Ano 3 - nº 9 - fevereiro/maio de 2011

UMA INGÊNUA DO OESTE (AN INGENUE OF THE SIERRAS)
Bret Harte
tradução e versão: Marco Aurélio Lucchetti



Quando a diligência atravessou velozmente a Serra de Galloper, que estava mergulhada numa quase total escuridão, todos nós prendemos a respiração. O próprio veículo não passava, então, de uma enorme e desconjuntada sombra. Suas luzes laterais tinham sido cuidadosamente apagadas; e o condutor, “Yuma” Bill, acabara de tirar dos lábios de um passageiro, que viajava na boléia, o charuto com que, até aquele momento, o homem exibira de maneira ostensiva a sua indiferença. Tudo isso fora feito porque diziam que a quadrilha de Ramon Martinez estava emboscada à nossa espera e, caso visse nossas luzes, iria nos cortar o caminho na floresta mais adiante. Assim, se pudéssemos atravessar a serra, sem sermos vistos, estaríamos salvos. Depois, ainda que nos seguissem, teríamos grandes possibilidades de escapar.
O enorme veículo balançava de um lado para o outro. De quando em quando, inclinava-se perigosamente na borda do precipício, que tinha, do alto até os pinheiros lá embaixo, mais de mil metros de profundidade. Porém, isso parecia não preocupar nem um pouco “Yuma” Bill, que se mantinha firme no comando dos seis cavalos que puxavam a diligência. Era como se ele pudesse sentir e cheirar a estrada que já não podia ver. Por fim, a serra foi transposta e mergulhamos na escuridão ainda mais profunda da floresta. Tínhamos a impressão de que não mais nos movíamos, tudo se transformara apenas numa noite espectral que passava voando à nossa volta. E o veículo não diminuía de velocidade, como se um demônio o guiasse.
Pouco a pouco, as árvores começaram a rarear. E, logo em seguida, a floresta ficou para trás. Estávamos fora de perigo e, aparentemente, sozinhos.
As luzes foram novamente acesas.
– Acho que “Yuma” Bill estava louco por uma luta com os bandidos e ficou desapontado – disse o passageiro que viajava na boléia.
“Yuma” Bill não falou nada e continuou a dirigir a diligência, com os olhos pregados no caminho. Passaram-se uns cincos minutos.
– Está preocupado com alguma coisa, Bill? – Indagou o guarda da diligência, que viajava ao lado do cocheiro.
– Não sei direito o que está acontecendo – foi a resposta de “Yuma” Bill. – Não vejo sinal algum da quadrilha de Ramon e não compreendo a razão de não termos sido atacados.
– Ora, não nos atacaram pelo simples fato da nossa corrida ter sido coroada de êxito – arriscou o passageiro, voltando a acender o charuto. – Essa quadrilha de que tanto falam esperava ver as nossas luzes na serra; mas, como não as viu, perdeu nossa pista. Essa é minha opinião.
– Recebe alguma coisa por esse tipo de opinião? – Perguntou “Yuma” Bill.
– Lógico que não!
– Porque há um jornal de San Francisco que paga por isso, e eu já li nele algumas opiniões tão descabidas quanto a sua.
– Então, por que apagou as luzes? – Retrucou o passageiro, levemente irritado com o comentário do condutor.
– Talvez para impedir que os passageiros ali dentro se pusessem a atirar no primeiro arbusto que pensassem ter visto mexer-se, atraindo assim as balas dos bandidos para nós.
Embora pouco satisfatória, a explicação nada tinha de improvável.
– Quem foi que embarcou em Summit? – Indagou, de repente, “Yuma” Bill para o guarda.
– Derrick e Simpson.
– E aquela jovem do Condado de Pike, com todas as suas malas? Não se esqueça dela – acrescentou o passageiro, em tom irônico.
– Alguém a conhece? – Inquiriu “Yuma” Bill.
– É melhor perguntar ao juiz Thompson. Ele mostrou-se muito atencioso com ela – respondeu o passageiro. – Até lhe arranjou um lugar junto da janela e cuidou de toda a sua bagagem.
– Arranjou-lhe um lugar junto da janela? – Surpreendeu-se “Yuma” Bill.
