Ano 3 - nº 9 - fevereiro/maio de 2011

DUELO AO SOL
Jean-Louis Rieupeyrout
tradução e versão: Marco Aurélio Lucchetti



(...) esse filme, resultante da colaboração de vários diretores (William Dieterle, Josef von Sternberg, Otto Brower, B. Reeves Eason e, entre outros, King Vidor, que foi seu principal artesão e a quem foi creditada a direção), alia, de um modo feliz, o épico ao sensual, o real ao insólito.
(...) Muito mais ousado que O Proscrito (The Outlaw, 1943), cuja sensualidade foi por demais comentada e lamentada nos Estados Unidos, Duelo ao Sol revolucionou a ética admitida até então no Western, no que se refere às relações entre o herói e a heroína. E essa revolução ocorreu sobretudo por causa da situação social dos dois personagens principais do filme – ela, Pearl Chavez (Jennifer Jones), mestiça, vítima de uma quase segregação racial; ele, Lewt McCanles (Gregory Peck), um belo rapaz, viril demais para submeter-se às leis de um pai tirânico –, que são amantes e vivem à margem da sociedade. E a paixão que une esses dois seres atingirá um elevado grau, tornando Pearl uma personagem bem distante das puras e diáfanas heroínas dos westerns à moda antiga.
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Em Duelo ao Sol, o homem matará pela amante, a exemplo do infeliz herói de um dos clássicos do Noir, Pacto de Sangue (Double Indemnity, 1944), baseado no romance homônimo de James M. Cain.
A publicidade resumia Pacto de Sangue com o slogan: “Ela beija para que ele mate.”Duelo ao Sol, devido ao seu final trágico, em que os dois amantes se matam, permite a inversão desse slogan: “Ela o mata para que ele a beije.”
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E, no final de Duelo ao Sol, o tão decantado tema dos amores contrariados atinge o paroxismo da selvageria cruel. Com isso, Romeu & Julieta, Tristão & Isolda, entre outros casais de amantes, tornam-se figuras tímidas e delicadas, frente a Lewt & Pearl. Tudo porque, num combate em que o ridículo disputa com o insólito, Pearl atira em Lewt, fazendo as senhoras norte-americanas renegarem num instante a fogosa Jennifer Jones, que lhes tinha parecido tão convincente no papel da virginal camponesa Bernadette em A Canção de Bernadette (The Song of Bernadette, 1943).
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Resta acrescentar que Duelo ao Sol permitiu a Lillian Gish, a atriz preferida de D. W. Griffith, voltar às telas cinematográficas; mas fanada, envelhecida, confinada num papel secundário que a obrigava a empurrar a cadeira de rodas de outro grande ator do passado, Lionel Barrymore, paralítico das duas pernas.

 

Duelo ao Sol (Duel in the Sun, 1946, 129')
Produção: David O. Selznick
Direção: King Vidor
Roteiro: David O. Selznick, baseando-se no romance homônimo de Niven Busch
Música: Dimitri Tiomkin
Elenco: Jennifer Jones, Gregory Peck, Joseph Cotten, Lionel Barrymore, Lillian Gish, Herbert Marshall, Walter Huston, Charles Bickford, Tilly Losch, Butterfly McQueen, Harry Carey
Disponível no Brasil em DVD
Distribuidora: Classicline

 

Este texto foi traduzido do livro El “Western” o el Cine Americano por Excelencia (Le Western ou le Cinéma Américain par Excellence, tradução de E. Eichelbaum, Buenos Aires, Ediciones Losange, 1957, pp. 89-91), de Jean-Louis Rieupeyrout