Ano 3 - nº 9 - fevereiro/maio de 2011

NOSFERATU
UMA SINFONIA DE HORROR

(uma adaptação para teatro do romance Drácula, de Bram Stoker)
Marco Aurélio Lucchetti



CENA 4 – CASTELO DO CONDE ORLOK

É noite.
Jonathan Harker, segurando a mala de viagem, e o Conde Orlok estão frente a frente.
O Conde Orlok é um homem de idade indefinida. Tem orelhas pontudas, semelhantes às de um rato; e sua cabeça não possui um único fio de cabelo. Seu rosto é pálido, contrastando com suas roupas, que são de cor preta.

ORLOK (fazendo um gesto para que Jonathan dê um passo para frente): Seja bem-vindo à minha casa! Entre espontaneamente!
JONATHAN (parado no mesmo lugar): É o Conde Orlok?
ORLOK (inclinando-se polidamente): Sim. Mas peço que entre, sr. Harker. A noite está fria, e vejo que está cansado.
JONATHAN (avançando um passo): Foi uma longa viagem.
ORLOK: Veio a pé... da aldeia até aqui?!
JONATHAN (colocando a mala no chão): Não tive outra alternativa. Não encontrei nenhum cocheiro que quisesse me trazer. Também não quiseram me alugar nenhum cavalo. Não queriam que eu viesse até este castelo... Falaram coisas...
ORLOK (em tom ambíguo): Que tipo de coisas?
JONATHAN: Coisas estranhas e, em meu entender, totalmente sem sentido. Disseram que este lugar é habitado por maus espíritos, demônios. E, sempre que falavam isso ou eu mencionava seu nome, faziam o Sinal da Cruz.
ORLOK (sorrindo): Deve perdoar os aldeões, sr. Harker. São pessoas simples e supersticiosas.
JONATHAN (também sorrindo): Mina já havia me dito que a Transilvânia é uma terra de superstições.
ORLOK: Como?
JONATHAN: Mina, minha esposa, me disse que as pessoas aqui, na Transilvânia, são supersticiosas.
ORLOK (com interesse): É casado, sr. Harker?
JONATHAN: Na verdade, recém-casado. Mina é uma mulher adorável... (tirando algo de dentro do bolso do paletó. É um camafeu) Aqui está um retrato dela...
ORLOK (olhando embevecido para o retrato): Realmente é uma bela mulher. E tem um pescoço fascinante!
JONATHAN: O senhor é casado?
ORLOK (desviando o olhar): Não! Há muito tempo, amei uma mulher... Mas, infelizmente, Morta, a deusa da morte, a tirou de mim.
JONATHAN (guardando o camafeu dentro do bolso do paletó): Sinto muito...
ORLOK (olhando com expressão de súplica): Se não se importa, posso ver novamente o retrato de sua esposa?
Jonathan pega novamente o camafeu. Orlok arranca, afobado, o camafeu das mãos de Jonathan.
ORLOK (olhando o retrato): Sua esposa se parece com minha amada Elisabeta...
Orlok fica olhando o retrato durante alguns segundos. Depois, devolve-o para Jonathan, que o guarda novamente no bolso do paletó.
Tudo fica em silêncio, que é quebrado pelo som de lobos uivando.
ORLOK (levantando os olhos e apontando um dedo para o alto): Ouça! Os filhos da noite! Que linda melodia eles transmitem!
JONATHAN (surpreso): Mas... são uivos de lobos!
ORLOK (com desgosto): Ah, os senhores da cidade não compreendem os sons da Natureza! (muda o tom de voz) Sua ceia está preparada. Infelizmente, terá de jantar sozinho. Já passa da meia-noite, e eu não me alimento a esta hora.
Jonathan e Orlok se afastam.
Ainda se ouvem os uivos de lobos, que começam a ficar cada vez mais distantes.




CENA 5 – SALA DO CASTELO DO CONDE ORLOK

É noite.
Jonathan Harker e o Conde Orlok estão sentados a uma comprida mesa. Jonathan está comendo, usando garfo e faca. Orlok olha com atenção um papel, que segura com as duas mãos. Alguns papéis e algumas fotos estão em cima da mesa, próximos a Orlok. No centro da mesa, um castiçal, com três velas acesas.

