Ano 3 - nº 9 - fevereiro/maio de 2011

O PALADINO DO OESTE
Fábio Santoro



Relevante item da nostalgia televisiva é a série O Paladino do Oeste (Have Gun – Will Travel), dados o alto nível dos episódios e a boa repercussão alcançada, em princípio com o público adulto, mas logo depois com o infanto-juvenil.
Em substituição às aventuras do xerife Matt Dillon, de Gunsmoke (idem, 1955-1975), que rumaram para outras paragens, O Paladino foi apresentada na terceira fase de Ford na TV, que esta multinacional patrocinava. Sua estréia em São Paulo se deu às 21h30 da quinta-feira de 16 de março de 1961, na antiga TV Record, então pertencente ao grupo de Paulo Machado de Carvalho, fundador. A telessérie semanal se iniciou legendada; a posteriori dublaram as partes.
Transmitidos pela CBS, estes 226 episódios de 26 minutos, de oitenta mil dólares de custo médio cada, sempre filmados num contrastado e bem composto branco-e-preto, que os Estados Unidos testemunharam da sua sala de estar, de 14 de setembro de 1957 a 3 de agosto de 1963 (ou, de acordo com outra pesquisa, 21 de setembro), e aos quais a outrora hóspita Cidade Maravilhosa assistia desde 1960, desembarcaram com força total na, então, nem tão poluída – de gases, barulho, especulação e gente, tanto em quantidade como em qualidade, plebeus ou nobres – Paulicéia. Nos primeiros tempos, chegou até a irromper uma febre alta, do tipo que se alevantou nos EUA. Mas, sem demora, baixou a temperatura e a poeira das patas da montaria do Paladino; e a audiência não mais se assanhou tanto. Porém, resultou no suficiente para o programa varar as décadas, em reprises reiteradas; a última das quais nos recordamos, na tevê aberta, eclodiu na TV Gazeta, a partir de quarta-feira, 11 de setembro de 1991, às 20h, ou seja, em pleno horário nobre.
Consignemos, en passant, que o número de episódios supra constante é o mais confiável, contudo outras fontes registram 225 e, mesmo, 156.
Assim como a mencionada Gunsmoke, O Paladino se enquadrou na categoria de Faroeste para gente grande, o denominado Adult Western. Como se sabe, esta tendência tinha a dar uma visão mais realista do Oeste americano, na Televisão, seguindo aquela nítida corrente do Cinema, encabeçada por clássicos do Western Noir e outros não tão radicais, como: No Tempo das Diligências (Stagecoach – United Artists, 1939), direção de John Ford; Consciências Mortas (The Ox-Bow Incident – 20th Century-Fox, 1943) e Céu Amarelo (Yellow Sky – 20th Century-Fox, 1948), dirigidos por William Wellman; Almas em Fúria (The Furies – 20th Century-Fox, 1950), direção de Henry King; O Correio do Inferno (Rawhide – 20th Century-Fox, 1951), direção de Henry Hathaway; Matar ou Morrer (High Noon – United Artists, 1952), direção de Fred Zinnemann. Esta linha de filmes aboliu o excesso de ação – menos brigas, tiros e perseguições – e deu mais ênfase a pessoas, conflitos, situações, enredo, psicologia e clima. Ainda, dentro do possível, procurava-se adotar os ensinamentos da escola neo-realista italiana (também influenciadora de outros gêneros), com relação à observância a pormenores, antes desprezados ou não levados tão a sério: cenários com jeitão de ambientes autênticos (cenografia documentarista), vestuário surrado, homens com barba por fazer, um pouco de lixo aqui e ali, um cachorro vira-lata passando ao longe e outros requintes. Interpretações naturais, sem teatralidade. Mas, com freqüência, fotografia em claro-escuro e expressionista, embora diluída para os padrões americanos, usada mais para salientar certos elementos.