– Sim. E mostrou-se muito prestativo: quando ela deixou cair um anel no chão, acendeu logo um fósforo, apesar da sua proibição, e manteve-o aceso até que o anel fosse encontrado. Foi justamente quando atravessávamos a floresta. Vi tudo pela janela, pois estava de cabeça virada para as rodas, de arma em punho, pronto para entrar em ação, caso os bandidos nos atacassem.
“Yuma” Bill resmungou qualquer coisa, sem olhar o passageiro na boléia.
Estávamos agora a menos de uma milha da encruzilhada, onde ficava a estação em que pararíamos para descansar e mudar os cavalos. As luzes da estação brilhavam à distância e já se notava, no alto da serra, o leve clarão da madrugada. De repente, um cavaleiro surgiu ao nosso lado. Ficamos todos surpresos, somente “Yuma” Bill se manteve sereno.
– Olá – saudou o cocheiro, diminuindo a velocidade do veículo.
O estranho, que parecia ser um condutor de mulas de carga, fez um gesto de saudação com a cabeça e continuou galopando ao nosso lado.
– Pelo visto, os homens de Ramon não o atacaram – falou “Yuma” Bill.
– Não carrego nenhum tesouro. Mas vocês também escaparam ilesos. Eu os vi cruzarem a serra.
– Viu? Mas trazíamos as luzes apagadas.
– Sim, as luzes estavam apagadas, Bill. Porém, tinha alguma coisa branca... talvez um lenço ou um véu de mulher a voar pela janela. Era apenas um ponto branco a se mover no meio da escuridão. Logo vi que era a sua diligência. Boa-noite.
Disse isso e afastou-se a todo galope. “Yuma” Bill não falou mais nada. Ficou calado, durante o resto do trajeto, até a estação.
Assim que o veículo parou em frente da estação, todos os passageiros, inclusive o que viajava na boléia, desceram rapidamente, desejando esticar as pernas. O guarda também ia imitá-los, mas o cocheiro o puxou pela manga da camisa.
– Espere, Allen...
– Que houve?
– Bem, – começou “Yuma” Bill, tirando lentamente uma das suas enormes luvas, – quando passamos pela floresta lá atrás, vi um homem, tão bem como o estou vendo agora. Pensei que a quadrilha de Ramon iria nos atacar. Então, o homem recuou e fez um gesto; e nós passamos sãos e salvos.
– E daí?
– Daí é que a nossa diligência passou livremente pelo bando esta noite.
– Nesse caso, tivemos uma sorte dos diabos!
– Olhe, – falou o cocheiro, tirando calmamente a outra luva, – eu arrisco minha pele nesta linha três vezes por semana e sempre me sinto grato por pequenas graças. Mas, quando se trata de passar a salvo por artes de um integrante de um grupo de bandidos, acho que aí tem algo escondido. E vou descobrir o que é. E, para isso, começarei interrogando os passageiros.



A estação consistia num estábulo e um edifício com três aposentos. O primeiro desses aposentos servia de quarto para os empregados da estação; no segundo, funcionava a cozinha; e o terceiro, o mais amplo de todos, era usado como sala de espera pelos passageiros. Não se conseguia nada para comer ou beber ali, pois a estação não tinha um bar ou restaurante. Entretanto, uma ordem dada por “Yuma” Bill fez surgir milagrosamente uma garrafa de uísque; e foi oferecida de graça, para cada um dos passageiros, uma dose da bebida.
A sedutora influência do álcool soltou a língua do galante juiz Thompson. Ele admitiu ter acendido um fósforo, a fim de que a moça do Condado de Pike pudesse encontrar o anel, que, afinal de contas, caíra apenas no seu colo.
Ela era uma jovem loura muito bonita e saudável, uma verdadeira nativa do Oeste, uma flor em botão! Uma garota simples e inocente!
Dirigia-se para Marysville, embora esperasse encontrar alguns amigos, ou melhor, um amigo, pouco mais adiante. Era a sua primeira visita a uma cidade grande ou a qualquer centro civilizado, desde que nascera, dezenove anos atrás. A sua curiosidade infantil era verdadeiramente tocante; e a sua inocência, irresistível. Ela parecia ser uma das criaturas mais adoráveis. E, naquele momento, estava lá fora nos estábulos, vendo colocarem os arreios nos cavalos. Preferia fazer isso a ouvir os vazios galanteios dos passageiros mais jovens.
