Ano 1 - nº 1 - novembro de 2008/janeiro de 2009

A GAROTA DE BUBE
Fernando de Morais



Depois de vermos A Garota de Bube nota-se ainda mais a má qualidade de tantos filmes que se têm visto.
(...) filmes cheios de mentiras ou extravagâncias, de ignorância; e outros que nem são ignorantes nem mentirosos, são vazios. Não contam nada que interesse a quem os vê, só o ridículo das suas historinhas fabricadas por receita. Mas este não é assim. Mara é a garota de Bube. É a jovem noiva desse rapaz que sacrifica sua liberdade pelo bem comum. É a jovem noiva desse rapaz que tem um coração generoso, que sabe o que quer e para onde vai (...). Por lutar pela verdade, Bube é perseguido; a perseguição e a maldade dos outros levam-no a vingar um companheiro caído, cruelmente assassinado, quando tentava explicar-se.
Bube, por fim, é preso e vai ser julgado.
(...) A história de Bube e da sua garota não é só imaginação dum escritor posta em imagens esplêndidas, não... o caso tem raízes na vida, é o retrato de muitos jovens que lutaram pela sua pátria contra os que traíram a sua terra.
Passado o tempo, tudo é esquecido, O povo não se dá conta de quem fala a verdade. Vai com o que mais lhe promete... e enganado, engana-se. Com as palavras que serviriam para justificar uma nova ordem social de humanismo e colaboração, os oportunistas ascendem ao poder.
Mediante várias circunstâncias e um julgamento que só vê o que lhe convém, Bube é sentenciado a quatorze anos de prisão.
E há alguém que sabe esperar os mais importantes quatorze anos da sua vida, dos vinte aos trinta e quatro, até que ele saia. Exemplo magnífico de coragem, que só tem par no aprumo do herói.
Quatorze anos.
Ele sairá da prisão com trinta e sete anos e, então, encontrará o quê?
Uma Itália industrializada pela América (...)?
Uma Itália italiana a abraçar o mundo e o futuro como ele sonhou?
Não.
Encontrará Mara, isso sim, e talvez mais nada.
Não pretendemos com estas considerações dar uma imagem do filme. Ele só pode ser compreendido sendo visto. (...).
E a obra agiganta-se na sua verdade e encanta-nos com sua beleza. É um filme sério e arrebatador que não faz rir.

 

A Garota de Bube (La Ragazza di Bube, 1963, 106')
Direção: Luigi Comencini
Roteiro: Luigi Comencini & Marcello Fondato, baseando-se no romance homônimo de Carlo Cassola
Elenco: Claudia Cardinale (Mara), George Chakiris (Bube), Marc Michel (Stefano), Dany Paris (Liliana), Emilio Esposito (pai de Mara), Carla Calò (mãe de Mara), Monique Vita (Ines)

 

Publicada originalmente na edição de 28 de outubro de 1964 do jornal lisboeta A República esta crítica foi republicada no Programa de novembro de 1971 do Cineclube Imagem, de Lisboa