Ano 3 - nº 9 - fevereiro/maio de 2011

CARMILLA
Joseph Sheridan Le Fanu
tradução e versão: Marco Aurélio Lucchetti



CAPÍTULO DOIS
UMA HÓSPEDA

Agora, vou contar-lhes algo tão estranho que exigirá toda a fé de vocês para acreditarem em mim. Asseguro-lhes, porém, que o que irei relatar a seguir é a mais pura verdade.
Tudo teve início num agradável fim de tarde de verão, quando meu pai me pediu, como costumava fazer, que o acompanhasse num pequeno passeio pelo belo trecho da floresta que fica em frente do castelo.
– O General Spielsdorf não poderá vir tão cedo – informou papai, ao iniciarmos o passeio.
O General devia fazer-nos uma visita de algumas semanas, e nós aguardávamos que chegasse no dia seguinte. Ele devia vir acompanhado por uma jovem, sua sobrinha e pupila, Mademoiselle Rheinfeldt, que eu nunca vira, mas de quem tinha ouvido descrições que asseguravam ser uma moça atraente e em cuja companhia tinha prometido a mim mesma passar muitos dias felizes. Assim, fiquei desapontada com a notícia. A vinda de Mademoiselle Rheinfeldt fora meu “sonho dourado” durante várias semanas.
– E quando ele virá? – Perguntei.
– Não antes do outono. Arrisco dizer que não virá nos próximos dois meses. E estou muito contente, querida, por você não ter conhecido Mademoiselle Rheinfeldt.
– E por quê? – Indaguei, mortificada e curiosa.
– Porque a pobre moça morreu. Tomei conhecimento disso por meio de uma carta do General, que recebi hoje.
Fiquei abalada com a notícia. O General Spielsdorf tinha mencionado numa carta, enviada seis ou sete semanas antes, que a sobrinha não estava tão bem de saúde como ele desejava; entretanto, não havia nada na carta que sugerisse a mais remota suspeita de risco de morte.
Papai e eu sentamo-nos em um banco rústico, sob um grupo de magníficas limeiras.
O sol se punha, com todo o seu melancólico esplendor, por trás do horizonte; e o riacho, que flui ao lado de nossa residência e passa sob a velha ponte gótica que mencionei, refletia em suas águas o vermelho fugaz do céu.
– Aqui está a carta do General – disse meu pai, estendendo-me um papel. – Receio que ele esteja em grande aflição; a carta me pareceu ter sido escrita num estado de grande perturbação mental.
A carta do General Spielsdorf era tão estranha, tão veemente, e em alguns pontos tão contraditória, que eu a li duas vezes – a segunda vez em voz alta, para papai ouvir – e ainda assim não consegui entendê-la totalmente. A tragédia havia perturbado por completo a mente do pobre homem.
A carta dizia o seguinte:

“Durante os últimos dias de minha amada Bertha, não tive condições de escrever-lhe.
Perdi minha querida filha, pois assim eu a considerava, já que a amava tanto.
Maldigo minha presunçosa incredulidade, meu mesquinho sentimento de superioridade, minha cegueira, minha teimosia – tudo –; mas é tarde demais. Eu não fazia ideia do perigo que Bertha corria. Perdi-a; e, agora, sei de tudo. Porém, não resta mais nada a fazer. O demônio que traiu nossa boa hospitalidade foi o responsável por tudo. Pensei que estava recebendo em minha casa inocência, alegria e uma companhia agradável para minha falecida Bertha. Oh, céus! Como fui tolo. Agradeço a Deus por minha filha ter morrido sem suspeitar da causa de seus sofrimentos. Partiu sem a mínima ideia da natureza de sua doença e do agente causador de tal desgraça. Morreu na paz da inocência e na gloriosa esperança de um futuro abençoado.
Dedicarei os dias que me restam a perseguir e extinguir um monstro. E espero realizar esse meu misericordioso propósito. No momento, mal tenho um raio de luz para me guiar.
Não consigo escrever ou falar de modo equilibrado agora. Estou profundamente perturbado. Entretanto, tão logo eu me recupere, pretendo ir a Viena. E, daqui a uns dois meses, caso eu ainda esteja vivo, irei visitá-lo, se me permitir. Contar-lhe-ei, então, tudo o que não ouso colocar neste momento no papel.
Adeus.
Ore por mim, caro amigo.”