Seus olhos francos, cinzentos e grandes, assim como a sua boca carnuda, expressavam um grande deleite pela vida e tudo o que a rodeava. Olhava as malas serem arrumadas novamente no lugar destinado às bagagens. De repente, deu um gritinho, quando viu uma das suas malas cair no chão. Era a oportunidade que “Yuma” Bill esperava.
– Ei! Mais cuidado com isso! – Gritou ele para o homem que estava arrumando as bagagens. – Você não está lidando com pedras! É uma das suas malas, senhorita? – Indagou cortesmente, voltando-se para a jovem.
Ela brindou-o com um belo sorriso de aquiescência; e “Yuma” Bill levantou a pesada mala nos braços, mas escorregou e caiu pesadamente no chão. A mala voou das suas mãos e, ao bater no solo, abriu-se. Uma grande quantidade de roupas femininas, cheias de rendas e fitas – tudo da melhor qualidade – espalhou-se. A jovem deixou escapar um novo grito, agora mais alto que o anterior. O cocheiro desmanchou-se em mil desculpas e pegou todas as roupas e guardou-as na mala, que se apressou em amarrar com uma corda resistente. Enquanto fazia isso, informou a garota de que a companhia lhe daria uma nova mala e a reembolsaria por qualquer outro prejuízo. Depois, acompanhou-a até a sala de espera e arranjou-lhe um lugar no banco junto à lareira. Assim que ela se sentou, tirou um papel do bolso do colete. Era a lista dos passageiros.
– Aqui diz que se chama Polly Mullins... – falou “Yuma” Bill, olhando para os cabelos louros da jovem.
A passageira ergueu os olhos, percebendo que ela e cocheiro tinham-se tornado o centro de interesse de todos os presentes. Em seguida, respondeu:
– É o que está aí.
– Bem, srta. Mullins, tenho uma ou duas perguntas para fazer-lhe. E vou fazê-las diante de todos. Tenho o direito de chamá-la de lado, a fim de interrogá-la. Tenho esse direito, mas não acho correto. Porque não sou nenhum detetive. E a senhorita não precisa responder às perguntas, se não quiser. Bem, a primeira pergunta é a seguinte: fez sinal a alguém, quando, duas horas atrás, passávamos pela Serra de Galloper?
Todos nós pensamos que a audácia de “Yuma” Bill tinha chegado ao auge. Precisava ser muito corajoso ou burro  – ou os dois –, para acusar dessa maneira uma jovem cheia de encantos e inocência diante de um grupo de californianos cavalheirescos. Era um gesto próprio de um desesperado.
O juiz Thompson, com um sorriso cordial, interveio:
– Vamos, Bill, sou obrigado a protestar em nome desta jovem...
Levantando os olhos para o cocheiro, a passageira respondeu:
– Sim, acenei.
– A senhorita permitiu que o seu lenço flutuasse pela janela... Eu mesmo reparei nisso. Mas tudo aconteceu por casualidade ou por simples brincadeira... – justificou o juiz.
– Não, não. Eu acenei de propósito – retorquiu a jovem, observando o seu defensor.
– E para quem fez o sinal? – Quis saber “Yuma” Bill, com ar sério.
– Ao rapaz com quem vou me casar.
Um sobressalto, seguido de um murmúrio dos passageiros mais jovens, foi instantaneamente reprimido pelo olhar severo do cocheiro.
– E por que fez isso?
– Para dizer-lhe que eu estava aqui e que tudo ia bem – respondeu a jovem, com orgulho crescente e um vivo rubor.
– Que tudo ia bem? Que quer dizer com isso?
– Ora, que eu não estava sendo seguida e que ele poderia me encontrar na estrada, depois da estação da Serra de Cass. – Ela fez uma pausa e, a seguir, acrescentou: – Fugi de casa para casar, e é o que pretendo fazer! Ninguém me impedirá! Papai não gosta do meu noivo. Tudo porque tem dinheiro, e o rapaz que amo é pobre. Papai quer que eu me case com um homem que odeio. Comprou-me um monte de vestidos...
– E a senhorita trouxe todos esses vestidos, não é? – Perguntou “Yuma” Bill, com um sorriso.
– Sim. Já disse que o rapaz com quem pretendo me casar é pobre.
– E o nome de seu pai é Mullins...?
– Não, não é Mullins. Eu... inventei esse nome – respondeu ela, com voz hesitante.
– Então, como se chama ele?
– Eli Hemmings.
