Ano 3 - nº 9 - fevereiro/maio de 2011

O PROSCRITO
Francisco Luiz de Almeida Salles



Com O Proscrito pretendeu Howard Hughes usar o quadro e os personagens do Western para criar um drama trágico, em que a tônica fosse posta nos sentimentos dos personagens e não na ação episódica. E conseguiu o que queria, transformando essa película numa tragédia do tipo grego, com os personagens fisgados pela fatalidade da situação em que são colocados e na qual o desenlace é conseqüência do próprio jogo das paixões.
(...)
São três apenas os personagens: um bandido jovem, em plena glória; outro, decadente e inofensivo; e o xerife. Além deles, só uma mulher e um cavalo, meros instrumentos dos apetites dos bandidos, e se equivalendo aos olhos deles, ao ponto de se proporem constantemente a troca de um pelo outro.
Os sentimentos que os dominam são os do ódio o mais violento e o da amizade, a mais leal. Dessa ambivalência sentimental, que os arrebata simultaneamente, alimenta-se o rico e sutil tecido da história. O xerife Pat Garrett tem no ex-bandido Doc Holliday o seu maior amigo. Este, porém, conhece um jovem outlaw, Billy the Kid, com vinte anos e vinte mortes nas costas; e, seduzido pelo seu destino, que fora o seu, liga-se a ele lealmente, protegendo-o contra o xerife. Nasce daí o ódio do xerife, misto de ciúme e vingança, que fortalece ainda mais a união entre os bandidos. Estes, porém, se estimam e se detestam, simultaneamente, pois disputam os mesmos bens, a mulher e o cavalo; e, embora se admirando mutuamente e se servindo um do outro contra o xerife, sentem que – mais dia, menos dia – terão de se enfrentar.
Toda a fita é marcada por essa dialética de sentimentos antinômicos, que transformam estas figuras broncas do velho Faroeste em títeres de paixões complexas e sutis, tão poderosas como as das mais requintadas tragédias literárias.
A seqüência do duelo, marcado pelo canto do cuco, é de antologia cinematográfica. Poucas vezes um filme conseguiu nos dar, com tão poucos elementos – dois homens de pé, um diante do outro, numa pequena sala; e duas testemunhas, a mulher e o xerife (tão participantes sentimentalmente, como os próprios contendores, e por razões diferentes e contrárias –, uma tão eletrizante criação dramática. Billy the Kid, com as orelhas picadas e imóvel como uma estátua, sustentado apenas pelo império dos sentimentos que o empolgam, é uma criatura da tragédia clássica e não o figurante de um western banal.
Hughes despojou o Western de todos os seus acidentes e episódios. Despojou o próprio quadro dos seus enfeites adjetivos, reduzindo-o a um ascético pano de fundo, de uma pureza de linhas e de composição admirável.
E o resultado foi este escândalo: um western por dentro, a interiorização do gênero mais exterior, mais episódico, mais ativista. E não se diga que a ousada experiência ficou frustrada. Em nenhum momento o interesse da fita decai. Hughes supriu com o poder da atmosfera, dentro do Western, o poder da ação, obtendo uma acentuação vertical, de intensificação de sentimentos, em vez da horizontal, de intensificação episódica.
Jogando com a velha história, tão usada, do bandido Billy the Kid, Hughes renovou o seu sentido semilendário, dando-lhe um desenvolvimento e um desenlace extraordinário, de base psicológica e emocional, e criou (...) uma obra-prima do cinema dramático.

 

O Proscrito (The Outlaw, 1943, 116')
Produção e Direção: Howard Hughes
Co-Direção: Howard Hawks
Roteiro: Jules Furthman
Fotografia: Gregg Toland
Música: Victor Young
Elenco: Jane Russell, Jack Buetel, Thomas Mitchell, Walter Huston, Mimi Aguglia
Disponível no Brasil em DVD
Distribuidora: Continental

 

Este texto foi transcrito do livro Cinema e Verdade (São Paulo, Companhia das Letras, 1988, pp. 141-143), de Francisco Luiz de Almeida Salles