Ano 3 - nº 9 - fevereiro/maio de 2011

CONSCIÊNCIAS MORTAS
O ESPÍRITO COLETIVO DE JUSTIÇA EM SEU REGISTRO MAIS FRANCO E NEFASTO

João Rodolfo Franzoni



Consciências Mortas nos arrasta até o terror (...) de um linchamento. Nada pode deter a ascensão surda da injustiça. A iniqüidade triunfa em sua estupidez brutalmente humana. Três homens inocentes são enforcados, mas nada pode evitar sua morte atroz, pois o coletivo se nutre de sua própria cólera e exige suas vítimas.”
Olivier-René Veillon

 

Qualquer estudo sociológico sobre a natureza humana procura justificar ações extremas como resultado do ambiente social e cultural de um grupo de indivíduos, na tentativa de explicar tudo que é condenável. Há casos, entretanto, que a falácia revela-se um instrumento para acobertar aquilo que, ainda que mantido um certo direito à justiça, é errado. Talvez o diálogo final de Julgamento em Nuremberg (Judgment at Nuremberg, 1961), uma obra-prima dirigida por Stanley Kramer, sirva como exemplo para ilustrar tal tese: assim que o velho juiz idealista (interpretado por Spencer Tracy) decreta a culpabilidade dos carrascos nazistas, o advogado de defesa derrotado (vivido brilhantemente por Maximilian Schell) o procura para provocá-lo, dizendo que a sentença era inútil, um disfarce para a opinião pública mundial, pois na prática não seria devidamente aplicada. Porém, o magistrado não se curva pela descrença e devolve: “Como advogado, o senhor exibe uma lógica brilhante. Mas existe no mundo uma coisa que é o Certo! E, para o Certo, não existe lógica capaz de superá-lo!”
E é defendendo esse conceito de que não há justificativa para barbáries cometidas por cidadãos com uma noção bem distorcida de justiça social que o hoje pouco lembrado diretor William A. Wellman (1896-1975) realizou Consciências Mortas, um clássico indispensável da década de 1940, adaptado do romance de Walter Van Tilburg Clark. Sendo um dos melhores exemplos de consciência social que Hollywood se atrevia a produzir naqueles anos incertos da Segunda Guerra Mundial, o filme, apesar de ter sido produzido quase setenta anos atrás, conserva um tom de indignação preciso, objetivo, enfocando o polêmico tema do linchamento.
Segundo um estudo divulgado pelo jornal O Estado de S. Paulo, em fevereiro de 2008, o Brasil é o país que lidera o número de casos de linchamento. E, numa constatação alarmante, não se trata de uma epidemia, e sim de algo corriqueiro, já que tal barbaridade é encarada aqui como um ato normal. Tal relatório não destoa, portanto, da mentalidade dominante nos tempos do Velho Oeste estadunidense, período em que se ambienta o filme aqui resenhado. Na mesma matéria, José de Souza Martins, professor de Sociologia responsável pelo estudo, classifica tal delito como “uma forma de punição coletiva contra alguém que desenvolveu uma forma de comportamento anti-social”. Em Consciências Mortas, acrescenta-se também: a modorra do ambiente (a história se passa num povoado do estado de Nevada, em 1885); a defesa de uma honra que, na verdade, só existe na teoria; a oportunidade de exercitar uma autoridade espúria; e, finalmente, a constatação de que o ser humano é capaz de conservar seus escrúpulos e sua humanidade, não importando a pressão de uma maioria irascível ou o risco de destoar ridiculamente de determinado grupo (isso, portanto, invalida qualquer justificativa abraçada por raposas da Lei e pelo raciocínio popular de que a sanha de justiça nos absolve de todo e qualquer comportamento arbitrário).
Conforme mencionado, o filme tem a ambientação de um western; mas parece ser intencional a ausência de duelos ao pôr-do-sol, ataques indígenas ou homens destemidos com seus colts. Há uma breve briga num saloon, sujeitos caracterizados como cowboys... porém, a prioridade da fita é um profundo exame crítico da alma humana. Ao ambientar sua história na América ainda à espera de desenvolvimento industrial, Wellman dizima qualquer conceito de que a ausência de progresso econômico poderia comportar algo tão brutal quanto um linchamento, pois certamente os Estados Unidos dos anos 1940 guardavam (e, certamente, os Estados Unidos de hoje ainda guardam) resquícios dessa prática tão deturpada.