Um sorriso de alívio se espalhou nos rostos dos que a ouviam. Todos ali conheciam a fama de Eli Hemmings, sabiam que era um homem avarento e usuário. Essa fama se espalhara por toda a Califórnia.
– Não é necessário dizer-lhe, srta. Mullins ou srta. Hemmings, que o passo que resolveu dar é por demais importante – falou o juiz Thompson. – É um passo que irá influir no resto da sua vida. Espero que tenha pensado profundamente no assunto. E que sabe a respeito do rapaz por quem está sacrificando tanto e pondo talvez em perigo todo o seu futuro? Por exemplo, conhece-o há quanto tempo?
– Conheço-o há quase um ano.
– E ele trabalha?
– Oh, sim. Ele é coletor.
– Coletor?
– Ele cobra contas, sabe? Recebe dinheiro. Não para si mesmo. Pois o pobre Charley nunca teve dinheiro algum. Faz cobranças para uma firma. É um trabalho muito penoso, já que o obriga a cavalgar, dia e noite, por estradas bem ruins. Faz isso até mesmo na época das chuvas. Às vezes, quando aparecia no rancho para me ver, estava tão cansado que quase não podia se manter na sela. E corre grandes riscos também. Tem vezes que as pessoas lutam com ele e negam-se a pagar o que devem. Vocês não imaginam como existe gente sem caráter neste mundo de Deus. Uma vez deram-lhe um tiro no braço, e ele foi me procurar. Fui eu quem tratou do ferimento. Mas ele não liga. É valente. Sim, é muito valente. E é também um rapaz muito bom.
Todos os que ouviram essas palavras passaram a sentir mais simpatia pela jovem.
– Para que firma ele trabalha? – Quis saber o juiz.
– Não sei... Ele nunca me disse, mas acho que é uma firma espanhola. É que, – ela nos fez partilhar de sua confidência, com um sorriso feliz e encantador, um sorriso cheio de inocência, – certa ocasião, bisbilhotei uma carta que ele recebeu da tal firma. Dizia que tinha de partir para determinado lugar no dia seguinte e ficar esperando novas ordens. Acho que o nome da firma era Martinez... Sim, é isso: Ramon Martinez...
Seguiu-se um silêncio de morte, um silêncio tão profundo que podíamos ouvir o som dos cavalos no estábulo. A jovem, porém, não percebeu isso e continuou:
– O trabalho de Charley é mesmo muito perigoso! Mas ele diz que faz tudo por mim e que, assim que nos casarmos, abandonará esse emprego. Podia ter saído há mais tempo; no entanto, além de pobre, Charley é orgulhoso demais. Eu queria tirar do banco o dinheiro que mamãe me deixou. Iria tirar o dinheiro e dar ao Charley, mas ele não permitiu. E, assim, continua pregado naquele cavalo. Ficando, a cada dia, mais cansado e triste, mais magro e pálido como um fantasma, e cada vez mais inquieto a respeito do seu trabalho. Ora, ele deve ter galopado milhas e milhas para me ver passar pela floresta, ao pé da serra, esta noite, só para certificar-se de que eu estava bem. E eu teria de lhe fazer um sinal ou acender uma luz, ainda que tivesse de morrer no instante seguinte. E aí está tudo o que sei a respeito de Charley! E foi por esse motivo que fugi de casa para me encontrar com ele, e pouco me importa que outras pessoas saibam disso. E só não fugi antes porque ele nunca me pediu.
Ela parou de falar. Depois, seu rosto se anuviou; e lá veio uma torrente de lágrimas.
Nós sorrimos debilmente, uns para os outros, conscientes de que nada podíamos fazer diante de tal situação. “Yuma” Bill nos reuniu apressadamente e levou-nos para fora, deixando a jovem sozinha. Em seguida, o cocheiro afastou-se com o juiz Thompson; e os dois homens conversaram por algum tempo. Depois, “Yuma” Bill tornou a entrar na estação. Voltou trazendo a passageira. E, logo, a diligência estava mais uma vez na estrada.
– Tem certeza de que esse Charley é um dos homens do bando de Ramon Martinez? – Indagou o guarda da diligência, assim que o veículo começou a movimentar-se.
– Não sei ao certo – respondeu o cocheiro. – Pode ser apenas algum infeliz que andou jogando em Sacramento, ficou sem dinheiro e aliou-se à quadrilha para conseguir alguns trocados.
– E que pretende fazer agora?
