Ano 3 - nº 9 - fevereiro/maio de 2011

RED RYDER
Luiz Antônio Sampaio



Ano de 1934. Um jovem chamado Fred Harman, crescido no rancho de seu pai no Colorado, portanto um conhecedor do Oeste americano, criou Bronc Peeler, uma história em quadrinhos que ele mesmo distribuía aos jornais, por meio da Fred Harman Features.
Os desenhos de Harman, de traços rudes e originais, não conseguiam, de início, esconder uma certa tendência ao estilo caricatural, que, felizmente, não prevaleceu.
O herói da série, Bronc Peeler, era um tosco cowboy de cabelos ruivos que vivia percorrendo a fronteira dos Estados Unidos com o México, em busca de aventuras. O Oeste retratado nas história não era o do século 19, mas o contemporâneo, com o personagem se mostrando tão capaz cavalgando, dirigindo um carro ou pilotando um avião. Inicialmente, ele tinha como companheiro um sujeito grisalho e meio tonto, Coyote Pete, que, mais tarde, a fim de atrair os leitores mais jovens, foi substituído por um indiozinho chamado Little Beaver.
Embora tivesse sido um vaqueiro de verdade, Fred Harman não se inspirou no verdadeiro Oeste para criar Bronc Peeler. Inspirou-se no Oeste retratado nas revistas pulp e nos filmes. Mesmo assim, Bronc Peeler foi um western interessante; porém, estava longe de ser o apogeu criativo de Harman. E o desenhista não conseguiu manter viva a sua obra, que deixou de ser publicada em 1938.
Certo dia, Stephen Slesinger, um homem de negócios, ficou conhecendo Bronc Peeler. Então, entrou em contato com Harman, propondo-lhe criar uma outra história em quadrinhos de Western, que seria distribuída aos jornais pelo NEA Service. Assim, surgiu Red Ryder, que não era uma história em quadrinhos original, mas um certo prolongamento de Bronc Peeler. O novo herói, conhecido apenas como Red Ryder, era um vaqueiro ruivo bom no gatilho e com os punhos. Curiosamente, Little Beaver (no Brasil, conhecido principalmente como Pequeno Castor ou Filhote de Castor) foi mantido como companheiro de Red Ryder.
Foi em 6 de novembro de 1938, um domingo, que Red Ryder estreou (na forma de página dominical colorida) nos jornais dos Estados Unidos (em 27 de março de 1939, Red Ryder começou a ser publicada também em tiras diárias). Desta vez, Fred Harman retratou nas histórias o Oeste do século 19; no entanto, um Oeste não muito bravio. A ação transcorria nos anos 1890, na região de Rimrock, um povoado do sudoeste do Colorado, lugar que o quadrinhista conhecia bem. Diante disso, é possível ter uma certa confiança na autenticidade do Oeste apresentado por Harman, pois fugia daquela elegância falsa mostrada em um sem-número de filmes produzidos em Hollywood. Não obstante, o desenhista falhou na criação de Little Beaver, não conseguindo fugir da falsidade de Hollywood.
Diferentemente de outros heróis justiceiros do Western, Red Ryder era um cowboy que trabalhava duro em seu rancho e que só se punha a realizar façanhas quando direta ou indiretamente envolvido nelas. Não era um cavaleiro andante, irreal. Era uma pessoa comum, que em certos momentos se tornava um herói.
O apogeu criativo de Harman foi na década de 1940, época em que Red Ryder estava no auge de sua popularidade. Então, as páginas dominicais de Red Ryder era um assombro aos olhos dos leitores, tal a sua beleza, com a rusticidade dos desenhos combinando de maneira maravilhosa com a rudeza do Velho Oeste.
A figura de Red Ryder foi largamente explorada por Stephen Slesinger. E o personagem acabou aparecendo num seriado cinematográfico: Aventuras de Red Ryder (Adventures of Red Ryder, 1940), produzido pela Republic, dirigido por William Witney & John English e estrelado por Don “Red” Barry (em nosso país, esse seriado foi lançado em DVD pela Classicline).
Depois do auge qualitativo que Red Ryder alcançou, era inevitável o seu declínio. Slesinger morreu no início da década de 1950; a série, agora distribuída pela McNaught Syndicate, já evidenciava claramente sinais de um desgaste visual, pois Harman confiava os desenhos de Red Ryder cada vez mais a seus assistentes (Edmond Good, Jim Gary, John Wade Hampton, entre outros). Assim, Red Ryder ia mais e mais perdendo a qualidade e a populariedade, até que Fred Harman decidiu deixá-la definitivamente, para dedicar-se a pintar quadros enfocando o Oeste. E Harman tornou-se, então, um artista de prestígio e expôs seus quadros em alguns dos mais famosos museus dos Estados Unidos. E Red Ryder passou a ser realizada por Bob McLeod. Entretanto, o personagem, o tema e o aspecto visual da série já estavam esgotados. McLeod nada conseguiu; e Red Ryder foi cancelada em 1964, já extremamente desgastada tanto visual quanto narrativamente.
Nas décadas de 1940 e 1950, querendo aproveitar o sucesso de Red Ryder, a Dell Publishing Co. publicou um comic book, Red Ryder Comics, com aventuras do famoso cowboy. Foram 151 números, lançados entre setembro de 1940 e abril de 1957. Deve ser destacado que a maior parte das histórias publicadas nessa revista não era da autoria de Fred Harman.
No Brasil, Red Ryder  estreou em 1939, com o título de O Cavaleiro Vermelho, nas páginas de A Gazetinha,  um tablóide publicado pelo jornal paulistano  A Gazeta, de propriedade de Cásper Líbero. Nos anos de 1940, Red Ryder apareceu, com o título de Bronco Piler, em duas publicações cariocas: O Globo Juvenil e Gibi. Depois, na década de 1950, foi publicada na revista Bronco Piler Magazine, da Rio Gráfica e Editora. Por fim, em dezembro de 1980 e julho de 1981, foi a atração principal de dois números (o 13 e o 20) de Histórias do Faroeste, da Editora Vecchi. Então, apareceu com seu título original. Quanto às histórias produzidas para Red Ryder Comics, elas apareceram principalmente em Nevada, um gibi publicado na segunda metade dos anos 1950 pela Editora Brasil-América.

 

Luiz Antônio Sampaio é colecionador e pesquisador de Quadrinhos