Em linguagem específica, própria do veículo, com close-ups contínuos, mais intimismo do que panoramas, tal e qual Gunsmoke, O Paladino do Oeste se desligou de vez da estética simples dos seriados de Cinema e das fitas “B” em geral, imperante nos primeiros tempos dos filmes de TV. Para alguns analistas ortodoxos, longe de se constituir em grande conquista, foi um desastre essa perda de puerilidade – o exato charme das produções em massa de segunda linha. Então, enredos fáceis, tramas superficiais e visual sem maior premeditação, ou aprofundamento psicológico e fotografia e direção de arte a um só tempo realistas e neo-expressionistas? Ora, ora, o dilema se pacifica com ligeireza se observarmos que os públicos-alvos são distintos – desconsideradas as evidentes nuances. Portanto, as duas alas, infanto-juvenil e adulta, têm garantido, cada qual, o lugar ao Sol. E à Lua.
Aconteceu que, pelo fato de os artífices desta série fazerem questão de aderir alto grau de realismo às narrativas, o índice de violência dos episódios aumentou bastante, em relação ao programas de Western predecessores, de violência mais disfarçada e mais implícita, mais cosmetizada, sutil ou ingênua, guardadas as proporções. Em O Paladino, não só as lutas físicas, os tiros e os ferimentos causados foram mais abertamente mostrados, como também as fraquezas e as chagas do caráter humano se expuseram com maior intensidade aos olhos e aos ouvidos dos telespectadores. No entanto, isto é certo, nada comparável aos padrões de explicitude quase sem limites da TV e do Cinema do nosso Terceiro Milênio.
O caráter adulto da telessérie, quanto aos elementos acima lembrados, suscitou à época uma problemática entre pais e filhos, norte-americanos e também tupiniquins. Como impedir ou, pelo menos, dificultar os mais jovens de assistirem às tais seqüências de violência e de horrendos defeitos da natureza do Homem? Não percamos de vista que, já naquele final da década de 1950 e início da de 1960, o poder paterno e materno perdera bastante terreno, tendo em vista a ampla difusão das modernas, ou modernosas, idéias da Psicologia, a pregar o afrouxamento das rédeas da autoridade: lassidão, esta, levada aos monstruosos extremos da atualidade – sem que vislumbremos no horizonte um mínimo, um molecular que seja, sinal de endurecimento por parte da Família, da Escola, da Sociedade, da Mídia e daquilo que se diz Governo! Como se todas estas instituições estivessem entorpecidas e apalermadas...
Queriam porque queriam os meninos presenciar o Paladino e suas proezas na tevê. A melhor solução encontrada pareceu a de jogar o programa para um horário mais tardio, pois se partia do enganoso pressuposto de que as crianças adormeceriam tão logo o programa despontasse. Alguns poucos realmente caíam no sono. Mas foi com exatidão na virada de decênio em apreço que nós e quase todos os contemporâneos constituímos a primeira geração infantil a dormir mais tarde, depois das 22 horas. Tudo por causa da caixa eletrônica e seu atraente conteúdo!
A controvérsia entre pais e filhos diante da tevê e os horários mais avançados não existia com referência aos filmes apresentados nas últimas sessões do cinema. Neste, dava para controlar melhor, até porque os petizes não entravam sozinhos nas salas de exibição à noite. A invasiva televisão é que criou uma nova situação. Have Gun ­Will Travel ganhou, assim uma aparentemente inesperada audiência da turminha com menos de metro e meio de altura. Da mesma forma que já ocorrera com Gunsmoke, pouco antes. Hoje, devido a estudos aprofundados, sabe-se bem que os heróis agressivos costumam cativar platéias juvenis; porém, cada vez menos os pais e as autoridades ligam para esta questão, em face da habitual banalização da violência e do crime. Perdoe o leitor o emprego do lugar-comum, mas cabe amplamente nesta oportunidade.
