Ano 1 - nº 1 - novembro de 2008/janeiro de 2009

UM DIRETOR, JEAN ROLLIN
Valter Martins de Paula



Se o espectador comum associa cinema francês a histórias pesadas, profundas, calcadas no subconsciente mais perturbado e nos diálogos mais abstratos (muito por culpa dos filmes que começaram a proliferar nas décadas de 1960 e 1970), ele pode perder grandes oportunidades. Cinema francês, hoje, também é sinônimo de sujeira, de sangue e de perversão. E, se os Estados Unidos possuem seus Quentin Tarantino, Robert Rodriguez e Eli Roth – que seguem carreiras de espontâneo sucesso, realizando filmes de apelo popular e que possuem cenas extremamente sangrentas –,  a França entrega, mesmo aos poucos, algumas fitas [de diretores como Alexandre Aja (do excepcional Alta Tensão, lançado em DVD pelo selo Europa) e Alexandre Bustillo (do perturbador A Invasora, também lançado no Brasil no mercado digital), que igualmente abusam de cenas sanguinolentas. 
Porém, se diretores como Alexandre Aja e Alexandre Bustillo, surgidos no século 21, fazem sucesso, muito se deve aos que, em tempos passados, fizeram o Suspense/Terror acontecer na França, um país que, naturalmente, não prima nos gêneros e não os transformam em carros-chefes de seu cinema. Um destes nomes significativos – e que, infelizmente, ainda não repercute no Brasil – é o de Jean Rollin, nascido em 1938 e que, ainda hoje, se encontra em atividade (seu filme mais recente, La Nuit des Horloges, é do ano passado). E o que este diretor, que é também ator e roteirista, representa para o Suspense/Terror?
Analisar o cinema de Jean Rollin e afirmar que o diretor tem uma visão única e inédita dos acontecimentos é algo perigoso. Mas é o que se sente, quando se assiste a alguns de seus filmes (em especial, aos que ele dirigiu nos anos 1970 e 1980). Numa época tão conturbada da cinematografia mundial, Rollin ousou desafiar os padrões franceses ao dirigir filmes populares, com ingredientes que atraíam o grande público e chocavam a crítica especializada (que, a bem da verdade, nunca o reconheceu como “genial” ou algum outro adjetivo pomposo). E o diretor ousou em diversos gêneros, obviamente pegando carona na repercussão mundial dos filmes de vampiro da Hammer (antiga produtora inglesa, bastante popular entre o final da década de 1950 e o início da década de 1970) e dos filmes de sexo explícito, que se popularizaram a partir de fitas como Garganta Profunda (Deep Throat, 1972) e Atrás da Porta Verde (Behind the Green Door, 1972).
Sua lista de filmes realizados é imensa. E destacam-se os filmes de vampiros (os mais conhecidos são La Vampire Nue, Le Frisson des Vampires, Requiem pour un Vampire e Lèvres de Sang) e os filmes pornográficos – dirigidos sob pseudônimos – como Phantasmes (a.k.a. Seduction of Amy) e Discosex. Existe também uma homenagem aos filmes de zumbi de George Romero, com o seminal e poético Les Raisins de la Mort, que muitos consideram seu melhor trabalho. São todos filmes perturbadores. E de baixo orçamento, realizados pela paixão do diretor em contar em imagens uma história. Seus filmes de vampiro, para constar, não trazem o requinte narrativo encontrado, por exemplo, nas histórias da norte-americana Anne Rice, dona do personagem-ícone Lestat (levado ao cinema duas vezes: a primeira pelos olhos do inglês Neil Jordan e a segunda pelas mãos do inexpressivo diretor Michael Rymer). Mas suas imagens são aquelas que permanecem na cabeça do espectador, desafiando tempo, espaço, lógica e compreensão. Tudo em seu cinema é calculado para satisfazer a platéia, seja por meio das músicas que pontuam os filmes do começo ao fim (com destaque para a de La Nuit des Traquées, filme que também abusa do erotismo), seja por meio das interpretações dos atores, propositadamente exageradas e caricatas. Mesmo não reconhecido em diversos países, é inegável o peso que possui como artista autoral.
Abre um parêntese.
Aqui cabe uma explicação: cada país tem seu representante “maldito” na Sétima Arte. Enquanto na França Jean Rollin é o autêntico representante do lado mais obscuro do país, servindo de referência para outros diretores – como Gaspar Noé – que compartilham seu ponto de vista, no Brasil existe José Mojica Marins (o criador de Zé do Caixão) e nos Estados Unidos existe John Waters, assim como na Espanha existe Jesús Franco, todos com visões bem autorais e distantes do que se convencionou chamar “Cinema de Arte”, embora, hoje, sejam reconhecidos como “artísticos”.
Fecha o parêntese.
É uma pena que o Brasil ainda não tenha aberto os olhos para cineastas como Jean Rollin, comercializando alguns de seus filmes. Se, por um lado, seus filmes são releituras de alguns temas recorrentes do Horror, por outro, sua perspectiva e sua câmera, assim como sua paixão e desenvoltura, são atrativos mais do que justos para chamar a atenção do grande público. Mesmo que esbarre no artístico, seus filmes ainda conservam uma faísca popular e maravilhosa.
E, se o leitor duvida do poder de Jean Rollin em contar uma história por meio de imagens, desafio-o a assistir a dez minutos de um de seus filmes, para que comprove que todo o cinema de Horror recente presta homenagem a ele, seja em maior ou menor grau. Não mais que merecidamente.

 

Valter Martins de Paula é jornalista e historiador



JEAN ROLLIN – FILMOGRAFIA SELECIONADA

1968 – Le Viol du Vampire

1969 – La Vampire Nue

1970 – Le Frisson des Vampires

1971 – Requiem pour un Vampire

1972 – La Rose de Fer

1973 – Les Démoniaques

1973 – Jeunes Filles Impudiques (nos créditos, ele aparece com o pseudônimo de Michel Gentil)

1974 – Tout le Monde Il en a Deux (nos créditos, ele aparece com o pseudônimo de Michel Gentil)

1975 – Lèvres de Sang

1975 – Phantasmes

1977 – Vibrations Sensuelles (nos créditos, ele aparece com o pseudônimo de Michel Gentil)

1978 – Discosex

1978 – Les Raisins de la Mort

1979 – Fascination

1980 – La Nuit des Traquées

1981 – Les Echapées

1981 – Le Lac des Mort Vivants

1982 – La Morte Vivante

1984 – Les Trottoirs de Bangkok

1988 – Emmanuelle 6

1989 – Perdues dans New York

1993 – La Femme Dangereuse

1997 – Les Deux Orphelines Vampires

2002 – La Fiancée de Dracula

2007 – La Nuit des Horloges