Ano 3 - nº 9 - fevereiro/maio de 2011

OS WESTERNS DE JANE RUSSELL
Divino Rodrigues da Silva & Kristian Erik Unonius



Um cartaz de filme propiciou a Jane Russell tornar-se uma lenda (em 2009, ela foi considerada pela revista britânica Glamour como uma das quarenta mulheres mais formosas e representativas do Cinema). O cartaz em questão foi criado pelo célebre arquimilionário Howard Hughes (1905-1976), para promover o lançamento de O Proscrito, um western sem qualquer pretensão, senão a de sacudir as ligas puritanas dos Estados Unidos. De fato, o nome de Jane Russell está intimamente ligado a este filme que fez o mundo inteiro descobrir seu belo rosto e seu magnífico corpo, assim como seu “pigmalião” (cada passo de Jane Russell era cuidadosamente planejado por Howard Hughes, que chegou até a desenhar o sutiã que ela deveria usar em O Proscrito).
O Proscrito apresentou Jane Russell como uma mulher de beleza agressiva e temperamento vulcânico. O oposto do que na realidade ela é. Jane Russell não é e nunca foi uma destas estrelas agitadas, que fazem a felicidade dos jornais especializados em escândalos. A discrição e a simplicidade são e sempre foram suas principais qualidades na vida privada (sua vida é inteiramente dedicada à família e ao lar). Em suma, entre a atriz e o público criou-se um enorme mal-entendido, provocado por seu papel em O Proscrito.
Qualquer fã de filmes antigos sabe que a primeira fita de Jane Russell foi O Proscrito, um dos mais controvertidos filmes de todos os tempos, devido às peripécias que cercaram sua realização, seu lançamento e sua própria qualidade.
O Proscrito foi filmado e finalizado em 1941. Entretanto, seu lançamento oficial foi adiado durante todo o tempo em que seu excêntrico produtor-diretor Howard Hughes mantinha dura e longa batalha com os implacáveis censores norte-americanos, que se recusavam a permitir o lançamento do filme, em virtude do exagerado tamanho (38-D polegadas) dos seios de Jane Russell e de suas cenas consideradas eróticas demais.
O Proscrito enfoca a estranha relação de Billy the Kid (Jack Buetel) com Doc Holliday (Walter Huston). Antes de a história começar. Billy havia roubado o cavalo de Holliday; e o filme inteiro nada mais é do que um duelo dos dois homens pela posse do cavalo. E, embora os dois tenham o afeto da glamourosa Rio (Jane Russell), eles a consideram muito menos importante que o cavalo. Esse fato não agradou as ligas femininas e feministas dos Estados Unidos, que achavam uma afronta uma mulher ser desprezada dessa forma. Por outro lado, as ligas da decência desaconselhavam que fosse exibido e visto um western tão imoral. Além do mais, o cartaz da fita – exibindo uma Jane Russell de busto agressivo e um olhar convidativo – não tranqüilizava nem um pouco os espíritos; muito pelo contrário.

“Jane Russell (informação para o arquivo do fã: o verdadeiro nome de Jane Russell é Jane Russell mesmo) irrompeu no caminho da fama cinematográfica porque seu busto foi, sem contestação, o personagem mais discutido de seu filme de estréia, O Proscrito. Pelas irreverências da personagem Rio, quase que a fita tomava o destino do título. Quando as cópias de O Proscrito foram enviadas à Censura, eclodiu a campanha contra o filme. ‘A jovem aparece em atitudes perversamente imorais’, alegavam os censores. E, durante dois anos, a fita ficou nas prateleiras da RKO, esperando que se chegasse a uma conclusão na disputa entre o produtor Howard Hughes e a Censura norte-americana. Ganhou o primeiro, libertando-se a personagem Rio, que correu as telas de todo o mundo para proveito e glória de sua intérprete.”
Pedro Lima, na edição de 29 de setembro de 1956 da revista O Cruzeiro

“Numa época em que o herói se poria de quatro para satisfazer sua dama, O Proscrito realizou uma completa reviravolta: a mulher (...) era desprezada (...) pelo homem. Este, por sua vez, concentrava todo o seu interesse num cavalo. O debate proposto ao espectador (...) poderia ser formulado da seguinte maneira: ‘Vale mais a pena perder sua mulher ou seu cavalo?’
(...) no entanto, não se pode modificar a História: no plano de valores, no tempo dos pioneiros, não havia nenhuma comparação possível entre a mulher e o cavalo. Num universo no qual a força, a habilidade e a rapidez de decisão garantiam sozinhas a existência do homem, era bem difícil à mulher de desviar, para seu uso exclusivo, o sentimento tão natural que unia o cavaleiro à sua montaria. Era muito melhor afundar-se na imensidão dos prados com um bom cavalo do que com uma bonita mulher, objeto embaraçante e de uma utilidade (...) relativa.”
Jean-Louis Rieupeyrout

