Ano 3 - nº 9 - fevereiro/maio de 2011

PAIXÃO DE FORTES E O DUELO DO O.K. CORRAL
Jean-Louis Rieupeyrout
tradução e versão: Marco Aurélio Lucchetti



Desde No Tempo das Diligências (Stagecoach, 1939), John Ford, solicitado pelo Documentário e o filme de Guerra, nada havia dado ao Western. Portanto, Paixão de Fortes (My Darling Clementine, 1946), um dos melhores westerns já realizados, foi esperado com certa impaciência.
Houve muito descaramento em traduzir um título tão bonito como My Darling Clementine (tirado de uma velha canção do folclore do Oeste) por Paixão de Fortes, que, na verdade, não quer dizer nada. (...) Possivelmente o leitor se lembre de já ter lido a respeito de Wyatt Earp algumas linhas destinadas a informar sobre a personalidade do herói do filme de John Ford, que contou um episódio autêntico da vida do “mais eficiente xerife da fronteira” (episódio esse acontecido durante a passagem de Earp por Tombstone, no Arizona).
Situada no deserto e próxima da fronteira com o México, Tombstone, onde se descobriu prata, desenvolveu-se com enorme rapidez. De acordo com Stuart N. Lake, no livro Wyatt Earp Frontier Marshal, “a história do desenvolvimento de Tombstone ocorreu na mesma época em que Wyatt Earp se tornou xerife”. A luta que Earp iniciou contra o banditismo – banditismo esse tolerado por um governador que praticava um duplo jogo político, a fim de servir as suas ambições pessoais – levou-o a um ajuste de contas com o bando do Velho Clanton, famoso fora-da-lei, que, junto com seus três filhos, chefiava mais de trezentos bandidos. Clanton atuava em todo o Arizona, quando Earp empreendeu contra sua funesta hegemonia uma ação coroada de êxito e que teve seu clímax no célebre tiroteio do O.K. Corral (segundo Stuart N. Lake, “a sanguinária batalha do O.K. Corral é talvez o tiroteio mais célebre da História do Oeste”), ocorrido em 26 de outubro de 1881.
Depois de um tiroteio de extrema selvageria entre os Irmãos Earp – secundados por Doc Holliday – e o bando Clanton (Billy e Ike Clanton e mais Frank e Tom McLowery), a força ficou ao lado da Lei.
(...)
Entre os membros do clã Earp, a figura de Doc Holliday, que já havíamos visto em O Proscrito (The Outlaw, 1943), continua sendo uma das mais representativas da corrupção que a atmosfera excitante do Oeste era capaz de exercer até nos homens mais sensatos. John H. Holliday, que era dentista, abriu em Dallas, no Texas, um consultório dentário, uma vez que a região lhe tinha sido recomendada, em razão de seu estado de saúde (ele era tuberculoso). Foi atraído para o jogo; e, como a profissão de jogador apresentava alguns riscos, pareceu-lhe indispensável conhecer o manejo de um revólver. Por meio de um treino metódico, atingiu uma destreza evidente, reforçada por uma coragem a toda prova, o que lhe permitiu não temer pessoa alguma. Matou seu primeiro homem em Dallas; e esse foi o ponto inicial de uma rica carreira de matador, repleta de cadáveres, desde o Texas até o Colorado e do Wyoming ao Arizona. O encontro com Kate Fisher, conhecida como “Kate Nariguda” (em Paixão de Fortes, ela é Chihuahua, interpretada por Linda Darnell), uma dançarina de saloon, não arrefeceu um ardor tão destrutivo, conforme fica evidente pelas seguintes palavras de Wyatt Earp: “Doc Holliday era um dentista que a necessidade havia tornado um jogador; um gentleman que a doença transformara em vagabundo da fronteira; um rapaz alto, magro, pálido, louro, quase morto pela tísica e, ao mesmo tempo, o jogador mais hábil e o homem mais rápido e perigoso com um ‘seis tiros’ que já conheci” (Wyatt Earp Frontier Marshal, 1931, p. 198). E os motivos que levaram Doc Holliday, um matador sem escrúpulos, a unir-se, naquela manhã de 1881, aos Earp e duelar contra o Velho Clanton e seu bando permanecem, hoje, tão inexplicáveis como foram na época. Porém, se o Oeste não revelou todos os seus aspectos, todos os seus segredos, encontrou em John Ford um amigo interessado na evocação precisa e fiel de sua existência. (...) Muito mais que um western, dos quais difere em tantos aspectos, este filme de John Ford evoca, já a partir do título, My Darling Clementine,  a colorida lenda do Oeste dos Velhos Tempos. Evoca o legendário Far-West. Tudo graças a uma sinceridade de John Ford e dos principais intérpretes do filme: Henry Fonda (Wyatt Earp), Victor Mature (Doc Holliday), Linda Damell (Chihuahua), Cathy Downs (Clementine) e Walter Brennan (Clanton). Como bem disse o crítico Jean-George Auriol, na admirável “Carta a John Ford a Propósito de My Darling Clementine”, publicada na primavera de 1947, no número 6 de La Revue du Cinéma: “Depois do escritor Bret Harte, ninguém soube cantar  melhor que você a canção épica, rouca e sentimental do Oeste, onde a selvageria é temperada pela amizade entre companheiros díspares que a fatalidade harmoniza; onde o amor de alguns rapazes por uma  moça (luzindo de pureza) relembra que, no meio da dureza de uma ambiente em que as vidas das pessoas podem ser tiradas a qualquer momento por uma bala, existe um lado delicado do mundo pelo qual vale a pena ser pacífico e bom.”

 

Este texto foi traduzido do livro El “Western” o el Cine Americano por Excelencia (Le Western ou le Cinéma Américain par Excellence, tradução de E. Eichelbaum, Buenos Aires, Losange, 1957, pp. 92-95), de Jean-Louis Rieupeyrout