JONATHAN (com o garfo na mão): Como pode ver, essas propriedades são muito antigas.
ORLOK (sem levantar os olhos do papel que está lendo): São exatamente o que procuro, sr. Harker. Provenho de uma família muito antiga e creio que morreria, se tivesse de morar numa casa moderna.
JONATHAN: Não terá vizinhos por perto, já que elas são bem retiradas...
ORLOK (levantando o olhar): Perfeito! Amo a escuridão e as sombras... E gosto de ficar a sós com meus pensamentos, sempre que possível.
JONATHAN: Oh, que desastrado que sou! Acabei cortando-me...
Orlok olha com interesse para o dedo cortado. Seus olhos brilham.
ORLOK (caminhando em direção a Jonathan): Aqui, em meu país, isso é perigoso...
JONATHAN (segurando o dedo ferido): Foi um corte sem importância...
ORLOK (junto a Jonathan): Pode pegar uma infecção! Permita-me...
Orlok segura o dedo ferido de Jonathan e leva-o à boca.
ORLOK: Faço isso para o seu bem...



CENA 6 – QUARTO DO CASAL HARKER

É de manhã.
Mina está sentada na banqueta junto à penteadeira e segura algumas folhas de papel na mão. Ela tem uma expressão de felicidade no rosto.

MINA (sorrindo): Até que enfim, outra carta do Jonathan...
Mina começa a ler a carta.
MINA (lendo): Faz uma semana que cheguei ao castelo do Conde Orlok; e somente hoje encontrei tempo para lhe escrever novamente. O castelo é enorme e muito antigo; e foi construído no canto de um grande penhasco, o que o torna inexpugnável por três lados. Ele é um tanto afastado, e o único som que se ouve por aqui é o uivar dos lobos. O conde é um sujeito esquisito. Só aparece à noite. Então, conversamos longamente; e ele me conta interessantes histórias da sua família e da Transilvânia. Você não iria gostar dele, acharia seu aspecto repugnante. Sua cabeça é inteiramente pelada, não tem um único fio de cabelo. E suas orelhas são pontiagudas. Ele se assemelha a um rato gigante.
Mina levanta a cabeça e dá um sorriso. Depois, abaixa a cabeça e volta a ler.
MINA (lendo): Uma coisa interessante: até agora, não vi nenhum serviçal. Nem vi o conde comendo. Será que os nobres são diferentes de nós e não precisam comer?
Mina levanta a cabeça novamente e dá um novo sorriso.
MINA (dando um suspiro): Ah, Jonathan! (volta a ler) Não tenho com quem conversar, durante o dia. Felizmente, encontrei, na biblioteca do castelo, vasto número de livros ingleses e várias revistas e jornais do nosso país, embora nenhum fosse de data recente. Assim, passo as horas do dia lendo ou passeando pelo castelo. Há alguns aposentos, entretanto, em que não posso entrar, pois suas portas estão trancadas. E o conde me disse que há uma razão para as portas desses aposentos estarem fechadas. Por educação, não perguntei que razão é essa. Outro dia, tive um sonho bem estranho. Penso que foi um sonho, mas tudo me pareceu muito real. Como aconteceu com você, com o pesadelo que teve. O sonho foi o seguinte: eu estava numa parte do castelo que, em tempos passados, fora certamente ocupada por damas. Percebia-se isso pelo mobiliário e pelos objetos de adorno. Era noite; e, cansado, ajeitei-me numa otomana, para tirar um cochilo. Quando despertei, notei que havia estranhas e pequenas manchas a flutuar. Elas eram iluminadas pelos raios do luar, que entravam por uma das grandes janelas do aposento. E eram semelhantes a minúsculos grãos de poeira e ficavam rodando, agrupando-se e transformando-se numa espécie de nebulosa. Fiquei observando esse espetáculo – para mim, era um espetáculo –, durante muito tempo; e uma sensação de conforto apoderou-se do meu ser. De repente, as partículas flutuantes de pó assumiram novas formas, enquanto dançavam mais rápido. Então, uniram-se cada vez mais e dividiram-se em três blocos. A seguir, assumiram a forma de três lindas e jovens mulheres. Deveriam ser damas, a julgar por seus modos. E usavam roupas diáfanas, que deixavam à mostra as curvas de seus corpos. Na realidade, suas roupas mais mostravam do que escondiam. Você precisava ver, Mina.
Mina afasta os olhos da carta, e seu rosto adquire uma expressão de zanga. Depois, ela retoma a leitura.
MINA (lendo, com voz de quem está zangado): Duas das mulheres eram morenas; possuíam narizes aquilinos e grandes olhos escuros, que pareciam quase vermelhos, quando comparados à luz amarelada do luar. A terceira era clara. Penso que, no mundo, não deve haver uma mulher com um tom de pele tão claro quanto o dela. Tinha cabelos compridos, dourados e cacheados; e seus olhos eram da cor da safira. Seu rosto me pareceu familiar; contudo, não pude me lembrar onde ou quando o vira. Senti em meu coração o desejo ardente de que as três me beijassem com seus lábios vermelhos e voluptuosos. Nesse instante, elas riram. Foi um riso claro e musical; mas, ao mesmo tempo, cruel, como se não tivesse saído de lábios humanos. Pareciam ter saído da boca de demônios. Daí, despertei, banhado de suor.
Mina fica mais zangada ainda e joga os papéis para um lado. Em seguida, levanta-se, irritada, e caminha pelo quarto.
MINA (caminhando): Jonathan... Como pôde?!
Mina vai, com passos apressados, até a penteadeira, pega a escova de cabelo e começa a passá-la nervosamente pelos cabelos.
MINA (zangada): Os homens são todos iguais! Mal se afastam do nosso lado e já estão pensando em outras mulheres!
Mina joga a escova em cima da penteadeira. Em seguida, senta na banqueta e fica alguns segundos em silêncio, fitando o vazio, procurando se acalmar. Por fim, um pouco mais calma, pega os papéis e volta a ler.
MINA (lendo, com voz menos irritada): Peço que me perdoe por lhe contar todas essas coisas, Mina; mas achei que não seria justo escondê-las de você. Além do mais, foi apenas um sonho, provocado, certamente, por eu estar longe de você. Queria poder acariciá-la, beijá-la, sentir o calor do seu corpo, minha querida.
Mina desvia o olhar da carta que está lendo. Seu rosto tem agora uma expressão de ternura.
MINA (suspirando): Oh, Jonathan... Por quanto tempo mais ficaremos afastados um do outro?
Mina fica, durante algum tempo, imóvel, lembrando os bons momentos que passou ao lado de Jonathan.
A expressão de seu rosto é uma mistura de alegria e ternura. Depois, ela volta a ler a carta.