– Tudo irá depender do homem que vier encontrar a garota.
– Mas não está pensando em prendê-lo, não é? Seria um golpe muito baixo contra os dois.
– Não se preocupe com isso, Allen! O juiz e eu queremos apenas fazer o rapaz voltar para o bom caminho! Se admitir os seus erros, faremos o casamento dos dois na primeira estação. O juiz não irá cobrar nada pela cerimônia, será o presente dele para os noivos.
– E você acha que ele irá nos cair nas mãos facilmente?
– Polly lhe fará sinal, dizendo que tudo está em ordem.



A diligência parou, afinal, perto de uma encruzilhada. No instante seguinte, Polly saltou do veículo e, com um aceno de mão, desapareceu do nosso campo de visão.
Passaram-se uns cinco minutos, com todos nós em silêncio. Então, uma voz, que vinha da estrada, falou:
– Vão em frente. Nós os seguiremos.
A diligência pôs-se em movimento. A seguir, ouvimos o som de outras rodas atrás de nós. O guarda da diligência virou a cabeça para trás e conseguiu ver, à luz do amanhecer, uma charrete com duas pessoas. Eram evidentemente Polly e o seu noivo. Esperamos que passassem à nossa frente; mas o veículo, embora puxado por um animal veloz, mantinha sempre a mesma distância. Era mais do que evidente que o homem que o conduzia não tinha o menor desejo de satisfazer a nossa curiosidade.
– É ele o homem que você supunha? – Perguntou o guarda da diligência ao cocheiro.
– Creio que sim!
– E que é que vai impedir que fujam?
– As malas dela.
– Entendo...
– Nós vamos vamos ficar com as coisas daquela jovem até termos concluído o negócio e eles estarem casados.



Quando a hospedaria de Suggar Pine, agora perfeitamente visível sob a luz da manhã, apareceu à pequena distância, no planalto, a charrete passou rapidamente por nós. Não tivemos nem tempo de distinguir as feições das pessoas que iam dentro dela. O veículo parou em frente da hospedaria. A jovem e o seu companheiro desceram e desapareceram no interior do edifício, no instante em que “Yuma” Bill parava a diligência.
O apetite dos passageiros, aumentado pelo ar das montanhas, foi mais forte do que a curiosidade. Por isso, assim que entraram na hospedaria, os ocupantes da diligência não se preocuparam com o jovem casal, que se evaporara, e correram para a sala de jantar, a fim de tomarem o café da manhã. “Yuma” Bill e o juiz Thompson também sumiram de vista.
Cerca de meia hora depois, ouviu-se um ruído qualquer no hall que dava para  a varanda; e o cocheiro e o juiz reapareceram. Este último segurava pelo braço a graciosa srta. Mullins, enquanto “Yuma” Bill ia ao lado de um homem. Os quatro saíram da hospedaria. Todos nós corremos para as janelas, a fim de darmos uma olhada no estranho, misterioso e provável ex-bandoleiro, cuja vida estava agora unida à da nossa companheira de viagem. Não havia dúvida de que era um belo sujeito, de aparência jovem e vigorosa. Mas havia um quê de acanhamento na expressão do seu rosto, havia também algo de inquietante, que não combinava com o feliz possuidor de tão invejável noiva. Porém, o sorriso franco e jovial de Polly Mullins tornou a reconquistar os nossos corações, fazendo-nos esquecer os defeitos do seu eleito. Creio que teríamos dado três “hurras!” em homenagem ao casal, se os olhos de “Yuma” Bill não se fixassem sobre nós. Alguns minutos depois, fomos convidados a comparecer diante dele e do juiz.
Nós os encontramos numa sala reservada. Estavam diante de uma mesa onde se viam uma garrafa e alguns copos.
– Senhores, – começou a falar “Yuma” Bill, com toda a calma, – todos presenciaram, esta manhã, uma cena romântica; e, agora, o juiz e eu queremos que se beba à saúde e à felicidade do sr. e sra. Charley Byng, que se encontram a caminho da lua-de-mel. O que sabem ou julgam saber a respeito do homem que acabou de desposar a srta. Polly não vale a pena ser discutido; e o juiz é da opinião de que devem prometer que manterão o caso em segredo! Essa é a opinião dele. Quanto a mim, gostaria apenas de avisar que, se eu souber que alguém falou alguma coisa...
