Ano 1 - nº 4 - agosto/novembro de 2009

POE PRÓXIMO DE ARISTÓTELES
Danforth Ross



Edgar Allan Poe, mais teórico do que (Washington) Irving, está, de certo modo, de acordo com Aristóteles. De fato, Poe transpõe A Poética para o conto e é o primeiro americano a visualizá-lo como forma de arte. Como Aristóteles, faz do personagem um complemento da ação e considera cada elemento da história como que subordinado à ação em conjunto. O “artista literário”, diz Poe, concebe “um efeito singular ou sem precedentes a ser forjado” e “daí inventa tais incidentes” e “combina tais fatos de modo a ajudá-lo a estabelecer o efeito preconcebido... Em toda a composição não deve haver nenhuma palavra escrita que não se destine, direta ou indiretamente a um desígnio preestabelecido. E desta maneira, com esse cuidado e essa habilidade, pinta-se finalmente um quadro que deixa na mente de quem o contempla uma impressão de satisfação completa”.
Esta teoria anuncia o conto moderno. Pela primeira vez, veio ela trazer para o conto a tensão, característica que era considerada poética. As histórias de Irving são intricadas, as de Poe sintéticas e compactas. O escritor, obedecendo aos preceitos desta teoria, expõe sua história como um dramaturgo apresenta uma cena de uma peça, o que é melhor do que explicar, narrar ou relatar a ação. Irving expõe quase por acidente; com Poe a apresentação é constante e é resultado de um esforço consciente. Também não haverá excesso de cores em partes da tela e outras pobres em detalhes. Os contos de Poe têm uma sutileza de imagem e de forma, que faltam na obra de Irving. Finalmente a teoria pretende que o leitor seja conduzido a um momento singular, o momento de efeito no qual tem “a sensação da mais completa satisfação”.

 

Este texto foi transcrito do livro O Conto Norte-Americano (tradução de Edith Ribeiro, São Paulo, Martins, 1964, pp. 14-16), de Danforth Ross