Ano 3 - nº 9 - fevereiro/maio de 2011

UM TRATAMENTO DESUMANO
Karl May
ilustração: Harry Bishop



Não foi apenas com hospitalidade acolhedora, mas com uma consagração quase divina, que os índios receberam em suas tabas os primeiros “peles brancas” que os procuraram. E que lhes deram em paga de tão cativante hospitalidade? Indiscutivelmente aos índios pertenciam as terras por eles habitadas, e delas foram despojados. Que ondas de crueldade foram perpetradas, tudo isso é sabido por aqueles que leram a história dos “Conquistadores”. Seguindo-lhes o exemplo, a maioria dos que exploraram, posteriormente, o Oeste Bravio procedia, em geral, da mesma forma desumana. O branco vinha com palavras suaves nos lábios, mas trazia à cintura o punhal homicida e, à mão, o bacamarte. Prometia paz e amor e dava guerra e ódio. O vermelho teve de recuar, cedendo, palmo a palmo, o terreno. De tempos em tempos, concediam aos índios direitos “perpétuos” sobre os “seus” territórios; mas, pouco depois, repeliam-nos cada vez mais para longe. “Compravam-lhes” as terras; porém, ou não lhes pagavam ou faziam-no com mercadorias sem valor, que eles não podiam utilizar. Mas a “água de fogo” (aguardente) e várias moléstias contagiosas, às vezes endêmicas, que despovoavam tribos e mais tribos, os “peles brancas” distribuíram fartamente entre os pobres índios. Todas as vezes que o vermelho queria fazer valer os seus direitos, respondiam-lhe com pólvora e chumbo; e ele era forçado a render-se às armas dos “peles brancas”.
Amargurados, vingavam-se, depois, os índios em qualquer branco que encontravam, isoladamente ou em grupos. Os combates, os massacres eram constantes. Em conseqüência, o índio, caçador orgulhoso e audaz, valente e leal, sincero e amigo da verdade, foi se tornando traiçoeiro, desconfiado e mentiroso. E a culpa dessa degenerescência é única e exclusiva do branco.

 

Este texto foi transcrito do livro Winnetou 1º volume (Winnetou, tradução de A. Gomes Ferreira, Porto Alegre, Globo, 1931, p. II), de Karl May