Ano 1 - nº 1 - novembro de 2008/janeiro de 2009

14, BOULEVARD DES CAPUCINES
Rubens Francisco Lucchetti



O Cinema, a Sétima Arte, nasceu no inverno. E em Paris o inverno é escuro e triste. Vem com vento agudo e frio, que faz rodamoinhos... Vem também com chuva fina e persistente. As fachadas das casas tornam-se mais negras, a água salpica nos pavimentos. Só as árvores se conservam luminosas, e suas últimas folhas amarelas e vermelhas cobrem o chão das grandes avenidas silenciosas e dos boulevards trepidantes.
O Boulevard des Capucines tem suas velhas árvores com manchas redondas e troncos esbranquiçados. Chove; e o vento derrama dos galhos as folhas mortas, outra chuva de ouro. Rompeu a guerra, as grandes vitrinas amortecem a luz ao final do crepúsculo. É dezembro de 1939.
Manuel Villegas López, o grande escritor e historiador espanhol detém-se diante do enorme casarão, consulta o relógio; e sua imaginação retrocede... retrocede...
Até dezembro de 1895...
O historiador acerca-se do casarão. Vê o número, é o 14. E lê a gravação no mármore:

“Aqui, em 28 de dezembro de 1895, teve lugar a primeira sessão pública de fotografia animada, por meio do aparelho cinematográfico dos Irmãos Lumière.”

O Cinema não possui monumentos que descrevem a sua história, pensa Villegas López. Possui esta casa, mas aí está representada a vida do Cinema. Aqui havia o Grand Café, em cujo sótão, no Salon Indien, instalou-se o primeiro cinema do mundo. Apareceram trinta e três curiosos, pagando um franco cada um. Foi uma tarde como essa, cinzenta e fria, sob a chuva fina e tenaz, sob o rumor das árvores que se desfolham.
Villegas López encolhe-se em seu grosso sobretudo... O olhar triste, vagando pelo tempo e pelo espaço, como que querendo nele encontrar a imagem daquela tarde... e, então, pudesse ser o feliz trigésimo quarto “curioso”... O Grand Café já não existe mais. Em seu lugar surgiram oito ou dez vitrinas, amplas e iluminadas, que dão volta à esquina da Rua Scribe. Sobre elas, em letras de bronze, a placa: “Agência Cook”. E nas vitrinas anúncios de viagens. Palmeiras: “Taiti e as ilhas paradisíacas da Polinésia”. Montanhas, lagos: “Visite a Noruega”. As pirâmides do Egito e o cume nevado do Fujiama... Bandeiras multicores das exposições internacionais. O camarote de luxo do mais recente transatlântico e o modelo mais novo de avião de passageiros. Um trem a toda velocidade parece querer sair do cartaz. “Realize a volta ao mundo na Agência Cook.”
Naquela primeira sessão de cinema foram projetadas dez películas de pouco mais de um minuto cada uma (A Saída dos Operários da Fábrica e A Chegada de um Trem são as mais famosas delas). Essas películas permaneceram vários meses em cartaz – os primeiros ingressos, trinta e três francos; três semanas mais tarde entravam diariamente dois mil e quinhentos francos, sem publicidade alguma. Eram documentários e reportagens, ou melhor, eram “viagens”; e os Irmãos Lumière denominaram o seu invento de “o grande viajante”. Naquele tempo, o Cinema se propunha apenas a isso mesmo: ser o grande viajante. E os transeuntes despreocupados entravam no primeiro cinema com a mesma ilusão, com o mesmo sonho com que nessa fria tarde de inverno os passantes se detêm diante dessas vitrinas cheias de cartazes de viagens. No mesmo local, a mesma janela do mundo.
Manuel Villegas López olha mais uma vez a vitrina e principia a caminhar. São os derradeiros dias de 1939, mas é como se estivesse naquele longíquo final de 1895. Pouco a pouco, sua figura começa a perder-se em meio de outras pessoas que caminham apressadamente pelo boulevard molhado. Chove, e o vento derrama dos galhos de ouro... chuva de ouro...

 

Rubens Francisco Lucchetti é ficcionista e roteirista de Cinema e Quadrinhos