Embora eu nunca tivesse visto Bertha Rheinfeldt, meus olhos encheram-se de lágrimas, em razão de sua morte. Por outro lado, eu estava assustada e desapontada.
O sol já se pusera; e as estrelas brilhavam no céu, no momento em que devolvi a carta para meu pai.
Era uma noite calma e clara; e aproveitamos para andar um pouco, enquanto especulávamos sobre os possíveis significados das frases violentas e incoerentes que eu acabara de ler. Tínhamos de percorrer cerca de uma milha até chegarmos à estrada que passa diante do castelo. E, quando lá chegamos, a lua já estava brilhando esplendidamente. Avistamos Madame Perrodon e Mademoiselle De Lafontaine na ponte levadiça – as duas haviam saído para admirar a belíssima lua cheia.
À medida que nos aproximávamos da ponte, ouvíamos mais claramente as vozes das duas mulheres. Madame Perrodon e Mademoiselle De Lafontaine conversavam animadamente, e juntamo-nos a elas na ponte levadiça. A seguir, nós, os quatro, ficamos admirando a paisagem maravilhosa.
A clareira por onde meu pai e eu tínhamos passeado estava à nossa frente. À nossa esquerda, a estreita estrada serpenteava para longe, sob grupos de árvores imponentes, e perdia-se de vista na espessa floresta. À direita, a mesma estrada atravessava a ponte gótica – algo que esqueci de mencionar é que, próxima dessa ponte existe uma torre (no passado, ela guardava a passagem) em ruínas. Além da ponte, surgia uma abrupta elevação, coberta de árvores e rochas cinzentas revestidas de hera. Nos terrenos baixos e gramados, uma fina camada de névoa se espalhava como fumaça, marcando as distâncias com um véu transparente. Aqui e ali, podíamos ver o rio brilhando palidamente ao luar.
Nenhum cenário mais sereno e agradável poderia ser imaginado. A notícia que eu acabara de saber tornaram-no melancólico; no entanto, nada poderia modificar seu encanto e seu caráter de profunda serenidade.
Papai, que é um apreciador do pitoresco, e eu ficamos admirando essa bela vista. As duas mulheres, um pouco atrás de nós, discorriam de modo eloquente sobre a lua.
Madame Perrodon era gorda, de meia-idade e romântica; conversava e suspirava de maneira poética. Mademoiselle De Lafontaine, cujo pai era alemão, assumia ares de psicóloga, metafísica e mística, declarando que, quando brilha com tanta intensidade assim, a lua age nos sonhos, nos dementes e nas pessoas nervosas. Em seguida, contou que um primo, imediato de um navio mercante, adormecera no convés em uma noite assim e despertara com o rosto horrivelmente repuxado para um lado, após ter sonhado com uma velha cravando as unhas em sua bochecha. Seu rosto jamais voltou ao normal.
– Em noites como esta, a lua está cheia de influência magnética – anunciou Mademoiselle De Lafontaine. – Querem prova disso? Se olharem para o schloss, poderão ver que suas janelas brilham e cintilam com um esplendor prateado. É como se mãos invisíveis tivessem iluminado os aposentos para receber hóspedes imaginários.
Há momentos em que, estando nós mesmos poucos dispostos a falar, a conversa de outras pessoas se torna agradável a nossos ouvidos. Aquele era um desses momentos; e eu escutava, atenta e deliciada, a conversa das duas mulheres.
De repente, meu pai falou:
– Estou um tanto depressivo esta noite... – A seguir, citou um trecho de Shakespeare, que costumava dizer em voz alta, a fim de manter vivo nosso Inglês: – “In sooth, I know not why I am so sad. It wearies me; you say it wearies you; But how I caught it, found it, or came by it…” (*) – Papai ficou um instante pensativo. Daí, disse: – Esqueci o resto. Mas sinto como se uma grande desgraça estivesse pairando sobre nós. Suponho que a carta angustiada do General tenha alguma relação com isso.
Nesse momento, nossa atenção foi atraída pelo som de uma carruagem e de muitos cascos sobre a estrada.
O ruído vinha da elevação que dominava a ponte gótica; e, dentro de muito pouco tempo, uma comitiva surgiu. À frente, vinham dois cavaleiros; em seguida, uma carruagem puxada por quatro cavalos; atrás do veículo, mais dois cavaleiros.
A carruagem parecia pertencer a pessoa importante; e todos nós ficamos observando aquele espetáculo raro. E a cena tornou-se mais interessante no instante em que a carruagem passava a parte mais alta da ponte: um dos cavalos dianteiros, assustando-se, transmitiu seu pânico aos demais; e, depois de um salto ou dois, todo o conjunto disparou em um galope desenfreado e, investindo contra os cavaleiros que estavam à sua frente, partiu, com a velocidade de um furacão, pela estrada.
A emoção da cena tornou-se mais dolorosa, devido aos gritos nítidos e prolongados de mulher, que partiam do interior da carruagem.
