Ano 3 - nº 9 - fevereiro/maio de 2011

OS PRIMEIROS COWBOYS DAS TELAS CINEMATOGRÁFICAS



Cronologicamente o terceiro cowboy do cinema – e o primeiro em importância e popularidade –, Tom Mix começou trabalhando em curtas-metragens para a Selig Company, quase sem ser notado. Descoberto em 1910, em Oklahoma, onde uma equipe da Selig fora colher cenas reais do Far-West para um filmezinho que se intitularia Ranch Life in the Great Southwest, era, então, marshal, uma espécie de delegado federal. Apesar de nascido no Leste, tinha, aos trinta anos, grande espírito de aventura. Participou da guerra hispano-americana, lutou nas Filipinas, domou cavalos para o Exército inglês usar nas campanhas da África, foi campeão de rodeo, cantor, rancheiro e, sobretudo incorrigível mulherengo. Como diria mais tarde um texto de publicidade da Fox, Tom Mix era “uma perfeita mistura de Wyatt Earp e d’Artagnan”.
Ao contrário das fitas dos vaqueiros que lhe antecederam – Gilbert Anderson, o Broncho Billy; e William S. Hart –, cujas histórias eram óbvias e ingênuas, os filmes de Tom Mix não apresentavam personagens e lugares sempre iguais (“nunca mudamos as histórias, mudamos os cavalos”, afirmou certa vez Broncho Billy). Logo Tom Mix descobriu que os fãs do Western eram basicamente jovens, meninos que freqüentavam as matinês em busca de ação, suspense, heroísmo e humor. E (...) seus filmes eram uma mistura de tudo isso. Assim, em apenas dez minutos de ação, podia aparecer num saloon do Texas, num transatlântico a caminho da Europa, num ponto qualquer da Times Square dos anos 20 ou até mesmo no Saara, vivendo entre odaliscas uma aventura de As Mil e Uma Noites. Desde que estivesse devidamente trajado – sombrero, culotes, botas, esporas, laço à mão e revólveres (com cabo de madrepérola) na cintura.
Com isso, ele encantava também as platéias adultas, sepultando de vez o prestígio de Broncho Billy e William S. Hart. A série de filmes de Broncho Billy teve início em 1908, uma década antes da estréia de Tom Mix, sendo o nome tirado da história “Broncho Billy and the Baby”, da autoria de Peter B. Kyne, um especialista no gênero. Durante mais de sete anos, com impressionante regularidade, Gilbert Anderson fez um pequeno western por semana, a maioria usando paisagens verdadeiras do Oeste. Em 1913, sua popularidade era tanta que não podia sair à rua sem ser esmagado por multidões de admiradores. Inevitavelmente, outros produtores foram atraídos pelo gênero, inclusive o próprio pai da linguagem cinematográfica, David W. Griffith. Nesta época, inaugurando o que viria a ser a Paramount, Cecil B. DeMille decidiu produzir dois westerns, experimentalmente: Amor de Índio (The Squaw Man, 1914), com Dustin Farnum e Red Wing (a primeira pele-vermelha a aparecer nas telas cinematográficas); e O Paladino da Vitória (The Virginian, 1914), que inaugurou a tradição do duelo final na rua deserta.
Tudo isso – e mais o aparecimento de William S. Hart, em 1914 – foi levando Broncho Billy ao ostracismo. Afinal, ele se tornara popular sem jamais ter montado num cavalo, manejado um laço ou mesmo ter visto um revólver, até realizar o seu primeiro filme. Não era também um ator; e o Western, pouco a pouco, transformava-se na chave mágica para o sucesso da indústria, no gênero de maior aceitação popular, rompendo com as barreiras teatrais que entravavam a marcha da Sétima Arte. Chegara, portanto, a vez de William S. Hart, um homem de 44 anos com longa experiência teatral. Dele se afirmava que conhecera Bat Masterson e Wyatt Earp, testemunhara inúmeras lutas a bala, assaltos a diligências e conflitos com índios. Fato ou não, Hart deu mais autenticidade aos seus westerns; e o herói criado por ele, sempre rápido no revólver e derrotando o vilão no final da história, agradou o público. William S. Hart, porém, durou pouco e não chegou a influenciar os cowboys que vieram depois – Tom Mix, Fred Thomson, Hoot Gibson, Ken Maynard, Tim McCoy, Buck Jones e Hopalong Cassidy (William Boyd).
A influência de Tom Mix se fez sentir em cada um dos cowboys que o sucederam. A começar por Fred Thomson, um ex-seminarista que montava bem, usava roupas estilizadas (geralmente elas eram brancas e com franjas) e fazia grande sucesso com as mulheres. Um ataque cardíaco matou-o aos 39 anos, no auge de uma carreira que, pouco a pouco, ameaçava Tom Mix, Hoot Gibson (cowboy engraçado que se recusava a usar cinturões, preferindo esconder os revólveres nas botas) e Ken Maynard (um hábil malabarista no cavalo). Tim McCoy e Hopalong Cassidy conseguiram algum sucesso na era do cinema sonoro. E Buck Jones, adepto do realismo, acabou perdendo a vida num incêndio.

 

Este texto foi transcrito do artigo “Tom Mix, 100 anos do Maior dos ‘Cowboys’”, publicado no jornal O Estado de S. Paulo (São Paulo, 6 de janeiro de 1980, p. 34)