Consciências Mortas começa com a chegada de dois andarilhos à pequena cidade da qual partiram algum tempo atrás. Um deles, Gil Carter (Henry Fonda), está desiludido com a falta de qualquer avanço naquele local (tudo que se pode fazer no povoado é comer, beber e brigar) e furioso frente à descoberta de que a mulher que havia prometido esperar por ele não mais reside ali. Em seguida, ficam sabendo que um respeitado rancheiro local foi assassinado por ladrões de gado.
Rapidamente, contrariando qualquer súplica do juiz local, Daniel Tyler (Matt Briggs), e de um comerciante idoso e benevolente, Arthur Davies (Harry Davenport), alguns habitantes se mobilizam para capturar os supostos bandidos e aplicar-lhes a justiça que, segundo eles, um julgamento não seria capaz de sentenciar satisfatoriamente. Entre os mais inflamados estão: um sádico major aposentado (Frank Conroy), sedento por enforcar os malfeitores; um substituto do xerife (Dick Rich), que toma para si uma autoridade que não possui; e, até mesmo, uma mulher masculinizada (Jane Darwell), que, a exemplo do restante do grupo, não perde uma oportunidade de zombar de qualquer discurso recomendando cautela. E os “justiceiros” partem até a colina mais alta, a fim de ficar à espera dos tais ladrões e assassinos; e logo encontram, descansando, um pai de família (Dana Andrews), um velho senil (Francis Ford) e um empregado mexicano (Anthony Quinn). Confrontado com os “justiceiros”, o líder do trio, Donald Martin, o pai de família, tenta explicar que tudo não passa de um mal-entendido: ele acabou de se mudar de Los Angeles e havia comprado gado do fazendeiro assassinado; mas tudo é em vão. E os discursos de uma minoria em evitar a precipitada execução dos três homens esbarram na vontade irrevogável daquela horda de ignorantes, pois, nas palavras de um deles, “nada melhor que um linchamento para animar esta cidade!”
Consciências Mortas é também como um exemplo perfeito de concisão cinematográfica. Em seus econômicos pouco mais de 75 minutos de duração, fornece o que pode ser considerado um estudo completo das mazelas sociais e humanas, o que tornam o filme um espelho atemporal das máculas que atingem determinado espírito coletivo.
Realizado com simplicidade, mas cheio de impacto, Consciências Mortas consegue aflorar no espectador uma inquietude mais que bem-vinda, sobretudo numa época em que porta-vozes da maioria empobrecida procuram reduzir a dimensão de atos graves, como se a origem humilde de um nicho justificasse a prática de atos de selvageria. E, na História do Cinema, poucos discursos acerca da tolerância e da defesa de uma sociedade regida por leis ostentam a comoção memorável daquele descrito na carta em que, momentos antes de ser enforcado, Martin escreve com a intenção de que seja entregue à sua esposa, que o aguarda. Leis, consciência e a necessidade delas para Deus e o Homem são mencionados numa leitura arrebatadora (esse discurso merecia ser transcrito na íntegra, caso a emoção e a surpresa de testemunhá-lo na voz de Henry Fonda não tornassem dispensável).
Passando ao longe de qualquer pieguice, o filme encerra-se com acordes instrumentais de “In the Sweet Bye and Bye”, hino do cancioneiro popular norte-americano, já interpretado por Johnny Cash, Loretta Lynn e, mais recentemente, pelo elenco do último filme de Robert Altman, A Última Noite (A Prairie Home Companion, 2006). Em seus versos, invocam-se as bênçãos de uma terra que nos aguarda após nossa doce despedida. Certamente, não é a terra reservada aos perpetradores daquele covarde linchamento; mas sim àqueles poucos homens que ousaram levantar sua voz ante o anúncio de uma ação coletiva condenável, conservando imaculadas suas consciências. Para eles, a direção ilumina. Para o resto, pede o sepultamento de suas ações.
Cabe ao espectador reconhecer qual papel estaria sujeito a desempenhar, pois, ainda que ambientado no Far-West, Consciências Mortas consegue falar não só de cowboys, mas também de cada um de nós.

 

Consciências Mortas (The Ox-Bow Incident, 1943, 75')
Direção: William A. Wellman
Roteiro: Lamar Trotti, baseando-se num romance de Walter Van Tilburg Clark
Elenco: Henry Fonda, Dana Andrews, Mary Beth Hughes, Anthony Quinn, William Eythe, Henry Morgan, Jane Darwell, Matt Briggs, Harry Davenport, Frank Conroy, Marc Lawrence, Victor Kilian, Dick Rich, Francis Ford, Rondo Hatton, George Chandler
Disponível no Brasil em DVD
Distribuidora: Classicline

 

João Rodolfo Franzoni é jornalista