Ano 3 - nº 9 - fevereiro/maio de 2011

NO TEMPO DAS DILIGÊNCIAS
Aurélio P. Cardoso



“O Western é a primeira e única cristalização estético-social do cinema americano.”
Glauber Rocha

 

Um gênero cinematográfico que sempre se renova é o Western. De vez em quando, desaparece; mas depois retorna com força, sem nunca perder a sua face de epopéia e liberdade.
Como o garoto que, no final de Os Brutos Também Amam (Shane, 1953), grita do fundo do coração “come back, Shane”, nós sempre estamos torcendo para que o Western jamais venha a desaparecer no horizonte.
Neste mundo tão tecnológico e cibernético de hoje, o Western, que sempre nos proporciona aquela singela sensação de volta à natureza, trazendo a aura de espaços a serem conquistados, a beleza e plasticidade das longas cavalgadas, a saga de heróis intrépidos e belas e ingênuas mocinhas, não pode ser engolido pelas máquinas de efeitos especiais.
E o filme que melhor simboliza o Western é No Tempo das Diligências, que em 2009 completou setenta anos de existência.
Obra importante na História do Cinema, já que tornou aceito um gênero até então desacreditado pelos críticos, No Tempo das Diligências teve direção de John Ford (1895-1973), para muitos o maior cineasta de seu país.
Já no primeiro plano do filme, John Ford revela todo o seu talento, ao mostrar a grande planície deserta com um pequeno ponto no horizonte, a diligência, e no canto da tela o rosto de um índio, sob o comando de Gerônimo, observando aquela intrusão em seu território.
No Tempo das Diligências apresentou uma nova maneira de contar uma história: num cenário majestoso, inóspito e aterrador – a fita foi filmada em Utah, no Monument Valley, trazendo a natureza como elemento integrante da trama –, um grupo de pessoas se espreme numa diligência, onde cada personagem é um extrato social da América e está em busca de uma nova fronteira.
Nessa diligência, as circunstâncias reuniram um médico alcoólatra, uma prostituta de bom coração, um banqueiro corrupto, um viajante vendedor de uísque, um jogador profissional de cartas, um xerife valentão e a jovem esposa grávida de um oficial da Cavalaria. E a esses personagens junta-se o emblemático pistoleiro Ringo Kid, o primeiro grande papel de John Wayne num filme (ele já havia trabalhado num sem-número de westerns, produzidos principalmente pela Republic). Nascia, então, o mito e a lenda. E o discípulo unia-se pela primeira vez ao seu mestre (além de No Tempo das Diligências, John Wayne apareceu em mais sete westerns de John Ford: Sangue de Herói/Fort Apache, O Céu Mandou Alguém/Three Godfathers, Legião Invencível/She Wore a Yellow Ribbon, Rio Bravo/Rio Grande, Rastros de Ódio/The Searchers, Marcha de Heróis/The Horse Soldiers e O Homem Que Matou o Facínora/The Man Whot Shot Liberty Valance).

 

No Tempo das Diligências (Stagecoach, 1939, 98')
Direção: John Ford
Roteiro: Dudley Nichols, baseando-se na história “Stage to Lordsburg”, de Ernest Haycox
Elenco: John Wayne, Claire Trevor, John Carradine, Thomas Mitchell, Andy Devine, Donald Meek, Louise Platt, Tim Holt, George Bancroft, Berton Churchill, Tom Tyler
Disponível no Brasil em DVD
Distribuidora: Continental

 

Aurélio P. Cardoso é pesquisador, crítico e ativista da área de Cinema e membro fundador do Cineclube Cauim