Ano 3 - nº 9 - fevereiro/maio de 2011

O WESTERN
Antonio Costa



Entre os gêneros clássicos do cinema americano, Noir e Western são seguramente os mais típicos e, não obstante a notável diversidade de ambientação (o espaço urbano e a “pradaria”), acham-se intimamente ligados por uma relação de complementaridade. Em ambos os gêneros o tema central é o conflito entre a lei e o arbítrio, a inocência e a corrupção, entre as regras da convivência civil (civilização) e o universo dos sem lei ou fora-da-lei, um mundo selvagem e primitivo (selvageria). A grande vitalidade e riqueza dos dois gêneros está em mostrar a incerteza das fronteiras entre o mundo da civilização e o da selvageria (...).
Do ponto de vista narrativo, o Western põe em confronto o colono branco e o índio, a comunidade ordenada com suas regras de vida e o “fora-da-lei”, o “pistoleiro” que vem perturbar a ordem; o vingador ou um grupo de vingadores e as vítimas designadas por uma justiça sumária, que muitas vezes acaba no puro e simples espírito de vingança sem outra lei senão o fuzil ou o cabresto.
Esse grande tema do precário equilíbrio entre uma lei a ser instituída, imposta ou conservada e a violência interna ou externa ao grupo e à comunidade, encontra sua expressão no universo figurativo do Western. O espaço do Western  é o espaço da “fronteira”, um dos “mitos fundadores da nação americana”, retomando o título de um famoso estudo de E. Marientras (Les Mythes Fondateurs de La Nation Américaine, Paris, Maspero, 1976).
A fronteira é a perene mobilidade dos confins, a quimera da conquista de um novo território e da aventura. O espaço do Oeste é um espaço perenemente descentralizado. O próprio herói do Oeste entra em ação vindo não se sabe de onde e abandonando a cena no final: trata-se literalmente de uma passagem. Se a ordem e a lei são restabelecidas, (...) não há lugar para o herói, que no fim sempre vai embora. Freqüentemente, ele deixa uma mulher que o ama – à mulher, símbolo de estabilidade, se contrapõe o cavalo, promessa de aventura e solidão para o herói: no final de Paixão de Fortes (My Darling Clementine, 1946), de John Ford, Clementine (Cathy Downs) permanece na cidade do interior como professora, enquanto Wyatt Earp (Henry Fonda) retoma sua viagem em direção a novas aventuras.
O espaço do Western está estruturado e medido na base do movimento, da transição, das mutações. A planície atravessada pelas caravanas dos colonos; os vaus para o gado; as passagens dos canyons com os perigos das emboscadas; a main street sobre a qual converge a vida da cidade ou do povoado, mas sempre considerada lugar de passagem e de transição (é na rua principal que acontecem, por exemplo, as correrias dos fora-da-lei entre o banco e o saloon, os acertos de conta; é na rua principal que convivem a necessidade de estabilidade e a mobilidade). Mas o espaço que resume e melhor simboliza a mobilidade do Oeste é o da ghost town, a “cidade fantasma” abandonada por seus habitantes, que foram buscar em outro lugar a promessa de conforto e estabilidade. E, entre as mais sugestivas ghost towns do Western, podemos citar as de Céu Amarelo (Yellow Sky, 1948) de William A. Wellman, O Homem do Oeste (Man of the West, 1958), de Anthony Mann) e Duelo na Cidade Fantasma (The Law and Jake Wade, 1958), de John Sturges.

 

Este texto foi transcrito do livro Compreender o Cinema (Saper Vedere il Cinema, 2ª edição, tradução de Nilson Moulin Louzada, São Paulo, Globo, 1989, pp. 100-102), de Antonio Costa