Ano 1 - nº 4 - agosto/novembro de 2009

CONFISSÃO DE EDGAR ALLAN POE
Giovanni Papini



Cometi apenas um erro. Não soube ser feliz. Nunca! Nem um só dia, nem sequer uma hora. A própria criação, um prazer para os poetas mais sensíveis, foi para mim sempre mais angustiante que redentora. A causa primeira do meu infortúnio conheço-a agora. Tive sempre medo da vida. De uma sensibilidade exacerbada e doentia desde a mais tenra infância, atormentado e mortificado até à exaustão pelo infortúnio e pela miséria, a vida banal, a realidade quotidiana constituíam para mim uma fonte constante de terror. Tinha a impressão de viver continuamente suspenso no limite de dois reinos – ser uma criança semimorta unida por um laço misterioso a um espectro nostálgico. A criança tinha medo da treva; o espectro, da luz. Uma e outro aspiravam à morte e, simultaneamente, receavam-na. A vida era para mim aborrecimento, alucinação, condenação. Cada vez que eu tentava reconciliar-me com ela saía maltratado, repelido. Fazia-me o efeito de um anjo que pretendesse participar num banquete de monstros. O próprio amor não logrou salvar-me, porque a mulher é uma das mais perfeitas encarnações da vida; e eu tinha da vida um indizível terror. Todas as mulheres que eu julguei amar ou fugiram de mim, ou estão mortas. Uma vez mortas, e só então, elas pareciam realmente minhas, amantes na eternidade, as únicas que poderiam amar um homem segregado da vida. Para escapar às minhas visões terrificantes, aos meus pesadelos, às tentações de minha razão delirante, um gênio, senhor mais tirânico e exigente que um demônio, forçava-me a escrever. Escrevi, pois, toda a minha vida poemas, narrativas, contos, tratados, ensaios. Porém, mal experimentava a ilusão de pela poesia ter exorcizado a perseguição dos meus pavores, logo outras alucinações, outros pesadelos, outras bizarrias macabras e fúnebres assaltavam sem tréguas a minha pobre alma acabrunhada. Então, como última esperança do meu desespero, buscava socorro no álcool, que, aliás, abominava.

 

Este texto foi transcrito do livro O Julgamento Universal, de Giovanni Papini