Fator ponderoso no processo, a instituição do costume de permanecermos muitas horas diante do televisor e assistirmos ao contínuo desfile de fatos do mundo-cão, na ficção e fora dela, a nós impingido como atrativo, para a obtenção de maior audiência, fez o Planeta perder de vez a inocência. Irreversivelmente. Divãs à parte, o recebimento de doses paulatinas de violência na veia, quer pela tevê, quer ao vivo, serve para os jovens se despedirem mais cedo da infância.
A noite da existência, precoce e célere, não parou mais de esbulhar os domínios da manhã.
Além de chefes artísticos e técnicos da própria Tevê, cineastas da Tela cederam a O Paladino o veio de seus conhecimentos e o seu estro. O consagrado Lewis Milestone dirigiu o episódio proemial e mais um; a atriz-diretora Ida Lupino, Buzz Kulik, Lamont Johnson, Richard Whorf, Richard Donner, Jerry Hopper, os também atores William Conrad e Don Taylor, outras frações importantes. O ulterior “poeta da violência”, Sam Peckinpah, subscreveu não só episódios, como também alguns dos roteiros mais consistentes da telessérie. Porém, o próprio Richard Boone, intérprete do protagonista da série, e Andrew V. McLaglen comandaram mais segmentos: o primeiro, dezenove; o segundo, 101, ou seja, quase a metade da telessérie.
O produtor e criador de Have Gun – Will Travel, Sam Rolfe também relembrado por outro programa bem posicionado, O Agente da UNCLE (The Man from U.N.C.L.E., 1964-1968), escreveu-lhe diversos roteiros. Outros redatores de peso foram o co-criador Herb Meadows, o notável Gene Roddenberry e o “Paladino” Richard Boone.
Da trilha musical, dentre outros, sobressaíram-se o exponencial Bernard Herrmann e Jerry Goldsmith, que pouco lhe ficou a dever; deverão se lembrar, ainda, do tema “The Balad of Paladin”, cantada por Johnny Western, aqueles fãs de memória – e de vida – mais elásticas. A autoria da “Balada” se deveu a Western, Sam Rolfe e, ainda uma vez, Richard Boone.
Com toda essa excelente infra-estrutura, a escolha do ator para o personagem-título, perfeita, recaiu em Richard Boone; e não se deixou por menos. Indivíduo calejado, heavy e sinistro, inteligente, cínico e aparentemente indestrutível, contido e impenetrável, misterioso e enigmático, de moralidade dúbia e dúctil, educado e culto – características que imprimia ao Paladino –, mantinha incólume a discreta face boa. Apesar da cara de mau.
Ele quebrou a imagem que criara para si noutra telessérie, também exibida entre nós, Medic (idem, 1954-1956), ao moldar agora um obstinado aventureiro, o Paladino (Paladin), antonomásia que lhe dava a conotação de defensor de nobres causas, jamais plebéias. Examinemos. Educado em West Point, um polido ex-oficial do Exército que combatera na Guerra Civil, vivia estranha dupla personalidade, de ricaço, hóspede do Hotel Carlton de São Francisco, Califórnia, nos anos de 1870, e... de pistoleiro de aluguel no interior do país voltado para o Oeste. Não um mero (mero?) matador profissional; mas, sim, um guarda-costas, um dador de proteção, oponente à prática de injustiças e possuidor de um modo peculiar de investigar os fatos. Os dois símbolos distintos do Paladino, lembrar-se-lhes-ão aqueles memorizadores elásticos, eram o coldre de couro negro com a marca do cavalo branco, peça do jogo de xadrez, e o cartão de apresentação, com a inscrição : “Have gun, Will travel. Wire Paladin, San Francisco” (“Tenho arma, Posso viajar. Contate Paladino em San Francisco”).
Figura de inflexível moral, o Paladino apreciava a culinária sofisticada e trajava-se com o máximo garbo; porém, a trabalho, vestia-se em negro. Detetive em pleno Oeste – aliás, a fórmula do êxito da telessérie –, o gentleman e aventureiro personagem pode facilmente ser comparado ao mítico cavaleiro medieval errante, em busca da justiça às situações conflitantes. Como dizia a letra da “Balada”, “um cavaleiro sem armadura numa terra selvagem”.
