Ano 3 - nº 9 - fevereiro/maio de 2011

O QUE TENHO A DIZER
Chefe Seattle



I
Como podereis vós comprar ou vender o céu, o calor, a terra? Se nós possuíssemos a frescura da água e do ar, de que maneira Vossa Excelência poderia comprá-la? Cada pedaço desta terra é sagrado para meu povo. Cada espinho do pinheiro, cada rio murmurante, cada bruma dos bosques, cada clareira, cada zumbido de inseto é sagrado na lembrança e na vivência de meu povo. A seiva que corre nas árvores lembra meu povo.

II
Nós somos uma parte da terra, e ela faz parte de nós. As flores perfumadas são nossas irmãs; o cervo, o cavalo e a grande águia são nossos irmãos. As rochas escarpadas, o aroma das pradarias, o ímpeto dos nossos cavalos e o homem – são todos da mesma família. Assim, o Grande Chefe de Washington, mandando dizer que quer comprar nossa terra, está pedindo demais a nós, os índios.

III
Manda o Grande Chefe dizer que reservará lugares onde poderemos viver confortavelmente. Ele será nosso pai; e nós, seus filhos. Prometemos pensar na vossa idéia de comprar nossa terra. Mas não será fácil, pois esta terra para nós é sagrada. A água cintilante que corre nos riachos e arroios não é só água, mas também o sangue de nossos ancestrais. Os rios são nossos irmãos. Eles saciam nossa sede, levam nossas canoas e alimentam nossos filhos.

IV
Se nós vendermos nossa terra, vós deveis ensinar a vossos filhos que os rios são nossos irmãos e também vossos. E vós deveis dar aos rios a ternura que mostrais a um irmão. Sabemos que o homem branco não entende nossos costumes. Um pedaço de terra, para ele, é igual ao pedaço de terra vizinho, pois é um estranho que chega, às escuras, e se apossa da terra de que tem necessidade. A terra não é sua irmã, mas sua inimiga; e, uma vez conquistada, o homem branco vai mais longe. Seu apetite arrasará a terra e a transformará num deserto.

V
Nossos costumes são diferentes dos vossos. A imagem de vossas cidades faz mal aos olhos do homem vermelho. Mas isso talvez seja porque o homem vermelho é um selvagem e não entende. Não há mais lugar calmo nas cidades do homem branco, a barulheira parece estourar os ouvidos. O índio prefere o doce assovio do vento. Prefere também o aroma do vento, molhado pela chuva do dia ou perfumado pelo pinheiro. O ar é precioso ao homem vermelho, pois todas as coisas participam do mesmo sopro. O animal, a árvore, o homem, todos eles dividem o mesmo sopro. O homem branco parece não se lembrar do ar que respira. O vento, que deu a nosso avô o primeiro fôlego, recebeu, também seu último suspiro. Pensaremos, portanto, na vossa oferta de comprar nossas terras.

VI
Mas, se decidirmos aceitá-la, haverá uma imposição: o homem branco deverá tratar todos os animais selvagens como irmãos. Vi mais de dez mil bisontes apodrecendo nos campos, abandonados pelo homem branco, que os abateu por diversão. Que é o homem sem os animais? Se os animais desaparecerem, o homem morrerá dentro de uma grande solidão. Ensinai a vossos filhos aquilo que sempre ensinamos aos nossos: que a terra é nossa mãe. Dizei a eles que a respeitem, pois tudo o que acontecer à terra acontecerá aos filhos da terra. Se os homens cospem no chão, eles cospem sobre eles mesmos. A terra não é do homem, o homem pertence à terra. Não foi o homem que teceu a teia de sua vida, ele não passa de um fio dessa teia. Tudo o que fizer para essa teia estará fazendo a si mesmo.

VII
Há uma coisa que sabemos e que o homem branco descobrirá talvez um dia: nosso Deus é um só. O Deus do homem vermelho é o mesmo Deus do homem branco. E Sua piedade é igual para o homem vermelho e para o homem branco. Esta terra Lhe é preciosa e danificá-la é cumular de desprezo o Criador.

 

Este texto, datado de 1854, foi escrito por Seattle (c. 1780-1866), chefe das tribos Suquamish e Duwamish (do estado norte-americano de Washington), em resposta à proposta de compra das terras de seu povo pelo, então, presidente dos Estados Unidos, Franklim Pierce

 

Este texto foi transcrito do número 2 do fanzine Faroeste (Porto Alegre, Aníbal Barros Cassal Editor, julho de 1994, p. 5)