Ano 3 - nº 9 - fevereiro/maio de 2011

O COWBOY
Salvyano Cavalcanti de Paiva



Sabe-se que o cowboy é um tipo de cavaleiro característico dos Estados Unidos da América do Norte. Na colonização do Oeste, esteve sempre presente o cowboy. A princípio como elemento nômade, desbravador, abrindo passagem no território virgem, desconhecido, criando verdadeiramente a grande nação. Enquanto o agricultor, que o seguia, era o elemento de fixação, o cowboy se identificava como o elemento dinâmico da colonização, aquele que dá o impulso para a marcha, o movimento, a conquista. Guia de expansão bio-social, o cowboy esteve sempre à frente na luta contra o aborígene; na fundação de fortes, postos avançados, vilarejos; na procura de regiões de clima e recursos naturais aconselháveis para o estabelecimento de cidades; na corrida para as minas de ouro e de pedras preciosas, na corrida para os poços de petróleo; na travessia das Montanhas Rochosas, no encontro com o Pacífico. Mais tarde, transformou-se no boiadeiro propriamente, no criador de gado, no fornecedor de carne, laticínios, couro e pele. (...)
É claro que o cowboy consigo trouxe o jogo de cartas, o sexualismo desenfreado e o vício da bebida em escala nunca vista. Mas não culpemos o cowboy (...). O fato é que as forças espirituais, religiosas... eram frágeis, impotentes para conter a avalanche de impulsos naturais incontáveis e provocados pela luta contra a aspereza e diversidade de clima, a imensidão geográfica (...) do Oeste, a solidão e a distância dos centros civilizados; essas forças espirituais e religiosas eram por demais frágeis para conter a ânsia de liberdade (ou mais corretamente de libertinagem) que aparecia como a tábua de salvação momentânea, a válvula de escapamento para a nostalgia advinda de todos aqueles fatores acima enumerados (...). Somente a esperança orientava os bandeirantes. Para o vazio da alma refletido no corpo, o homem buscava alívio no vinho, no jogo e nas mulheres, que eram poucas e caras. É preciso nunca esquecer: os que realmente queriam criar uma nação grande e próspera caminhavam lado a lado com os aproveitadores de todos os tipos.
Mas o cowboy, trazendo o roubo, a posse ilegal de terras, a cobiça, os ódios e paixões em desencadeada fúria, o vício dos saloons e a morte em massa e sem punição (por causa da popularidade do revólver a tiracolo, criado por sua vez pela necessidade de defesa rápida e certeira contra os índios e os animais), trouxe também o templo (protestante ou católico), o hotel, o banco, a ferraria, o estábulo, o armazém e, por força das circunstâncias, a lei e a ordem (nem sempre muito fáceis de se fazerem válidas) com os vigilantes e, afinal, o xerife, autoridade máxima mas de jurisdição limitada.

 

Este texto foi transcrito da edição de 2 de agosto de 1949 da revista A Cena Muda