Ano 3 - nº 9 - fevereiro/maio de 2011

O HERÓI DO WESTERN
Octavio de Faria



Eu diria que o vejo como uma fusão de Dom Quixote e Parsifal.
(...) Aparece no momento oportuno, como se uma força qualquer o guiasse. Vem quase sempre de longe, de outras aventuras provavelmente iguais à que vai acontecer. Traz consigo poucas coisas, o seu cavalo na maioria das vezes – por acaso um amigo seguro. Mas vem com ele uma boa dose de ideal, de força, de destreza, de boa vontade (...), de paixão disponível, que dão à sua chegada a significação de um grande reforço (...). É o herói que nada pode vencer. É o bem que exibe todas as suas riquezas. É Parsifal que deixa transparecer toda a sua força e toda a sua pureza.
Vem disposto a tudo. A dormir ao relento, a passar a noite vigiando o gado, a fazer o serviço que lhe derem. (...) contanto que seja naquela fazenda onde viu a heroína, contanto que seja em defesa da boa causa.
Naturalmente, momentos adiante o céu se turva. O mal aparece em campo. Os bandidos atacam, roubam o gado ou a heroína (freqüentemente um e outro). E é preciso, então, que o herói parta. Que montado no cavalo, corra em defesa da mulher que ama, atacada seja na sua pessoa ou nos seus bens.
Parte, naturalmente. Não importa que seja um só e os bandidos mais de vinte. (...) Não importam todos os possíveis contratempos. Nada importa (...). Lança-se ao acaso, para frente, sempre para a frente, encontre o que encontrar. (...) É Dom Quixote na sua cavalgada pelo mundo.
Com a luta, vem sempre a vitória. Debalde os bandidos terem a seu favor o número. A astúcia vence. Debalde os bandidos empregarem a traição. A fidelidade de um cavalo desamarra um nó ou vai chamar os amigos. Debalde as suspeitas recaírem sobre o herói. Tudo se esclarece, e as mãos se estendem de novo diante da sua. (...) nada o pode vencer. Ele é o bem que triunfa sempre sobre o mal. Ele é, de novo, Parsifal, que venceu todos os obstáculos do mal. É Parsifal justificando Dom Quixote, porque é um Dom Quixote forte, capaz de vencer. Um Dom Quixote que vence sempre. É a alma de Dom Quixote com a fé que anima Parsifal. É uma força nova; e foi essa força que, nos seus vários aspectos, criou e construiu a civilização do Oeste dos Estados Unidos. O herói do Western é, por essência, o herói da construção dos Estados Unidos.

 

Este texto foi transcrito do livro Significação do Far-West (Ministério da Educação e Cultura – Serviço de Documentação, Rio de Janeiro, 1952, pp. 56-58), de Octavio Faria