Take thy/ beak from/ out my/ heart, and/ take thy/ form from/ off my/ door!”

Além dos simbolismos que Poe usa, a metáfora neste verso nos faz entender que este é um poema metafórico.

Para finalizar, resta ainda dizer que o poema “Annabel Lee”, no qual Poe presta uma homenagem à sua esposa, Virginia Clemm (ela faleceu com apenas 24 anos de idade), apresenta seu tema favorito: a morte.

 

Samir Najar é professor de Inglês e coordenador do curso de Tradutor de Inglês do Centro Universitário “Barão de Mauá” de Ribeirão Preto

 

Legenda:

Rima interna
Onomatopéia