– Um momento, Bill – interveio o juiz Thompson. – Deixe-me explicar... Quero que compreendam, cavalheiros, que, nesse pedido, não há nada que, na qualidade de bons cidadãos respeitadores da Lei, não possam atender. Não temos a menor prova dos antecedentes criminais do sr. Charley Byng, a não ser os que nos foram revelados pelos lábios inocentes da sua noiva, que acabaram de ser cerrados pela mão da Lei, já que a srta. Polly se tornou a esposa de Charley. Nós, porém, não lhe reconhecemos nenhuma irregularidade; e nenhum juiz o condenaria, baseando-se em tais provas. Quando lhes confessar que a jovem está em pleno gozo de seus direitos civis e que não sofreu nenhuma influência indevida na sua decisão de se casar com Charley, creio que os senhores aceitarão fazer a promessa que lhes peço. E, agora, desejando muitas felicidades ao casal, bebamos um copo de uísque.



“Yuma” Bill e o guarda da diligência conversavam na varanda da hospedaria de Suggar Pine.
– Viu, Allen? Quando “Yuma” Bill toma as rédeas de um assunto como este, vai até o fim. Mas houve um momento em que fiquei meio assustado. Foi quando decidimos fazer aquele homem confessar para a moça o que ele era na verdade. E, então, se ela tivesse desistido de se casar, nós daríamos a ele cinco minutos para ir embora daqui e teríamos levado a jovem e todos os seus pertences de volta para o velho Hemmings. No entanto, a pobrezinha limitou-se a soltar um gritinho, caindo-lhe nos braços entre risos e lágrimas, e disse: “Nada, neste mundo de Deus, poderá me separar de Charley!” Se não tivesse a certeza de que ele estava decidido a abandonar aquela vida... Creio que já estava farto de andar errando, dia e noite, por estas serras. Bem, assim, os nossos montes se livraram pelo menos de um dos membros da quadrilha de Ramon Martinez.
– Que é que há com a quadrilha de Ramon Martinez? – Perguntou uma voz trovejante.
“Yuma” Bill virou-se muito rápido, reconhecendo a voz de Neil Saunders.
Homem de grande caráter, Neil era o superintendente da companhia de diligências. Sua roupa e seu chapéu empoeirados indicavam que chegara naquela manhã, para a sua habitual visita de inspeção.
– Espero que não tenham cruzado com os homens de Ramon...
– Não vimos nem sinal deles – informou “Yuma” Bill.
– Ainda bem, porque esses bandidos não respeitam mais nada. Antes, apenas roubavam ouro e dinheiro; agora roubam até as bagagens dos passageiros. Na última semana, roubaram duas malas com as roupas de uma jovem rica que acabara de casar em Marysville. Uns tipos assim deveriam ser enforcados na primeira árvore.
O rosto de “Yuma” Bill se contraiu levemente. Depois, o cocheiro respirou fundo e perguntou:
– Conhece, por acaso, o velho Eli Hemmings?
– É claro que conheço!
– Conhece-o pessoalmente?
– Sim. Já fui algumas vezes ao rancho dele.
– Então, conhece sua filha, que se chama Polly.
– Filha?! Ele não tem filha alguma!
– Não? Ela não é uma criaturinha ingênua e inocente?
– Já disse que Hemmings não tem filha. Nunca teve nem esposa. É um solteirão inveterado. É avarento demais para sustentar mais do que uma boca.
– E quanto aos membros da quadrilha de Ramon? Conhece algum deles?
– Na verdade, conheço a quadrilha inteira...
– Conhece um homem chamado Charley Byng?
– Charley Byng...? Ele é do bando de Ramon?
– Pelo menos era.
– Esse eu não conheço...
– É um sujeito bem apessoado, moreno, tem olhos escuros e brilhantes, um bigode retorcido...
– Está querendo brincar comigo, Bill?
– Claro que não!
– Ora, você acaba de me dar a descrição de Ramon Martinez!
E, após dizer isso, Neil Saunders afastou-se, deixando “Yuma” Bill e o guarda da diligência sozinhos. Os dois homens ficaram em silêncio por algum tempo. De repente, o cocheiro soltou uma sonora gargalhada.
– Que houve, Bill?
– Não compreende? No fim das contas, acabamos levando a melhor!
– Quê?!
– Ramon Martinez está amarrado para o resto da vida àquele demônio de saias...