Ano 3 - nº 9 - fevereiro/maio de 2011

O HOMEM DO O.K. CORRAL



Nos Estados Unidos, o culto de Wyatt Earp não vai desaparecer tão cedo. Em Wichita, no Kansas, os turistas nostálgicos podem visitar a Prisão Wyatt Earp. Em Dodge City, também no Kansas, existe a Rua Wyatt Earp. Em Tombstone, no Arizona, pode-se seguir um roteiro dedicado àquele que é considerado um dos mais eficientes homens da Lei do Oeste; uma placa indica o local onde Wyatt, sozinho, armado com sua arma de dois canos, conseguiu deter uma multidão enfurecida que queria linchar um assassino.
E há o O.K. Corral. Todos os anos, em Tombstone, é organizada uma apresentação folclórica chamada Helldorado Parade (Parada do Inferno Dourado, numa tradução literal), no qual se reconstitui o célebre tiroteio, glória surprema  dos Irmãos Earp. Além disso, nos quatro cantos da União, surgem, periodicamente, filmes e seriados de televisão baseados na vida heróica dos Earp. Pode-se, portanto, falar de um monumento: heterogêneo, talvez, e muito disperso no espaço e no tempo; mas, sem dúvida, um monumento notável.
De alguns anos prá cá, no entanto, alguns céticos começaram a pôr em dúvida a legitimidade desse monumento. Mas a gente do povo não lhes deu ouvidos, e pode-se prever que o culto ao homem do O.K. Corral continuará existindo (...).
O nome de Wyatt Earp tornou-se popular da noite para o dia, no ano de 1931, quando o escritor Stuart N. Lake publicou o livro Wyatt Earp Frontier Marshal,  narrando as façanhas do então desconhecido Earp, que havia apenas dois anos morrera de velhice. O livro, por ser quase inteiramente escrito na primeira pessoa, fez crer a todos que se tratava de uma verdadeira autobiografia.
Lake assegurava aos seus leitores ter transcrito para o papel as palavras que ouvira do próprio Wyatt Earp sobre si mesmo e seus tempos. Porém, anos depois, enquanto o livro atingia o maior sucesso editorial, Lake declarou que tudo o que havia escrito era de sua autoria e inteira responsabilidade. Desmentia sua afirmação anterior, revelando que Wyatt não lhe havia fornecido dado algum e que o livro divulgava apenas boatos...
O que havia provocado tal atitude? É simples: alguém afirmara que era falsa aquela narrativa de façanhas, que Wyatt Earp não havia sido o defensor da Lei que fulminava os criminosos; nem havia sido o cavaleiro sem mácula, isento dos mínimos defeitos humanos, como o livro levava a crer. E esse alguém era nada menos que a própria cunhada de Wyatt Earp, Allie Earp, mulher de seu irmão Virgil (devemos lembrar que Virgil era marshal em Tombstone, na época do famoso tiroteio).
Allie confiara a Frank Waters – um escritor que, no início dos anos 1930, desencavava velhas histórias sobre o Oeste – a fiel versão dos Earp, de como eles eram em família, longe das luzes do mito. Da sua narrativa, crível como um livro de pequenos contos familiares, vinha à tona não apenas que Wyatt não era o defensor implacável mostrado no livro de Lake, mas também devia ser considerado o gênio mal da família, a ruína de seus irmãos, meros instrumentos de suas ambições; enfim, era muito mais um demônio do que um anjo.
Mas poucos acreditaram nesta desmistificação. Na época, o Cinema ainda estava à procura de heróis, não de personagens freudianos, e já havia levado à glória a legenda de Wyatt Earp. Apenas de alguns anos para cá é que se vem questionando a literatura sobre esses grandes heróis da fronteira.
(...)
A partir de então, surgiu a esquálida figura de um jogador inveterado, privado de escrúpulos, megalomaníaco, sedento de glória e poder, que tomava para si qualquer sombra de mérito que coubesse a seus irmãos. Wyatt Earp não seria mais o legendário protagonista de filmes como A Lei da Fronteira (Frontier Marshal, 1939), Paixão de Fortes (My Darling Clementine, 1946)  e Sem Lei e Sem Alma (Gunfight at the O.K. Corral, 1957); mas, sobretudo, o homem derrotado, envenenado  por frustações, capaz de matar, sob a máscara da Lei, para se livrar de testemunhos perigosos ou para mostrar ao mundo – e, quem sabe, a si mesmo – que era alguém.

 

Este texto foi transcrito do álbum Wyatt Earp o Homem do O.K. Corral (Rio de Janeiro, EBAL, 1977, pp. 5-6), de Rino Albertarelli