O Proscrito (The Outlaw, 1943, 116')
Direção e Produção: Howard Hughes
Co-Direção: Howard Hawks
Roteiro: Jules Furthman
Fotografia: Gregg Toland
Música: Victor Young
Elenco: Jane Russell, Jack Buetel, Thomas Mitchell, Walter Huston, Mimi Aguglia

O segundo western de Jane Russell é um faroeste cômico distribuído pela Paramount: O Valente Treme-Treme, um dos maiores sucessos da carreira do humorista Bob Hope. O filme conta a história de Peter Potter (Bob Hope), um dentista que, apesar de ter “alergia a revólveres”, se casa com uma exímia atiradora, Calamity Jane (Jane Russell), e ajuda-a a capturar alguns fora-da-lei (Calamity Jane é, na verdade, uma agente do governo) que estão vendendo armas aos índios.

“O Valente Treme-Treme retoma, com poucas variantes, o mesmo tema de Tudo por uma Mulher (Along Came Jones, 1945), um western dirigido por Stuart Heisler e estrelado por Gary Cooper e Loretta Young. Isto é, o tema do ‘pé tenro’ que entra em contato brutal com o Oeste e sua fauna (...).”
Jean-Louis Rieupeyrout


O Valente Treme-Treme (The Paleface, 1948, 91')
Direção: Norman Z. McLeod
Roteiro: Edmund Hartmann & Frank Tashlin
Diálogos adicionais: Jack Rose
Elenco: Bob Hope, Jane Russell, Robert Armstrong, Iris Adrian, Robert Watson, Jack Searl, Joseph Vitale, Clem Bevans

Bela e Bandida, o terceiro faroeste de Jane Russell, foi produzido em 1948; entretanto, demorou quatro anos para ser lançado, graças aos caprichos de Howard Hughes. O filme narra a seguinte história: quando está prestes a ser linchada, Belle Starr (Jane Russell), a rainha dos bandidos, é salva pelos Irmãos Daltons. A seguir, envolve-se sentimentalmente com Bob Dalton (Scott Brady); mas os dois brigam após se traírem mutuamente. Então, Belle apaixona-se por um jogador profissional, Tom Bradfield (George Brent), que a manda para a prisão e promete esperar por ela até o fim de sua pena.

“Uma mulher fora da lei... Mais temível que os mais temíveis bandidos... Porque suas armas eram a beleza e o revólver!”
Anúncio do filme Bela e Bandida


Bela e Bandida (Montana Belle, 1952, 82')
Direção: Allan Dwan
Roteiro: Horace McCoy & Norman S. Hall, baseando-se numa história de M. Coates Webster e Howard Welsch
Elenco: Jane Russell, George Brent, Scott Brady, Forrest Tucker, Andy Devine, Jack Lambert, John Litel, Ray Teal, Roy Barcroft, Dick Elliott

Em 1952, Jane Russell voltou a reunir-se com Bob Hope, em outro faroeste cômico: O Filho do Treme-Treme, que fez tanto sucesso quanto O Valente Treme-Treme, com a vantagem de ter em seu elenco um dos grandes nomes dos westerns “B” dos anos 1940, o cowboy-cantor Roy Rogers, e seu cavalo Trigger.
Com muitas perseguições a cavalo, tiroteios e palhaçadas, a fita apresenta Bob Hope interpretando Peter Potter Jr., o filho de Peter Potter e Calamity Jane. Peter, um homem da cidade grande, chega ao Oeste, a fim de receber a fortuna deixada por seu pai. Ele obtém a ajuda de Roy Barton (Roy Rogers), um agente do governo, para descobrir a pista de uma bandoleira (papel de Jane Russell), dona de um saloon.

