Ano 3 - nº 9 - fevereiro/maio de 2011

O WESTERN É UM GÊNERO CINEMATOGRÁFICO MAIOR
Manuel Moutinho Múrias



O Western é um gênero cinematográfico maior. Por isso mesmo resiste ao tempo e à moda (...). É, como muito bem o observou Jean-Louis Rieupeyrout numa valiosa monografia, “o cinema americano por excelência” e, assim, cinema universal que se compadece com todos os sentimentos, todas as linguagens, com os mais caros desejos de todos os homens.
(...)
Surge naturalmente. O extermínio dos índios, a arrancada para o Oeste, o lançamento das grandes estradas de ferro transcontinentais, a Guerra de Secessão... estavam, ainda, fresquíssimos na memória das pessoas. A própria instalação da indústria cinematográfica nos areais dourados da Califórnia é, no fundo, o episódio final dessa luta titânica dos primeiros norte-americanos contra a fúria dos homens e dos elementos. O Cinema foi uma ramificação do Western no quadro da História dos Estados Unidos. Hollywood é Western – naturalmente que o Western tinha de vir a ser o mais substancial dos alimentos hollywoodianos –, até porque, nos primeiros tempos, a produção de filmes na Califórnia, sem estúdios, sem material (...), foi uma autêntica epopéia, episódio tão glorioso, como outros episódios da gloriosa marcha para o Oeste.
A forma característica do filme de cowboy gera-se, assim, espontaneamente. As dificuldades impuseram-na. O ar livre, o movimento desordenado das longas cavalgadas pela planície, a ginástica entontecedora dos assaltos aos trens, às caravanas, aos bancos e às casas dos colonos, a truculência quase bestial dos combates (...) à pistola ou a murro – tudo o que, enfim, constitui o clima, violento até o paroxismo, das fitas de cowboys – foram impostos pelas circunstâncias naturais e sociais daquela época de pioneirismo e possibilitaram os primeiros ensaios de montagem feita com alguma consciência estética, os primeiros grandes movimentos de câmera (travellings e panorâmicas) e, até, as primeiras experiências da encenação cinematográfica já a afastar-se dos conceitos teatrais vigentes na maior parte da produção mundial e na produção francesa de Georges Méliès e Ferdinand Zecca. Com o Western, o Cinema, destreatalizando-se, aproxima-se da técnica narrativa do romance, ultrapassando o teatro nas possibilidades de introspecção e, portanto, alargando os horizontes caracteriológicos da figuração dramática.
Não é só a forma, todavia, o que qualifica o Western como um gênero cinematográfico maior; é também o conteúdo. O Western tem, como a Epopéia, como a Tragédia, as suas próprias pessoas, pessoas que são símbolos e que, com o passar do tempo, se transformaram em mitos. Da marcha para o Oeste, da Guerra de Secessão, do morticínio dos índios... aproveitou as lendas; das lendas arrancou as personagens mais significativas, mitificando-as. Buffalo Bill, Billy the Kid, Wyatt Earp, Custer, Gerônimo – toda a vasta galeria dos heróis do Western – cantam a mesma saga. Estão para a América, que entra agora no final da sua Idade Média, como os cavaleiros da Távola Redonda e a demanda do Santo Graal estiveram para a Idade Média européia.

 

Este texto foi transcrito do livro História Breve do Cinema (Verbo, Lisboa, 1962, pp. 93-95), de Manuel Moutinho Múrias