MINA (lendo): Ontem à noite, o conde me falou que deseja que eu fique mais algumas semanas. Quer me fazer uma série de perguntas a respeito do nosso país. Quer saber tudo sobre nossa história, nossos costumes. Quer ser um perfeito inglês. Daqui a alguns dias, eu lhe escreverei uma nova carta. Mil beijos. Do seu amado, Jonathan.
Depois de ler a carta, Mina dobra os papéis cuidadosamente e dá um suspiro.
MINA (em tom apaixonado): Oh, Jonathan... Não vejo a hora da sua volta!



CENA 7 – SALA DO CASTELO DO CONDE ORLOK

É noite.
Jonathan Harker, segurando uma caneta de pena, está sentado à mesa. Diante dele, um livro (um diário) e um tinteiro. No centro da mesa, um castiçal, com três velas acesas.

JONATHAN (escrevendo no diário): 16 de maio. Rogo a Deus que preserve minha sanidade mental. Enquanto viver aqui, devo desejar apenas uma coisa: não enlouquecer. (molha a caneta no tinteiro) Agora, sei o que enlouqueceu Renfield. O pobre diabo passou pelo que estou passando... Este castelo é uma prisão, e sou prisioneiro do conde! (molha a caneta no tinteiro) Já nem sei se sairei vivo daqui!
Jonathan pára de escrever. Levanta a cabeça e, durante alguns segundos, fica com a mão no queixo. A seguir, recomeça a escrever.
JONATHAN (escrevendo): O que meus olhos viram ontem me encheu ainda mais de terror. Tenho de relatar neste diário o que vi. Talvez diminua um pouco o meu temor e a minha ansiedade.
Jonathan deixa de lado a caneta. Passa as duas mãos pelo rosto. Depois, pega novamente a caneta, molha-a no tinteiro e recomeça a escrever.
JONATHAN (escrevendo): Eu estava junto à grande janela que há na ala sul. Ela estava aberta. Lancei, então, o olhar sobre a linda vastidão que a luz amarela e suave do luar banhava. À luz delicada, os morros distantes fundiam-se e as sombras nos vales e abismos adquiriam um tom negro aveludado. (molha a caneta no tinteiro) Aquela bela visão alegrou-me um pouco. De repente, ouvi um ruído vindo de algum ponto abaixo da janela. Instintivamente, recuei o corpo. Em seguida, a curiosidade impeliu-me a ver o que era. Coloquei a cabeça para fora da janela. Antes não tivesse feito isso! (molha a caneta no tinteiro) Meus olhos se detiveram em algo que se movia no andar abaixo do meu e um pouco para a esquerda, no local onde imaginei que deveriam estar os aposentos do conde. (molha a caneta no tinteiro) E o que vi exatamente foi a cabeça do conde saindo da janela. Apesar de não lhe ver o rosto, reconheci o homem pela sua cabeça pelada. (molha a caneta no tinteiro) A princípio, julguei aquilo interessante e até divertido. Entretanto, passei a sentir repugnância, quando vi o conde descer rastejando as paredes do castelo, sobre aquele abismo assustador. (molha a caneta no tinteiro) Ele estava com o rosto voltado para baixo; e sua capa, esvoaçando ao vento, assemelhava-se a uma grande asa de morcego. Não pude acreditar no que via. Julguei que fosse algum truque do luar, algum fantástico efeito das sombras. (molha a caneta no tinteiro) Continuei olhando e percebi que não era nenhuma ilusão. Era real! Vi os dedos dos pés e das mãos agarrarem-se às quinas das pedras, utilizando-se de todas as saliências e reentrâncias. (molha a caneta no tinteiro) O conde descia com uma rapidez espantosa, como se fosse uma lagartixa descendo uma parede.