Elastece mais a memória, leitor, e com a devida ajuda, traz os assessores do herói noir para o azulado deste espaço: Hey Boy, seu criado, vivido por Kam Tong; e Hey Girl, sua criada, fornecida por Lisa Lu. E não se esqueça do Sr. McGunnis, o gerente do hotel, interpretado pelo ator Olan Soulé, nem do balconista do bar, encarnado por Hal Needham.
Muitas personalidades bem conhecidas transitaram pelas sendas d’O Paladino, umas mais, outras menos. O elenco de atores convidados e com participações especiais é monumental, mas selecionemos alguns nomes, dentre coadjuvantes da Telinha e da Telona, dos ramos “A” e “B”, veteranos, ou, à época, novatos, mocinhos e vilões... Verifique a formação desta resumida e mesclada plêiade, em regra com prévia aprovação de Richard Boone: Harry Carey Jr., Roy Barcroft, George Kennedy, Jacqueline Scott, Robert Wilke, Ken Curtis, Ed Nelson, Strother Martin, Don Beddoe, Jeanette Nolan, Lane Chandler, Bob Hopkins, Bud Osborne, Warren Stevens, Abel Fernandez, Harold J. Stone, Grant Withers, Patricia Medina, Kent Smith, Mike Mazurki, Whit Bissell, Ben Johnson, Raymond Hatton, Patrick Knowles, Trevor Bardette, Francis McDonald, Harry Morgan, Martin Balsam, Bruce Gordon, Susan Cabot, James Mitchum, Rafael Campos, John Doucette, Eduardo Ciannelli, Jack Elam, Rick Vallin, Faith Domergue, Warren Oates, June Lockhart, o já referido William Conrad, Peggy Stewart, o onipresente Lon Chaney Jr., os futuros astros Charles Bronson, Lee Van Cleef, James Coburn, Dyan Cannon, Pernell Roberts, Jack Lord, Robert Blake e Buddy Ebsen [estes quatro, das posteriores TV-séries Bonanza (idem), Havai 5-0 (Hawaii Five-0), Baretta (idem) e Barnaby Jones (idem), respectivamente], e até Sydney Pollack, depois aclamado diretor de Cinema. Não bastasse, se viajarmos na tal elástica memória, com determinação firme, além do auxíilio certo, até localizaremos em definido episódio de 1958 d’O Paladino a presença do feroz convidado especial da produção, muitíssimo querido pelos amantes decanos do Faroeste, grande brigador em fitas “B” dos anos 1920 até a década de 1940: o pequeno notável e sempre nobre Bob Steele.
De envergadura pouco menor do que a telessérie, as correspondentes histórias em quadrinhos do Paladino, publicadas em quatorze revistas geradas pela Dell Publishing entre 1958 e 1962, abriram-se aqui e ali nos gibis da EBAL, como o Cinemin n° 10 da 2ª série (novembro de 1960); números de Superxis dos anos 1960; Aí, Mocinho! 7ª série (20 números, de março de 1973 a outubro de 1974, com vinte páginas cada um, incluindo as capas, em vez das costumeiras 36). De viço a registrar, as agaquês foram executadas em elegante padrão pelo italiano Alberto Giolitti, traço bem cotado que também nos deu a mais uma vez referida Gunsmoke, entre outras páginas em quadrinhos da Dell. As virtudes de sobriedade, firmeza e perspicácia do herói pistoleiro também mantiveram no papel uma bem razoável fidelidade às que mostrava a série televisiva. Ressalte-se ainda a equilibrada adaptação pela editora carioca das capas originais, com expressivas fotos coloridas do Paladino.