Nossa curiosidade e horror aumentaram. Porém, nossa expectativa não durou muito. Pouco antes de se alcançar a ponte levadiça do castelo, na direção de onde vinha a carruagem, há, num dos lados da estrada, uma frondosa limeira e, no outro, ergue-se uma antiga cruz de pedra. Ao verem a cruz, os cavalos, cujo galope era agora realmente assustador, desviaram-se, prendendo uma das rodas nas raízes salientes da limeira.
Eu sabia o que ia acontecer. Fechei os olhos, incapaz de ver até o fim; e, então, ouvi um grito das senhoras minhas amigas, que tinham avançado um pouco.
A curiosidade me fez abrir os olhos e ver uma cena de completa confusão: dois dos cavalos estavam por terra; a carruagem estava tombada de lado, com duas rodas para o ar; muito atarefados, os homens procuravam libertar os cavalos; e uma senhora, com aspecto e porte autoritários, que tinha saído do veículo, apertava nervosamente as mãos e levava, a todo momento, um lenço aos olhos. Da carruagem foi retirada uma jovem alta, que dava a impressão de estar morta. Meu querido pai, com o chapéu na mão, estava ao lado da senhora, evidentemente oferecendo-lhe ajuda. A mulher parecia não escutá-lo ou não ter olhos senão para a moça.
Aproximei-me. A moça – segundo o que declarou a senhora, ela era sua filha – fora colocada na margem da estrada. Papai, que se orgulhava de ter alguns conhecimentos de primeiros socorros, tomou-lhe o pulso e assegurou à senhora que a pulsação, embora fraca e irregular, era perceptível. A mulher apertou as mãos e olhou para cima, como se quisesse agradecer a Deus; mas logo interrompeu o gesto, que é, creio eu, natural, nessas circunstâncias, a muitas pessoas.
Havia qualquer coisa de distinto ou, mesmo, de imponente no ar e nas maneiras daquela senhora, o que convenceria qualquer pessoa de que era alguém importante. Ela tinha uma bela aparência e devia ter sido belíssima quando jovem. Era alta e não muito magra; usava um vestido de veludo preto; e estava um tanto pálida e estranhamente agitada.
– Que calamidade! – Ouvi-a exclamar. – Aqui estou, numa jornada de vida ou morte, em que o atraso de uma hora pode significar a perda de tudo. Minha filha não se recuperará suficientemente para continuar a viagem, que nem sei quanto tempo irá durar. Tenho de deixá-la; não posso, não ouso demorar-me. Pode dizer-me, senhor, a que distância fica a aldeia mais próxima?  Devo deixá-la lá; e não a verei nem saberei nada dela até minha volta, daqui a três meses.
Puxei meu pai pelo casaco e sussurrei junto ao seu ouvido:
– Oh, papai, peça-lhe que a deixe conosco; seria maravilhoso. Vamos, peça!
– Se a senhora quiser confiar sua menina aos cuidados de minha filha e de sua ama, Madame Perrodon, e permitir que ela fique conosco, sob minha responsabilidade, isso será para nós uma grande honra. Asseguro-lhe que cuidaremos dela com todo o cuidado e dedicação.
– Não posso fazer isso, senhor. Seria abusar de sua bondade e cavalheirismo – replicou a senhora.
– Pelo contrário. Seria uma gentileza que a senhora faria. Minha filha está desolada, porque acabou de receber uma triste notícia. Se a senhora confiar essa jovem aos nossos cuidados, trará um pouco de alegria à nossa casa. Além do mais, a aldeia mais próxima fica muito distante daqui e não dispõe de nenhuma hospedaria onde possa deixar sua filha. Portanto, se deseja a segurança dela, deve confiá-la a nós.
A carruagem já estava de pé; e os cavalos, totalmente acalmados, presos aos tirantes.
A senhora lançou à filha um olhar que não me pareceu tão terno como poderíamos esperar; em seguida, fez um gesto ao meu pai. Os dois afastaram-se e ficaram a uma distância em que poderiam conversar sem serem ouvidos. A mulher falava agora com um ar grave, um ar de modo algum semelhante àquele com que falara até então.
Fiquei admirada de papai não dar mostras de haver percebido essa mudança. Também fiquei extremamente curiosa para saber o que a senhora poderia estar falando, quase ao ouvido dele, com tanta gravidade e rapidez.
Durante dois ou três minutos, penso eu, a senhora conversou com meu pai; a seguir, voltou-se e deu alguns passos em direção à filha, que estava amparada por Madame Perrodon. Ajoelhou-se ao lado da jovem, beijou-lhe o rosto e murmurou qualquer coisa, que julguei ser uma pequena prece; depois, levantou-se e entrou na carruagem. A porta do veículo foi fechada; o cocheiro estalou seu chicote; e os cavalos partiram a trote largo, que logo se transformou em galope furioso. Em pouco tempo, a carruagem desapareceu de vista, seguida pelos dois cavaleiros na retaguarda.

 

NOTA:

(*) “Não sei, realmente, porque estou tão triste.
Isso me enfara; e a vós também, dissestes.
Mas como começou essa tristeza,
de que modo a adquiri, como me veio...”

(William Shakespeare, O Mercador de Veneza, Ato I, Cena I, tradução de Carlos Alberto Nunes)

 

continua no próximo número