Ano 3 - nº 9 - fevereiro/maio de 2011

O INÍCIO DE UMA SAGA
Emídio Fernandes



Cedo, nos Estados Unidos, o Cinema descobriu a lenda do Oeste. Em 1903, um operador de câmara de Thomas Edison, Edwin S. Porter, realizou The Great Train Robbery, o primeiro western da História do Cinema. O sucesso do filme foi estrondoso! É ainda curioso notar a importância deste filme na História do Cinema. Porter não era um consciencioso, isto é, um cineasta preocupado com os problemas da cinestética, qualidade artística do Cinema e seus caminhos (na época, só o francês Méliès apresentava consistência intelectual); porém, por necessidades do próprio argumento do filme (longas pradarias, trens em movimento, cavalgadas), Porter “desamarrou” a câmara de filmar, levou-a para o ar livre, para o exterior, enquanto Méliès continuava firmemente fiel às filmagens em estúdio. Assim, Porter, ao explorar os novos enquadramentos, as panorâmicas, campo-contracampo etc., criou novos caminhos formais que viriam marcar fortemente o incipiente cinema americano.
O espantoso sucesso comercial do filme de Porter chamou a atenção dos produtores para o filão. Nova “corrida do ouro” teve assim início... Mais e mais fitas sobre o Oeste foram alimentar os nickelodeons, onde multidões delirantes assistiam a épicas cavalgadas, homéricos tiroteios e fantásticas lutas em saloons... Pensariam os produtores na criação de um cinema tipicamente americano, num cinema que correspondesse (como o Western corresponde) aos anseios do homem americano? Não. Os filmes custam dinheiro; quem tem dinheiro são os produtores, que (ontem como hoje) pensam mais em dividendos do que em Arte. Mas o Cinema apoderou-se, vorazmente, da lenda nacional americana. E surgiram os ingredientes clássicos do clássico western: as cavalgadas loucas pelas intermináveis pradarias, os famosos duelos na rua enlameada com casas de madeira, os assaltos a bancos e trens por bandidos mascarados, as lutas nos saloons, os cowboys...

 

Este texto foi transcrito do artigo “A Evolução do ‘Western’”, publicado no número 63 da revista Celulóide (Rio Maior, Fernando Duarte Editor, março de 1963, p. 4)