Have GunWill Travel também foi radiofonizada pela CBS, caso raro em que a TV origina versão para o Rádio. Entre 1958 e 1960 e em 106 shows auditivos, muitos deles adaptados dos televisivos, John Dehner deu voz ao detetive-pistoleiro-justiceiro. Naqueles tempos idos, diversas histórias essencialmente visuais ganhavam as ondas acústicas, a exemplos de The Lone Ranger (O Zorro), Tarzan, O Sombra (The Shadow), em função da imensa popularidade da qual o veículo de Marconi desfrutava.
Curiosa nota é a citação por aqui dos Três Patetas (Three Stooges), no seu primeiro longa-metragem – regido por David Lowell Rich –, realizado depois de redescobertos os curtas (feitos para cinema) na tevê, Foguete Errante (nos cines) ou O Foguete Errante (na tevê) [Have Rocket, Will Travel – Columbia, 1959], com Moe Howard, Larry Fine e Joe DeRita, compondo a derradeira formação do trio, e a presença do veterano Jerome Cowan no cast. Mas o que esta aventura, em que a trinca pacóvia vai a Vênus de foguete, tem a ver com O Paladino do Oeste? Muito simples, constate que o título original da comédia satiriza o da telessérie paladina, à época no ápice do sucesso nos EUA...
Desde 1947, Richard Boone participava de variadas séries de Teleteatro, com histórias avulsas, as chamadas antologias. Com o cancelamento d’O Paladino, ganhou o seu programa antológico na tevê, o inédito no Brasil The Richard Boone Show, constituído de 25 segmentos, corridos entre 1963 e 1964 e nos quais ele fazia às vezes de apresentador e, com freqüência, de protagonista. Conquistou os maiores aplausos da crítica.
A tarimba veio de seu trabalho no Teatro, onde perfez onze peças. Já no palco em 1947, entrou para a escola de Arte Dramática da Neighborhood Playhouse de Nova York e, em seguida, cursou o renomado Actor’s Studio, no qual continuou por muitos anos, mesmo durante as temporadas da telessérie que o celebrizou no mundo. Provavelmente a sua mais reverenciada performance ao vivo foi a de Abraham Lincoln, o legendário presidente americano, na peça The Rivalry (A Rivalidade), apresentada no Bijou Theatre, da Broadway.
Hec Ramsey (idem) foi outra TV-série estrelada por ele, na ocasião um agente da lei, madurão e escrachado, numa cidadezinha fictícia do Oklahoma na nascente do século XX. Olvidando seu passado de pistoleiro, Hector “Hec” Ramsey converteu-se em diligente investigador: procurava resolver os casos por meio de métodos eminentemente científicos. Datado dos anos 1972-1974, num total de dez filmes, formou Hec Ramsey um dos programas rotativos de Os Detetives (NBC Sunday Mystery Movie), o mesmo grupo a que pertenciam Columbo, McMillan, McCloud etc. Passou nos canais brasileiros com tênue percebimento, apesar da hora e meia (duas com os comerciais) de duração de cada episódio. Desta curta série podemos destacar Na Trilha da Vingança (A Hard Road to Vengeance), brilhante episódio de 1973, dirigido por Alex March.