O Filho do Treme-Treme é um dos melhores filmes de Bob Hope. Tem a mesma qualidade de O Valente Treme-Treme, mas a presença de Roy Rogers dá a ele um tom ainda mais satírico. (...) a cena em que Bob Hope e Trigger dividem a mesma cama é antológica.”
Leonard Maltin


O Filho do Treme-Treme (Son of Paleface, 1952, 95')
Direção: Frank Tashlin
Roteiro: Frank Tashlin, Robert L. Welch & Joseph Quillan
Elenco: Bob Hope, Jane Russell, Roy Rogers, Trigger, Bill Williams, Douglass Dumbrille, Harry Von Zell

Jane Russell voltou a fazer um western sério em 1955, na 20th Century-Fox: Nas Garras da Ambição, no qual contracenou com Clark Gable. No filme, ela interpretou Nella Turner, uma bela jovem que é salva de um ataque dos índios por Ben Allison, um dos vaqueiros que conduzem uma boiada do Texas para Montana. As afeições de Nella se dividem entre Ben e Nathan Stark (Robert Ryan), o inescrupuloso dono do gado; mas, no final, ela acaba ficando com o vaqueiro.

“As cenas de amor entre Jane Russell e Clark Gable – em Nas Garras da Ambição – têm causado inúmeros protestos. Tudo em razão da terrenidade de miss Russell e A virilidade do personagem de Gable.”
Variety


Nas Garras da Ambição (The Tall Men, 1955, 122')
Direção: Raoul Walsh
Roteiro: Sydney Boehm & Frank Nugent, baseando-se no romance Caravana Suicida (The Tall Men), de Clay Fisher
Música: Victor Young
Elenco: Clark Gable, Jane Russell, Robert Ryan, Cameron Mitchell, Juan Garcia, Harry Shannon, Emile Meyer, Mae Marsh

Em 1966, de volta à Paramount, Jane Russell aparecia, ao lado de Dana Andrews, no western Duelos no Oeste.
Dirigido por Robert G. (R. G.) Springsteen, que fez carreira realizando pequenos westerns na Republic, Duelos no Oeste mostra o xerife Johnny Reno (Dana Andrews) retornando à cidade de Stone Junction, para ver uma antiga namorada, Nona Williams (Jane Russell). No caminho, Reno encontra dois homens que se julgam perseguidos por ele. Um dos homens, Ab Conners (Dale Van Sickel), é morto; e o outro Joe Conners (Tom Drake), explica a Reno que está sendo procurado pelas autoridades e pelo povo de Stone Junction, sob a acusação de haver matado o filho de um chefe índio, o que não é verdade. Quando chegam à cidade, governada pelo prefeito Jess Yates (Lyle Bettger), que, inclusive, tem o xerife local em suas mãos, Reno se convence da inocência de Conners. Reno evita que Conners seja linchado e acaba descobrindo que o assassino é Yates (ele não aprovava o romance de sua filha com o índio). Ao cair da tarde, chegam guerreiros índios, para se vingar da morte do filho do chefe. Terminada a vingança dos índios, Reno parte com Nona, que se tornara dona do saloon da cidade. Mas, antes de partir, Reno fere mortalmente Yates.

“Na terra dos pistoleiros, só ficou o mais rápido!”
Anúncio do filme Duelos no Oeste


Duelos no Oeste (Johnny Reno, 1966, 83')
Direção: R. G. Springsteen
Roteiro: Steve Fisher, a partir de um argumento de Steve Fisher, Andrew Craddock e A. C. Lyles
Elenco: Dana Andrews, Jane Russell, Lon Chaney Jr., John Agar, Lyle Bettger, Tom Drake, Richard Arlen, Robert Lowery, Tracy Olsen, Dale Van Sickel

Dilema de um Bandido, o último faroeste de Jane Russell, conta a história de “Waco”, um pistoleiro que é contratado pelos habitantes de um povoado para acabar com um bando de desordeiros que estão aterrorizando a região. Enquanto realiza sua missão, “Waco” reencontra uma antiga namorada, Jill Stone (Jane Russell), agora casada com um pastor.

“Na Terra ou no Inferno... Não havia homem capaz de enfrentá-lo (...)!”
Anúncio do filme Dilema de um Bandido


Dilema de um Bandido (Waco, 1966, 85')
Direção: R. G. Springsteen
Roteiro: Steve Fisher, baseando-se no romance Emporia, de Harry Sanford e Max Lamb
Elenco: Howard Keel, Jane Russell, Brian Donlevy, Wendell Corey, Terry Moore, John Smith, John Agar, Gene Evans, Richard Arlen, Ben Cooper, DeForest Kelley, Robert Lowery