Ano 3 - nº 9 - fevereiro/maio de 2011

AS BANDOLEIRAS DO FAR-WEST
Michel Gall



Calamity Jane (Jane Calamidade); Rosa do Cimarron, cujo verdadeiro nome era Rose Dunn (ou O’Leary); Myra Belle Shirley, conhecida como Belle Starr, a mais autêntica bandoleira do Oeste; Pearl Hart, que participou do último assalto a diligências (era a última diligência que circulava antes de ser substituída pelo trem); Annie McDougal, ou melhor, Cattle Annie, e Jenny Metcalf, apelidada de Little Breeches, duas integrantes do bando de Bill Doolin, sonhavam viver as aventuras subentendidas nas deliciosas expressões dos cowboys“to paint the town red” (“pintar a cidade de vermelho”, a cor do sangue e do inferno, isto é, realizar atos de desordem, farras e assaltos), “to raise hell in town” (“instalar o inferno na cidade”, o que quer dizer o mesmo, mas de forma menos pitoresca), “to see the elephant” (ou seja, ter experiência com o extraordinário, já que os elefantes, como se sabe, são raros no Oeste); Mattie Earp (nascida Mathilde Blaylock), que, se estivesse viva hoje, seria a única pessoa capaz de dizer quem foi realmente seu marido, Wyatt Earp (teria sido ele um herói perseguido pela má sorte ou um legítimo bandido?); Kate Fisher, chamada de Big Nose Kate (Kate Nariguda), a companheira do bandoleiro Doc Holliday... Todas elas pertencem à época mais conturbada do Far-West. Foram companheiras ou rivais dos mais célebres fora-da-lei norte-americanos da segunda metade do século 19. Vestidas quase sempre com roupas masculinas, falando alto, rápidas no gatilho e no chicote, elas entraram para a História e para a lenda.
Pouco antes de 1900, foram popularizadas universalmente pela literatura popular, pelas dime novels. Para milhões de norte-americanos, elas se tornaram as valquírias, as amazonas do Oeste, e simbolizavam a emancipação feminina. Embora fossem criminosas, eram-no para demonstrar que a mulher podia ser igual ao homem em tudo.
“Calamity Jane era capaz de acender um cigarro em pleno galope e dava gritos dignos de um guerreiro indígena – se não pelo estilo, ao menos pelo volume. É a mais atrevida diaba destas montanhas. Bebe uísque, joga cartas. Não há outra assim”, eis o que escreveu o romancista Edward L. Wheeler em um de seus livros.
Essa imagem não é falsa; mas, infelizmente, a maioria das heroínas popularizadas pelas dime novels é totalmente inverossímil. Os autores contentavam-se em inverter a tradição, isto é, em atribuir à heroína os feitos que eram esperados de um herói. Desse modo, em uma das histórias, a personagem Hurricane Nell “corre mais rápido, galopa mais depressa e é melhor no laço do que qualquer um dos homens que a acompanha”. Abate três homens com três tiros (sucessivos) de carabina e, depois, com “a força de seus magníficos braços”, ergue um de seus admiradores e o instala no dorso de um garanhão selvagem.
Esse gênero de narrativa deriva mais do folclore do Oeste dos Estados Unidos do que da realidade objetiva. Todas as proezas das históricas valquírias do Oeste têm seu modelo: sob os retratos que os biógrafos e romancistas apresentam, sempre se reconhece mais ou menos a bela Slue Foot Sue, amazona imaginária que ocupa lugar importante nos contos e canções dos pioneiros. Slue Foot Sue aparece na história do herói lendário Pecos Bill, cujas façanhas os pioneiros contavam à noite, junto à fogueira.
Quando Pecos Bill a encontra, ela cavalga um peixe-gato do Rio Grande. Slue Foot Sue comete, então, o erro de tomar o cavalo de Pecos Bill, um famoso cavalo de corridas, que, corcoveando, a joga para a Lua. Ela fica oscilando entre a Terra e a Lua durante três dias e quatro noites. Para evitar que morra de fome, Pecos Bill a mata com uma pistola de seis tiros, arma que acabara de inventar.
As narrativas inverossímeis das dime novels, as encenações dos teatros populares que percorreram os Estados Unidos por volta de 1900 e, finalmente, os filmes de Hollywood misturaram, infelizmente, o exagerado fundo de mitologia e tudo aquilo que se sabe sobre as mulheres bandoleiras do Far-West.

 

Este texto foi transcrito de Enciclopédia da Luta Contra o Crime volume 2 (tradução de Geraldo Moretzon Monteiro, São Paulo, Abril Cultural, 1974, p. 416)