Ano 3 - nº 9 - fevereiro/maio de 2011

A VERDADEIRA HISTÓRIA COMEÇA A SER CONTADA
Geraldo Galvão Ferraz



Nos velhos tempos em que o mocinho ganhava do bandido e casava com a mocinha, ninguém era mais bandido que o índio. Quando os pacíficos colonos vinham falando de uma nova terra prometida, a câmara ia para o alto das escarpas próximas e era inevitável: lá estavam as silhuetas odiadas.
Confusão. Berros. O mocinho dava as ordens, os carroções ficavam em círculo. Corte. Um índio velho, cheio de penas, dava um berro ou agitava uma lança. Lá ia o bando de gente pintada berrando. Corte. O mocinho, fazendo careta, dizia para o idiota ao lado que não devia atirar. “Espere! Temos pouca munição!”
Lá vinham os índios. O mocinho dizia “agora!”, e começava a cair gente pintada dos cavalos. Mas a pouca munição provocava caretas desesperadas do mocinho, cercado de gente ferida. Até o idiota estava ferido. Quando a mocinha (que estava carregando os rifles) dizia que era a última carga, soava o clarim salvador da Cavalaria e milhões de Casacos Azuis encurralavam um punhado de índios, acabando com todos. Beijo final. The End.
Mas, e a verdade? Ela começou a aparecer a partir de livros como Enterrem Meu Coração na Curva do Rio (Bury My Heart at Wounded Knee, 1970), de Dee Brown (...).
Os mocinhos, de repente, não têm a pele branca. Pelo menos, a maioria. Têm nomes que, nos filmes, eram perseguidos por bandos comandados por John Wayne, Henry Fonda ou James Stewart: Cochise, Gerônimo, Nuvem Vermelha, Cavalo Doido, Victorio, Touro Sentado...
A tal gente pintada que berrava é um povo altivo, nobre, com uma cultura própria, que só entrava em guerra defendendo o direito de viver nas terras que sempre foram suas. Contra eles, um dos maiores exércitos da época, armado com as últimas descobertas da tecnologia bélica para enfrentar mosquetões obsoletos e arcos e flechas.
Os brancos guardam a memória, por exemplo, do massacre de Little Big Horn, onde morreu o General Custer. Ficou relegado aos livros especializados e aos documentos de acesso difícil o grande número de massacres de aldeias índias, com morte a sangue-frio de velhos, mulheres e crianças. Massacres que, comparados a My Lai, no Vietnã, são como um filme de Sam Pekinpah ao lado de um desenho de Walt Disney.

 

Este texto foi transcrito da Apresentação que Geraldo Galvão Ferraz escreveu para a versão em Português do livro Enterrem Meu Coração na Curva do Rio (Bury My Heart at Wounded Knee, tradução de Geraldo Galvão Ferraz, São Paulo, Círculo do Livro, 1983, pp. 9-10), de Dee Brown