Ano 3 - nº 9 - fevereiro/maio de 2011

OS WESTERNS SÃO A ILÍADA, O ROMANCEIRO
García Escudero



Os filmes de cowboys salvaram vezes sem conta a essência do Cinema, lembrando que o Cinema é ar livre e imagens em movimento. Outros gêneros apareceram depois e esgotaram-se antes. O Western parece capaz de agüentar tudo, até ganhando. Os talkies acrescentaram-lhe o estampido seco das pistolas e o ressoar dos cascos dos cavalos sobre as rochas; a cor deu-lhe o verde das pradarias, o céu azul e as nuvens de pó vermelho do deserto; e até a tela grande está adequada a ele, com as suas enormes extensões horizontais. O gênero assimila o que lhe dêem... porque é o Cinema propriamente dito. Por isso, quando um John Ford ou um Fred Zinnemann descobrem o Oeste, nascem algumas obras-primas como No Tempo das Diligências (Stagecoach, 1939) ou Matar ou Morrer (High Noon, 1952) (...).
Mas os filmes do Oeste são, ainda, A Ilíada, o Romanceiro, as canções de gesta e até os episódios nacionais de um povo sem A Ilíada, sem Romanceiro, sem canções de gesta e quase sem episódios nacionais. (...) Atrás de William S. Hart aparecem todos os outros heróis do Western. Desde Tom Mix e Hoot Gibson até Gary Cooper. Estão todos ali: Aquiles com seu chapéu texano; Heitor com a sua Winchester; Andrômaca transformada numa ruivinha decidida; inúmeras Helenas de saloon; e xerifes, bandoleiros, ladrões, ganadeiros, homens bons e homens maus, invasores e invadidos, todos com o seu Colt 45 e o laço na sela do respectivo cavalo. Pode ser que grande parte disso tenha sido inventado por Hollywood; e mais do que História seja imaginação. Mas imaginação que uniu um povo, que, nos seus filmes do Oeste, aprende o que não foi, mas teria gostado de ser.

 

Este texto foi transcrito do livro Vamos Falar de Cinema (Vamos a Hablar de Cine, tradução de Luís Freitas da Costa, Lisboa, Verbo, 1971, pp. 88-89), de García Escudero