No âmbito cinematográfico Boone se iniciara em 1950, em Até o Último Homem (Halls of Montezuma – 20th Century-Fox), direção de seu descobridor, Lewis Milestone, o mesmo do primeiro episódio d’O Paladino do Oeste, conforme supra indicado. Richard inteirou o elenco de 65 fitas, em participações enérgicas e de monta, como coadjuvante fundamental, com relevo para as seguintes obras: pioneiro no uso do Cinemascope, O Manto Sagrado (The Robe – 20th Century-Fox, 1953), direção de Henry Koster; Homem Sem Rumo (Man Without a Star – Universal, 1955), direção de King Vidor; O Resgate do Bandoleiro (The Tall T – Columbia, 1957), dirigido por Budd Boetticher e com Randolph Scott e a permanentemente linda Maureen O’Sullivan; O Álamo (The Alamo – United Artists, 1960), dirigido e estrelado por John Wayne; Hombre (idem – 20th Century-Fox, 1967), direção de Martin Ritt; A Noite do Dia Seguinte (The Night of the Following Day – Universal, 1968), direção de Hubert Cornfield e Richard Boone (não creditado); Movidos pelo Ódio (The Arrangement – Warner Bros., 1969), direção de Elia Kazan; Jake, O Grandão (nos cines) ou O Grande Jake (em videocassete) ou Jake Grandão (em DVD) [Big Jake – National General/Batjac, 1971], dirigido por George Sherman; magistral testamento de celulóide de John Wayne, O Último Pistoleiro (The Shootist – Paramount, 1976), direção de Don Siegel; A Arte de Matar ou A Morte Inevitável (The Big Sleep – United Artists, 1978), produção inglesa baseada em romance noir de Raymond Chandler, dirigida por Michael Winner e com Robert Mitchum no papel que foi de Humphrey Bogart na primeira versão, À Beira do Abismo (The Big Sleep, 1946), que teve direção de Howard Hawks. Mas Boone também estrelou: Rio Conchos (idem – 20th Century-Fox, 1964), dirigido por Gordon Douglas; e Carta ao Kremlin (The Kremlin Letter – 20th Century-Fox, 1970), dirigido por John Huston.
Richard, da Los Angeles de 18 de junho de 1917, descendia a longa distância de Daniel Boone. Fez-se pugilista, campeão dos pesos-pesados na Universidade, de onde foi expulso por comportamento inadequado, excessivas aprontações. Tomou juízo, tornou-se operário de um campo de petróleo, marinheiro e grande conhecedor de artilharia em geral, vivência que, pela familiaridade com as armas, deixava entrever na TV-série objeto maior deste estudo. Não se esbaldou tanto nas Artes Plásticas como seu colega de atuação Anthony Quinn, mas também pintava as suas expressivas telas.
O carismático Boone deu dignidade à criatura Paladino, auferindo ambos fama internacional e propiciando grande audiência, nos Estados Unidos a O Paladino do Oeste [terceira colocação, entre 1958 e 1961, só perdendo para Gunsmoke e Wagon Train (Caravana, 1957-1965)], na Europa e no Brasil. Diria a crítica francesa que, tantas as atividades tentaculares de Boone n’O Paladino, como vimos retro, e tamanhas a distinção de sua alma, a capacidade de emprestar os componentes de sua personalidade ao papel e a força de seu talento interpretativo, que foi ele o verdadeiro autor da série. Mais do que isso, as personalidades do ator e do fictício pistoleiro muito se confundiam e, com o fluir do tempo, que tudo embaça, a coincidência parece aumentar ainda mais.
Artista de vida reservada, familiar e decente, após a popularidade e ganhos anuais de 150 mil dólares, só fazia aparições pessoais em lugares onde pudesse prestar alguma contribuição, como, verbi gratia, em palestras para estudantes de Arte Dramática. E em hospitais de deficientes mentais, crianças ou adultos, para lhes levantar o moral. Humilde, nobre e idealista, Richard Boone sonhava em se tornar, algum dia, herói de si mesmo. Em 1981, mais nitidamente em 10 de janeiro, pleiteou, então, não obstante a cara de mau, merecida Eternidade na Suma-Suprema Instância, o Excelso Pretório do Oniparente.

 

Agradecemos aos amigos Aníbal Barros Cassal, Bartolomeu Martins, Carlos da Cunha, Herbert Dickens (EUA) e Marco Aurélio Lucchetti pelas colaborações prestadas.

 

Com a devida adaptação, este texto faz parte de nosso extenso trabalho A Era de Ouro no Brasil das TV-Séries Filmadas e Suas Ligações, ainda inédito em livro, mas publicado parcialmente, em oito blocos, em edições independentes do sobredito Aníbal Barros Cassal.