Ano 3 - nº 9 - fevereiro/maio de 2011

“UM WESTERNZINHO ARTÍSTICO”
Otto Friedrich



Apesar de emocionalmente envolvido com Quando Fala o Coração (Spellbound, 1945), o produtor David O. Selznick estava mais envolvido num projeto bem mais grandioso e alucinado: Duelo ao Sol (Duel in the Sun, 1946).
Quando Selznick comprou o romance de Niven Busch, entregou a direção a King Vidor e disse que seria apenas “um westerzinho artístico”. Logo depois, porém, anunciou: “Quero filmar com muitos cavaleiros, cavalos selvagem, gado etc.”
Passados mais de vinte meses e vários estágios de produção, o investimento era superior a cinco milhões de dólares, custo maior que o de ...E o Vento Levou (Gone with the Wind, 1939).
Selznick satisfez não só sua suas extravagâncias de produtor, pagando, por exemplo, a Walter Huston quarenta mil dólares por quatro dias de trabalho, como seus caprichos de escritor, pois ele mesmo preparou o roteiro, reescrevendo cenas que já haviam sido filmadas e insistindo com Vidor para refilmá-las.
A razão principal de toda essa excentricidade estava em que Duelo ao Sol apresentava Jennifer Jonas como uma mestiça apaixonada pelo herói do mal, Gregory Peck. Era a anticaracterização levada ao extremo: o respeitabilíssimo Gregory Peck como assassino, e Santa Bernadette como prostituta. Esquisito era a senhora Jones, talvez precisamente pelo recato de seus papéis anteriores, demonstrar uma estranha qualidade erótica; e Selznick teve um prazer quase perverso em extrair, exibir e fotografar isso. Selznick disse mais tarde, quando surgiu um desentendimento quanto aos créditos de direção: “Era principalmente nas cenas de amor que eu ficava no set de manhã, de tarde e de noite, redirigindo os atores, a câmera e até a iluminação.”

 

Este texto foi transcrito do livro A Cidade das Redes (City of Nets a Portrait of Hollywood in the 1940’s, tradução de Ângela Melim, indicação editorial e consultoria de Sérgio Augusto, São Paulo, Companhia das Letras, 1988, pp. 229-230), de Otto Friedrich