Jonathan faz uma pausa e olha para os dois lados, como se tivesse ouvido um ruído. Em seguida, molha a caneta no tinteiro e recomeça a escrever.
JONATHAN (escrevendo): Que espécie de homem é o conde? Ou melhor, que espécie de criatura disfarçada em homem? (molha a caneta no tinteiro) Sinto medo... um medo indizível. E não posso fugir desde lugar horrível e tenebroso!
Às costas de Jonathan, surgem três mulheres, uma loura e duas morenas. Elas abrem os lábios, deixando entrever dois dentes pontiagudos; e fazem um ruído com a boca. Jonathan se volta, ao ouvir o ruído. Ele se assusta ao ver as mulheres.
JONATHAN (levantando-se e dando alguns passos para trás): Vocês... Eu as vi num sonho!
As mulheres ficam olhando para Jonathan, ainda com os lábios entreabertos.
LOURA (sorrindo): Não foi um sonho, tolo!
JONATHAN (dando mais um passo para trás): Quem são vocês? Que... que querem?
A loura dá um empurrão numa das morenas.
LOURA: Vá! Você tem a primazia! Nós a seguiremos!
A outra morena também empurra a companheira.
LOURA: Vá, irmã! Comece logo!
A morena que foi empurrada avança alguns passos em direção a Jonathan. Ela caminha lentamente, enquanto é observada por suas companheiras.
MORENA (com voz sensual): Não precisa ter medo, querido... Apenas relaxe e olhe nos meus olhos! Olhe bem dentro dos meus olhos!
Jonathan procura desviar o olhar, mas não consegue. Logo, está com os olhos fixos no rosto da mulher.
MORENA (entreabrindo os lábios, com satisfação e caminhando em direção a Jonathan): Isso... Feche os olhos e entregue-se! (virando-se para as companheiras) Ele é jovem e forte! Haverá beijos e sangue para todas nós!
A mulher pára ao lado de Jonathan, envolve-o em seus braços e lambe os lábios com satisfação.
LOURA (gritando): Vamos, irmã, comece logo!
A morena aproxima seus lábios do pescoço de Jonathan.
Nesse instante, surge o Conde Orlok, carregando um saco, de cujo interior sai o choro de uma criança. O conde vê a mulher prestes a morder o pescoço de Jonathan. Corre até eles.

ORLOK (segurando a mulher e afastando-a de Jonathan): Como ousa tocá-lo? Como ousou lançar os olhos sobre ele? Eu não proibi que vocês o tocassem?
MORENA (juntando-se às outras duas mulheres): Você é mal!
ORLOK (com fúria): Afastem-se dele!
MORENA (com olhar suplicante): Só queríamos um pouco de amor... e de sangue!
LOURA (também com olhar suplicante): Será que é pedir muito?
SEGUNDA MORENA (com ar zombeteiro): Você não entende nossas necessidades! Nunca amou!
ORLOK (com os olhos fixos na Segunda Morena): Cuidado com o que diz, mulher! Bem sabe que sou capaz de amar! Você mesma já pôde comprovar isso inúmeras vezes! (mais calmo e sorrindo) Prometo-lhes que, quando o inglês já não me for útil, poderão “beijá-lo” à vontade!
SEGUNDA MORENA (passando a língua pelos lábios): Verdade?!
ORLOK (ordenando, com a mão, que saiam): Sim... Mas, agora, saiam!
LOURA (olhando na direção do saco que Orlok trouxe): Não teremos nada... esta noite?! Estamos com tanta fome... e sede!
ORLOK (aproximando-se do saco e pegando-o): Para verem que não sou uma pessoa má, trouxe isso para vocês...
LOURA (olhando dentro do saco e sorrindo de satisfação): Que lindo! É um bebê!
Orlok e as três mulheres saem, deixando Jonathan sozinho.
JONATHAN (cheio de pavor): Oh, meu Deus! Esse monstro está prestes a ir para a Inglaterra! (sentando na cadeira) Mina... Tenho de avisar Mina...!

 

continua no próximo número